23 de
Fevereiro de 1994
Levaram
Deus a todos os lugares da terra e fizeram-no dizer: “Não adoreis essa
pedra, essa árvore, essa fonte, essa águia, essa luz, essa montanha, que
todos eles são falsos deuses. Eu sou o único e verdadeiro Deus.” Deus,
coitado dele, estava caindo em flagrante pecado de orgulho.
Deus não
precisa do homem para nada, excepto para ser Deus.
Cada
homem que morre é uma morte de Deus. E quando o último homem morrer,
Deus não ressuscitará.
Os
homens, a Deus, perdoam-lhe tudo, e quanto menos o compreendem mais lhe
perdoam.
Deus é
um silêncio do universo, e o homem o grito que dá um sentido a esse
universo.
30 de
Outubro
Ema
casa. No meio da correspondência que se acumulou durante estes dias de
ausência venho encontrar a resposta definitiva à pergunta célebre:
“Onde está Deus?” Antes de inventar-se a aviação era claríssimo
que Deus habitava o céu. As nuvens aí estavam para adornar a sua glória,
altas ou baixas, tanto fazia, mas as mais demonstrativas, por singular que
pareça, ainda eram as mais baixinhas, quando pelos intervalos delas
desciam, magníficos, oblíquos jorros de luz. Não custava nada acreditar
que, lá no alto, no espaço invisível, precisamente no ponto da imaginária
intersecção dos feixes luminosos, Deus presidia. Depois começou-se a
voar por cima das nuvens e logo tornou-se patente que Deus não estava lá,
não havia vestígios dele em todo o infinito azul. Felizmente não tardou
que alguém tivesse a genial ideia de dizer que Deus se encontrava em toda
a parte e que, portanto, não valia a pena procurá-lo. A explicação era
tão boa que pôs a dormir, por muitos anos, a nossa mais do que legítima
curiosidade. Até hoje. Hoje estou eu em condições de revelar que Deus,
usando o pseudónimo humano de Alfredo Lopes Pimenta, vive em Riba
d’Ave, num lugar chamado Monte Negro S. Mateus. Outras coisas não me
atrevo a concluir de uns “versos” que por ele me foram enviados
(suponho que os erros de ortografia, ainda assim poucos, serão consequência
das confusão linguística que forçosamente existe na cabeça de um Deus
que está obrigado a conhecer todos os idiomas). Segue, ipsis verbis,
isto é, tal e qual, a “poesia”.
Agora só
me falta receber, em prosa ou verso, com pseudónimo ou nome em próprio,
uma carta do Diabo. Entretanto, ninguém, a partir de agora, poderás ter
dúvidas: andávamos à procura de Deus no céu e Ele, afinal, estava em
Riba D’Ave.
31 de
Outubro
Ainda a
propósito de Deus: tive hoje a revelação surpreendente, luminosíssima,
direi mesmo deslumbrante, de que se é verdade que não sou “teólogo”,
como se afadigam e recriminar-me os que não gostaram do Evangelho,
“teólogos” também não foram Marcos, Mateus, Lucas e João, autores,
eles com eu, de Evangelhos...
31 de
Março de 1995
A propósito
da próxima apresentação de Divara no Festival de Ferrara, a
revista italiana Panorama faz-me algumas perguntas, a saber:
a) Porquê, da
parte de alguém que se afirma ateu, tão grande interesse pelas questões
religiosas?;
b) Divara denuncia a tolerância
religiosa no século XVI, ou é uma metáfora da atualidade?;
c) Quais são o maior merecimento e o maior
perigo da fé?;
d) Se a fé religiosa comporta a conversão
de quem não crê, pode um homem de fé ser realmente tolerante?;
e) Tendo em conta as ameaças do
integralismo, é possível que chegue um tempo de respeito pelas diferenças
de raça, opinião e religião?;
f) Que
pensa do antagonismo, sublinhado pelo Papa na sua recente encíclica,
entre “lei de estado” e “lei moral”?;
g) Finalmente, em que crê?
Com
certeza de vou me repetir, mas com certeza igual de a repetição nunca
prejudicará a clareza, eis o que respondi:
a)
A mim o que me surpreende é o pouco interesse que os ateus demonstram
pelas questões religiosas. Só porque um dia se declararam ateus,
passaram a comporta-se como se a questão tivesse ficado definitivamente
arrumada. O meu ponto de vista é diferente. O facto de eu negar a existência
de Deus não faz com a Igreja Católica desapareça, nem tem qualquer
influência nas convicções (na fé, quero dizer) dos seus fiéis A
religião é um fenómeno exclusivamente humano, portanto é
natural que provoque a curiosidade e um escritor, ainda que ateu. Além
disso há uma evidência que não deve ser esquecida: no que respeita à
mentalidade, sou u cristão. Logo, escrevo sobre o que faz de mim a pessoa
que sou.
b) Desgraçadamente,
Divara não pode ser entendida como uma mera reconstituição histórica
nem como uma metáfora. O estado do mundo mostra-nos como a evocação de
manifestações de intolerância ocorridas há quatro séculos tem,
afinal, uma flagrante actualidade. Realmente dá que pensar o pouco que
aprendemos com a experiência.
c) O maior merecimento da fé, como ideologia
que é, está na capacidade de fazer aproximar seres humanos uns dos
outros. O seu maior perigo encontra-se no orgulho e considerar-se a si
mesma como a única e extensiva verdade, e portanto ceder a vontade de
poder, com todas as consequências.
d) A fé religiosa não comporta apenas a
vontade de conversão de quem não crê, comporta também a vontade de
conversão daqueles que seguem outra religião. Atitude, a meu ver,
totalmente absurda. Se há Deus, há um só Deus. Logo, equivalem-se todos
os modos de adorá-lo. Por isso mesmo, um crente, qualquer que fosse a sua
religião, deveria ser um exemplo de tolerância. Não é assim, como
todos os dias se vê. E ouso dizer que ninguém é mais tolerante que um
ateu.
e) O integralismo não é só islâmico, a
intolerância não é praticada apenas por aqueles que andam a matar em
nome de Ála. Hoje mesmo, sem chegar aos crimes que mancham seu passado, a
Igreja Católica continua a exercer uma pressão abusiva sobre as consciências.
Respeito pela diferença de raça, de opinião e de religião não o
prevejo para um futuro imediato, nem sequer próximo. Continuarem a ser
intolerantes porque não queremos compreender que não basta ser
tolerante. Enquanto formos incapazes de reconhecer a igualdade profunda de
todos os seres humanos não sairemos da desastrosa situação que nos
encontramos.
f) A
história da humanidade é um processo contínuo de transformações de
valores É verdade que o tempo que vivemos se caracteriza pelo
desaparecimento de valores tradicionais, sem que apareçam, de uma forma
clara, valores novos que sejam capazes de informar eticamente as
sociedades. Porém, esse antagonismo apontado pelo Papa não é de hoje,
mas de sempre. Alguma vez, na História, a “lei de Estado” coincidiu
com a “lei moral”? Ou será que o pensamento de João Paulo II se
orienta agora no sentido duma “cristianização” dos Estados laicos?
Se assim é, deveria começar talvez por “cristianizar” o seu próprio
Vaticano.
g) Creio no direito à solidariedade e no
dever de ser solidário Creio que não há nenhuma incompatibilidade entre
a firmeza dos valores próprios e o respeito pelos valores alheios. Somos
todos feitos da mesma carne sofrente. Mas também creio que ainda nos
falta muito para chegarmos a ser verdadeiramente humanos. Se o seremos
alguma vez...