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LANZAROTE
9
de Maio de 1993
Subi
ontem a Montaña Blanca. O alpinista do conto tinha razão: não há
nenhum motivo sério para subir às montanhas, salvo o facto de elas
estarem ali. Desde que nos instalámos em Lanzarote que eu andava a
dizer a Pilar que havia de subir todos estes montes que temos por trás
da casa, e ontem, para começar, fui-me atrever com o mais alto deles.
É certo que são apenas seiscentos metros acima do nível do mar, e, na
vertical, a partir do sopé, serão aí uns quatrocentos, ou nem isso,
mas esse Hilary já não é criança nenhuma, embora ainda muito capaz
de suprir pela vontade o que lhe for faltando de forças, pois em
verdade não creio que sejam tantos os que, com essa idade, se
arriscassem, sozinhos, a uma ascensão que reqier, pelos menos, umas
pernas firmes e um coração que não desita. A descida feita pela parte
da montanha que dá para San Bartolomé, foi trabalhosa, bem mais
perigosa que a subida, pois o risco de resvalar era constante. Quando,
enfim, cheguei ao vale e à entrada que vai para Tías, as tais firmes
pernas minhas, com os músculos endurecidos por um esforço para que não
tinham sido preparados, mais pareciam trambolhos que pernas. Ainda tive
que caminhar uns quatro quilómetros para chegar em casa. Entre ir e
volver, tinham-se passado três horas. Lembro-me de haver pensado,
enquanto subia: “Se caio aqui e me mato, acabou-se, não farei mais
livros.” Não liguei ao aviso. A única coisa importante que tinha
para fazer naquele momento, era chegar lá acima.
16
de Junho
Comprámos
hoje a parcela do terreno que está em frente da casa, do lado do mar.
Fiz o que estava ao nosso alcance para proteger a vista que tínhamos
aqui quando construímos a casa. Agora só espero que o dono da parcela
seguinte não levante lá uma torre para viver. Já nos sobeja esse
misto de castelo e mesquita com que o Mouro Rachid nos veio tapar a
vista de Puerto de Carmen. Em quem nunca teve nada, como é o meu caso,
dá muito o que pensar este zelo de proprietário novel que não suporta
vizinhanças.
27
de Junho
Fim-de-semana
em Fuerteventura. Mais árido e mais agreste do que esta ilha de
Lanzarote, em cuja paisagem, se repararmos bem, é possível reconhecer
alguma coisa de teatral, uma máquina de rompimento e bombolinas que
distrai o olhar e que faz viajar o espírito, como se estivéssemos
diante de um ciclorama em movimento. Fuerteventura é todo secura e
brutalidade, ao passo que Lanzarote, mesmo quando nos parece
inquietante, ameaçador, mostra um certo ar de doçura feminina, o mesmo
que apesar de tudo, teria Lady Macbeth enquanto dormia. As montanhas de
Lanzarote estão nuas, enquanto as de Fuerteventura foram esfoladas. E
se, em Lanzarote, exceptuando-se as Montanhas do Fogo por serem parque
nacional, as povoações se sucedem umas as outras, em Fuerteventura,
que é três vezes maior, pode-se andar quilómetros e quilómetros sem
encontrar vivalma, nem casas nem sinais de cultivo. Fuerteventura dá a
ideia de ser uma terra muito velha que chegou aos seus últimos dias. Os
alemães estão por toda a parte, são pesados, maciços, ocupam, como
coisas sua, os hotéis, as urbanizações turísticas, os restaurantes,
as piscinas, as ruas. Habituaram-se a comporta-se como donos da ilha
desde a Segunda Guerra Mundial, quando Fuerteventura esteve para ser
base de submarinos da Alemanha, se outro tivesse sido o desfecho da
batalha de El Alamein. Diz-se que , depois do fim da guerra, vieram cá
esconder-se uns quantos nazis importantes [...]
24
de Julho
O
prazer profundo, inefável, que é andar por estes campos desertos e
varridos pela ventania, subir uma encosta difícil e olhar lá de cima a
paisagem negra, escalvada, despir a camisa para sentir directamente na
pele agitação furiosa do ar, e depois compreender que não se pode
fazer mais nada, as ervas secas, rente ao chão, estremecem, as nuvens
roçam por um instante os cumes dos montes e afastam-se em direcção ao
mar, e o espírito entra numa espécie de transe, cresce, dilata-se, não
tarda que se instale de felicidade. Que mais resta, então, senão
chorar?
26
de Abril de 1994
Uma
carta do Brasil traz no endereço essa charada geográfica e toponímica:
Lanzarote, Ilhas Canárias, Portugal. Foi verdade, sim senhor, mas só
entre 1448 e 1450, quando os portugueses estiveram em Lanzarote graças
a um tal Maciot de Béthencourt, francés, sobrinho de Jean de Béthencourt,
que, tendo recebido deste tio, primeiro explorador sistemático do
arquipélago, os direitos sobre Lanzarote, os cedeu, não sei em troca
de que, ao infante D. Henrique. Não durou muito o domínio: dois anos
depois de termos desembarcado, fomos postos fora daqui, diz-se pelos
habitantes. A carta chegou atrasada pois quinhentos e cinquenta anos,
mas ainda há tempo d vingar doutras cartas que recebi, de França
principalmente, aquelas que traziam como direção Lisboa, Espanha...
30
de Novembro de 1995
Palavras
iniciais da conferência que fui dar em Las Palmas, no Centro Insular de
Cultura:
“Vivemos,
nós os que habitamos nas Canárias, em sete jangadas de pedras erguidas
pelo fogo e agora ancoradas no mar, se não contarmos uns quantos ilhéus
que são como barcas orgulhosas que não quiseram recolher-se ao porto.
Embora não creia no destino, pergunto-me se ao escrever minha Jangada
de Pedra, a outra, não estaria já buscando, sem o saber, a rota
que sete anos depois me havia de levar a Lanzarote.
“Porém,
a ‘jangada de pedra’ não é só o original e particular meio de
transporte de que me sirvo para as grandes ocasiões: ela é também
essa parte do mundo que nos leva e traz desde antes que pudéssemos
chamar-nos a nós próprios portugueses e espanhóis, a velha penísula
carregada de história e de cultura que cometeu o prodígio de fazer-se
inteira ao mar para levar a Europa aonde ela não parecia capaz de ir
por suas próprias artes e indústrias. E se, cinco séculos depois, um
discreto escritor português se atreveu a romper as amarras que nos
prendem ao cais europeu, foi ainda para tentar persuadir a Europa, e em
primeiro lugar a portugueses e espanhóis, de que já é tempo de olhar
para o Sul, de trabalhar com o Sul, e de que a possibilidade de um
efectivo papel histórico dos povos da Penísula Ibérica no fundo
dependente da sua compreensão de que são, de um lado e do outro da
fronteira, continentais, sim, mas também atlânticos e ultramarinos.”
[...]
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