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PORTUGAL
20
de Dezembro de 1994
Não sei se diga. Não sei se diga que vim para
Paris, não sei se diga que participei pela primeira vez da assembleia
da Academia Universal das Culturas e que nela botei fala crítica, tão
protestativa quanto doloridamente patriótica. Se digo, que dirão? Que
não devia dizer, que deveria ter dito outra coisa, tudo menos que fui a
Paris e que me receberam na Academia, aquela. [...] Limitar-me-ei a
dizer umas quantas palavras daquelas que não disse:
“Quando se pede a um português uma definição
breve do seu País, as explicações previsíveis, pondo de parte alguma
diferença de pormenor, são, invariavelmente duas: a primeira, ingénua,
optimista, proclamará que jamais existiu, debaixo do sol, outra terra tão
notável e tão admirável gente; a segunda, pelo contrário, corrosiva
e pessimista, negas essas sublimadas excelências e afirma que, últimos
entre os últimos do continente europeu desde há quatro séculos, nessa
situação ainda hoje nos comprazemos, mesmo quando protestamos dela
querer sair.
“Procuram os optimistas encontrar em tudo razões
para que os portugueses possam vangloriar-se duma identidade, duma
cultura, duma história alegadamente superiores, como se a História,
Cultura, Identidade, qualquer que seja o grau de comparabilidade recíproca
admissível, não fossem radicalmente inseparáveis, conflitiva ou
harmoniosamente, dos seres humanos no tempo.
“Já os pessimistas, propensos, em geral, a
percepção relativizadora dos factos, afirmam que a História e a
Cultura portuguesas, projectadas na época dos Descobrimento em todas as
direcções do globo, Não foram, depois deles, e hoje, no limiar de
integrações de todo o tipo que se anunciam arrasadoras, igualmente não
parecem, essa História e essa Cultura, bastante sólidas para defender,
preservar e intensificar a identidade de um povo que, com demasiada
frequência, cai na simpleza de gabar-se de viver dentro das mais
antigas fronteiras da Europa, como se o facto, inegável, se devesse
exclusivamente a méritos próprios, e não, como a História ensina,
aos acasos da geografia e à evidente insignificância da região.”
Também não disse:
“Ao longo de quatro séculos vivemos o que
poderia denominar-se a expressão endémica duma subalternidade
estrutural, atravessada por surtos agudos de intervenção estrangeira
directa, como foi o caso do pró-consulado de William Baresford, o
general inglês que foi para Portugal em 1809, com a missão de
reorganizar o exército desmantelado em consequência da primeira invasão
napoleónica, e que no país se manteve até 1820, exercendo um poder
que foi, primeiro, rigoroso, depois abusivo, e finalmente ditatorial. Do
mesmo nosso aliado britânico viria mais tarde, em 1890, a brutalidade e
a humilhação do Ultimatum, sem dúvidas um episódio menor no quadro
mundial das disputas coloniais da época, mas que se configurou como
ocasião para uma daquelas erupções de passionalidade patriótica com
que, de longe em longe, procura equilibrar-se vitalmente a habitual
passividade portuguesa. Chegou-se ao ponto de promover uma subscrição
nacional para a compra de navios de guerra, a qual, sendo tão escassos
os recursos do país, não deu para mais que a aquisição dum cruzador,
construído em Itália, que entrou em Lisboa sete anos depois. Tinha razão
Antero de Quental quando escreveu, no meio do mais indignado ardor das
manifestações públicas, estas lúcidas e implacáveis palavras que
deveriam ter nos servido de lição para o futuro: ‘O nosso maior
inimigo não é o inglês, somos nós mesmos...’.”
Igualmente não disse:
“Acabamos de sair duma longa
e traumatizante guerra colonial, teria sido desejável que os
portugueses tivessem podido pensar sobre si mesmos, examinando o seu
passado e o seu presente, para depois, pelos caminhos de um a consciência
criticamente nova, acertarem o passo com a modernidade, sendo, porém,
primeira condição desse ajuste novo o apuramento e desenvolvimento de
mais amplas capacidades de auto-rejeneração, e não a simples adopção,
voluntária ou forçada, de modos alheios que, no final das contas, já
demasiado o sabemos, muito melhor servem a alheios interesses.
