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A Enfermeira Wolf possui uma jaula exatamente desse
tipo em sua masmorra, situada num prédio mais ou menos antigo
de tijolinhos, num bairro agitado de Manhattan. Não passa de uma
porta numerada no meio de um quarteirão _o tipo de lugar no qual
é fácil entrar e sair despercebido. Senti cheiro de velas acesas,
um aroma de capelas e altares, muito antes de adentrar o apartamento,
convertido em uma série de pequenas salas. Em uma delas havia
mais de 30 velas acesas. Eram desde velas altas, pingando cera,
até velinhas pequenas que bruxuleavam dentro de xícaras de cera
líquida, lançando uma luz fantasmagórica sobre o ambiente, que
já teria sido estranho mesmo sem elas.
Numa prateleira acima da jaula havia máscaras: máscaras
bobas de borracha, máscaras de animais e capuzes. Uma delas, que
até mesmo a enfermeira Wolf concordou comigo ser especialmente
assustadora, era uma máscara com capuz, sem buracos para os olhos,
com acolchoamento no lugar das orelhas e apenas um buraquinho
no lugar da boca, para permitir a respiração.
Para quem não está familiarizado com o mundo do
S&M, pode parecer estranho que um encanador ou eletricista combine
uma espécie de troca por seus serviços, mas isso às vezes acontece.
O assunto veio à tona quando comecei a especular sobre a riqueza
de seus clientes.
A maioria eram homens poderosos, mas alguns tinham
muito pouco dinheiro ou eram desempregados. Algumas pessoas economizavam
por muito tempo para pagar uma sessão. A Enfermeira Wolf não é
a única rainha que já encontrou mecânicos ou empregados domésticos
que concordam em trabalhar em troca de uma sessão de espancamento.
Nos jornais de dominação é frequente encontrar anúncios classificados
do tipo do seguinte: "Mulher dominante jovem, bonita e muito experiente,
com masmorra completa, procura marceneiro, homem, submisso e dedicado,
para fabricar mobília sofisticada para masmorra e fazer reformas
em minha casa, em troca de tempo passado como sua sedutora e torturadora
pessoal, objeto de toda sua submissão''.
Às vezes a Enfermeira Wolf obriga o homem a servir
à mulher ou amante: ela amarra o homem em "bondage'' de cabeça,
entre as pernas da mulher, e o obriga a ser o escravo sexual desta.
"Curto fazer a mulher se divertir ao máximo. Então fazemos qualquer
coisa que ela curta.''
Algumas mulheres ficam obcecadas e acabam chicoteando
seus homens com entusiasmo assustador. A cumplicidade da pessoa
amada é uma dádiva. A maioria dos clientes da Enfermeira Wolf
é obrigada a manter segredo sobre suas preferências, e isso representa
um problema quando o homem quer que sua queda pela dor não seja
revelada à sua mulher ou namorada.
"Um homem queria ir para casa com uma marca perfeita
de mão no rosto'', ela me contou. "Ele precisou inventar uma história
sobre ter sido assaltado. Outra complicação são as marcas deixadas
pelas cordas nos pulsos, ou as linhas deixadas pelas máscaras.
Uma pessoa que passou tempo suando numa máscara de couro preto
sai com manchas no rosto. O chicote costuma enredar-se nas coxas
e provocar contusões evidentes.''
Vários casais pediram para ser marcados a ferro
quente. A Enfermeira Wolf ferrou um homem nas nádegas, deixando-o
marcado por toda a vida. Outro homem foi marcado a ferro quente
com o nome de sua mulher.
Cortar é conhecido como "brincar com sangue''. "Eu
corto e costuro bastante'', disse a Enfermeira Wolf. Uma novidade
foi quando ela costurou a ponta do prepúcio de um homem e depois
pregou um botão em cima. O homem adorou. Ela ficou pasma com o
nível de dor que ele suportava. Finda a sessão, ele saiu para
jantar com uma amiga ("Não era prostituta _eu sei diferenciar'').
A mulher fazia parte do jogo. Ela levou uma tesoura e, mais tarde,
cortou os pontos.
"Um de meus escravos era doente em fase terminal'',
ela me disse certo dia. "Ele me contou sobre isso quase um ano
antes de contar a sua família. Assim, ele e eu tínhamos um segredo.
Eu era a única pessoa a saber.''
Ela continuou espancando-o. Ele era um dos homens
que gostam de "tratamento corporal pesado''. Continuou procurando
a Enfermeira Wolf para ser espancado até o mês antes de sua morte.
Foi importante para ela conhecer seu segredo, passou a gostar
de vê-lo; antecipava com prazer o momento de chicoteá-lo. Chorou
quando ele morreu.
Eu disse: "É quase como ter um relacionamento com
a pessoa.''
"Não é 'como'. É um relacionamento'', disse a Enfermeira
Wolf.
O
texto acima é uma versão reduzida de uma reportagem
maior publicada na revista "The New Yorker", de 15/7/98.
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