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OS ANOS DO ECLIPSE DE SARAMAGO
ADRIANO
SCHWARTZ
É José
Saramago, quem conta, no terceiro volume de seus Caderno de Lanzarote,
que, quando defendeu a tese de doutorado na Universidade de Yale, nos
EUA, Horácio Costa foi recriminado pelas lacunas bibliográficas do
texto. Comenta o autor de Ensaio sobre a cegueira: “Horácio Costa não
tinha culpa de que até aí ninguém se tivesse interessado seriamente
pelo que andei a fazer nos anos do eclipse, mas os meritíssimos
professores não arredavam pé: uma tese em boa e devida forma, uma tese
que se respeite, quer-se com bibliografia, e esta não tinha. Levaram
tempo a perceber que o trabalho de Horácio Costa até nisso teria de
ser inovador: inaugurava a bibliografia que não existia.”
O
escritor português constata assim um dos pontos importantes de José
Saramago - O período formativo, publicado em Portugal pela Caminho. Ao
analisar a produção do autor anterior ao romance Levantado do chão,
ou seja, a 1980, Costa tratou de obras (e questões) praticamente
ignoradas da crítica até então. Com isso, pôde indicar nexos e
propor interpretações de grande utilidade para quem se dispuser a
estudar ou conhecer melhor o universo ficcional de Saramago. , ainda
mais agora que a parte (re)conhecida desse universo foi premiada com o
Nobel de literatura.
A
delimitação do campo de estudo oferecia sérios riscos para o
pesquisador, uma vez que a questão do valor da obra literária é, na
atualidade, muitas vezes postas de lado, o que implica a tentação tão
comum de superdimensionar o objeto analisado (pressupondo-se - absurda
conseqüência - a supervalorização do analista). Logo no início do
estudo, entretanto, Costa demonstrou não ter adotado essa postura ao
afirmar a necessidade de “observa o secundário como secundário”.
Outro
risco foi adotar a posição de, dentro do espaço de tempo escolhido,
não excluir nenhum aspectos da atividade de Saramago ligadas à
literatura. Assim, estudou-se, com igual ênfase, o poeta, o dramaturgo,
o contista, o romancista, o tradutor, o crítico e o cronista. Aí,
pode-se dizer que a opção inspira ressalvas. Faltou separar com maior
cuidado o que era secundário dentro do secundário, ou, para dizer de
modo diferente, priorizar a compreensão do fundamental dentro do
universo textual escolhido. O trecho do livro dedicado aos Poemas possíveis
e a Provavelmente alegria ocupa, por exemplo, quase o mesmo espaço do
trecho em que são comentadas as atividade de Saramago como crítico
literário e tradutor. E, no caso específico de Saramago, ambas, mas
principalmente a de tradutor, podem ser vistas mais como
“curiosidades” do que como fonte de conhecimento efetivo sobre a
obra.
Além
da introdução e conclusão o livro traz sete capítulos, cada um
relativo a um traço da expressão criativa de Saramago. No primeiro,
Costa estuda o romance Terra do Pecado - publicado pelo escritor em 1947
e apenas recentemente relançado em Portugal - enfatizando sua feição
naturalista e a defasagem estilística e a temática que este
apresentava em relação ao que era feito em Portugal na época.
O capítulo
seguinte trata dos dois livros de poemas citado anteriormente, que foram
lançados em 1966 e em 1970, respectivamente. Ao centrar a análise, com
acerto, nas ligações da produção poético com a futura produção
romanesca e acompanhar as modificações introduzidas pelo autor nas edições
“revistas e aumentadas” publicadas nos anos 80, Costa compõe aquele
que é um dos momentos mais interessantes do livro, mostrando, por
exemplo, com a obsessão que resultaria em O ano da morte de Ricardo
Reis já se fazia presente em Os poemas possíveis.
Os três
capítulos seguintes lidam com as crônicas (Deste mundo e do outro e A
bagagem do viajante),. Com as peças (A noite e Que farei com este
livro) e com as traduções e críticas feitas pelo autor. O sexto capítulo,
que estuda O ano de 1993 e A poética dos cinco sentidos - O ouvido, é
particularmente interessante por mostrar a feição mais radical de um
Saramago experimentalista, feição que terá fecundos desenvolvimentos
na dicção do escritor a partir de Levantado do chão, como se pode
apreender pela leitura de um trecho de um dos fragmentos de O ano de
1993 citado por Costa, que carrega em si uma voz quase reconhecível, um
tom já familiar:
“As
pessoas estão sentadas numa paisagem de Dalí com as sombras muito
recortadas por causa do sol que diremos parado
Quando
o sol se move quando acontece fora das pinturas a nitidez é menor e a
luz sabe muito menos o seu lugar
Não
importa se Dalí tivesse sido tão mau pintor pintou a imagem necessária
para os dias de 1993(...)”
No sétimo
capítulo, Costa comenta os contos de Objecto Quase e o
romance Manual de caligrafia e pintura, ambos já bastante
conhecidos dos leitos brasileiros. No conto “A cadeira”, o analista
identifica quatro componentes fundamentais da escrita do mais recente
Saramago com que vinha trabalhando ao longo do texto: a prosa barroca, o
discurso cinematográfico, a tendência a digressões e a postura
comprometida. Vale a pena notar se, tais característica poderiam ser
apontadas com básicas à época em que o estudo foi escrito (o último
lançado pelo autor era, então, O Evangelho segundo Jesus cristo), hoje
em dia, com as publicações de Ensaio sobre a cegueira e de Todos os
nomes, o romancista deu - mantendo as conquistas discursivas - uma outra
guinada em sua trajetória, que, suspeito, tem raízes não mais tanto
no seu “período formativo” trabalhado no estudo, mas no período
seguinte, principalmente no tripé O ano da morte de Ricardo Reis, História
do cerco de Lisboa e O evangelho segundo Jesus Cristo. Isso, porém, já
é tema para uma nova obra. Esta, José Saramago - O período formativo,
cumpre com rigor aquilo a que se propusera.
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1998 Cult |