“Porém, a História tinha pressa, a História
não podia esperar que nós Portugueses parassem para pensar em si
mesmos, fazendo algo parecido com um exame do seu sentido histórico,
num trabalho sério de reflexão coletiva que lhes permitisse
identificar claramente as causas estruturais, mas também as ideológicas
e psicológicas, da sua tendência de aceitar ser, como uma espécie de
determinismo congénito, uma espécie menor, e de certa maneira nisto se
satisfazerem, talvez por que essa subordinação lhes permite, por um
lado, exercitar a paixão da lamentações e dos protestos contra a
constantes incompreensões e injustiças dos poderosos, paixão essa
acrescida de um fechar-se a si mesmo a que chamam de orgulho nacional,
e, por outro lado, persistir em interpretações messiânicas do destino
português, actualizando-as e adaptando-as, melhor ou pior, a às novas
realidade exteriores.
“Bastará recordar a Mensagem de Fernando
Pessoa, agora retomada por novos visionários de todas as idades,
porventura de uma maneiro menos primariamente “patriótica”,
dificilmemte adoptável por aqueles outros, os pragmáticos, que se
preocupam, sobretudo, com decorar e repetir, com se seu fosse, o
discurso europeu oficial, abandonando, por antiquados, o sonho pessoano
de um império espiritual português, excepto nos casos em que tais
discursos se mostre ainda intelectualmente vantajoso para uso interno,
ainda assim muito mais com o objectivo de ornamentar com citações
literárias a banalidade da nove retórica política do que por convicta
adesão a esses retardados messianismos.”
O que vem a seguir também não foi dito:
“Interessante, porém, será observar como
uns e outros, os visionários e os pragmáticos, coincidem numa visão
finalmente providencialista: enquanto os primeiros teimam em colocar num
campo sucessivamente adiado a Hora em que Portugal se achará a
si mesmo, os outros, prosseguindo um percurso mental semelhante, colocam
suas esperanças nas benesses materiais da União Européia, graças ao
que, com um mínimo de esforço próprio e como que por um efeito mecânico
de “arrastamento”, consequência do processo integrador geral, todos
os problemas portugueses se acharão resolvidos, com as evidentes
vantagens do dinheiro fácil, do curto prazo, das datas à vistas, em
lugar da infinita espera de um infinito futuro.
“Tudo considerado, creio poder dizer-se,
quanto ao primeiros, que lhes é bastante indiferente o que Portugal
venha a ser, desde que seja (mesmo apresentando-se tão pouco nítido
o ser que é possível deduzir das nebulosas especulações);
quanto aos segundos, tão pouco essas questão lhes parece importante,
porque, não tendo uma ideia precisa do que Portugal poderia ser, estão
decididos a transformá-lo noutra coisa o mais depressa possível,
e, sendo tão faltos de imaginação criadora, não serão capazes de
fazer melhor que pagar, por qualquer preço, o modelo europeu do prêt-à-porter,
onde o corpo português terá de entrar, com jeito ou a força,
consoante as exigências de cada momento, reduzindo-o no que sobrar ou
esticando-o até a completa ruptura social e cultural.”
E finalmente não disse:
“Portugal não foi capaz, até hoje, nem
parece preparado para o fazer, de definir e executar um projeto nacional
próprio, obviamente enquadrável, sendo as coisas o que são, na União
Europeia, mas não exclusivamente tributário dela, porquanto uma
definitiva dependência económica (ressalvando o que na palavra definitivo
há de demasiado categórico) não deixará de acarretar uma dependência
política e cultural não menos definitiva. O que, no decorrer dos
tempos, foi começado por incipientes interesses dinásticos, depois
continuados por razões imperiosas de estratégia militar, será
inevitavelmente consolidado pela lógica de ferro dos condicionamentos
políticos e culturais que resultarão duma organização planificada, não
só da produção e da distribuição, mas também do consumo...
“Não parece parecem estas evidências
perturbar excessivamente os governantes europeus. Menos ainda, talvez, os governantes
portugueses, se tenho em conta a resposta dada por um deles - hoje
festejado comissário da União Europeia -, ao serem-lhe apontados os
perigos duma diminuição da soberania nacional por efeito da aplicação
do Tratado de Maastricht: ‘Ainda no século passado, um governo
português não chegou a tomar posse por a isso se ter oposto o
almirante duma esquadra inglesa fundeada no Tejo...” E sorriu a dizê-lo,
provavelmente porque, a partir de agora, as ordens, ferindo ou não a
legitimidade dos governos e a dignidade dos povos, vão passar a ser
dadas por um civil - e de Bruxelas.”
Realmente, não sei se diga. É que teria que
dizer que vim aa Paris, que vim à assembleia da Academia Universal das
Culturas, e isso já se sabe que não pode ser dito. Não faltaria mais.
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1996 Companhia das Letras
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