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CONTO
DE luizgoulart@quasar.com.br
O
ÓDIO PERDIDO
Era a terceira vez que ela o encarava com aquele olhar de desdém.
Ele não agüentava mais aquilo. Quanto tempo ela achava que ele
suportaria ? Três anos juntos e infinitas brigas, discussões,
humilhações públicas. Era como um concurso, como um teste, cada
um explorando ao máximo os limites do outro, testando sempre.
Experimentaram tudo juntos, as delícias intensas de serem como
um só, parecia ter ocorrido em um tempo lendário, ou fora um conto
de fadas ou uma piada de mau gosto. Experimentaram também a lama,
o lodo da relação, drogas, álcool, trocaram segredos íntimos,
revelações...Tudo! Afinal, eram um só.
Mas naquela noite ela estava usando a arma mais terrível, reservada
para momentos extremos. Ele sentia um misto de raiva, desprezo
e desejo. Segurou-a pelo pulso, forte. Ela levantou o queixo,
jogou o cabelo para trás...e aquele olhar...Ele jogou-a no sofá
e ela ainda exibia o sorriso, cínico, superior, cada vez mais
venenosa.
Ela, cada vez mais dona da situação. Quem conseguiria dobrá-la,
vencê-la ? Ele decidiu que naquela noite, naquela hora, pelo menos
por um minuto ele seria capaz de derrotá-la.
Meio envolvido por essa tênue gana de macho ferido ele se moveu.
Seguro finalmente. Mas ela não o sabia ainda.
O sorriso ainda continuava ali, o desprezo também. Ela usava toda
a munição. Ele avançava como um gato, como uma cascavel e sem
que ela esperasse, porque ele nunca o fizera antes, rasgou-lhe
a blusa com violência e força e os seios dela saltaram firmes
sob o tecido.
A visão o provocou mais. Era como um selo, um sinal, um símbolo.
O sorriso agora já era forçado, o pudor, atávico. Surpresa mal
disfarçada. Mas ela bem que tentou. Fêmea acuada, tentou... A
munição já fora gasta ? Ele ainda não sabia.
Estava determinado. Sentou-se entre as pernas dela e com ódio
e desejo no olhar, enfiou as mãos sob o seu vestido, alisando
as suas coxas sem desviar os olhos do seu olhar.
Se ela resistisse era como capitular, se se entregasse era como
dar-se por vencida. A dúvida estava tão presente quanto a faísca
quase morta do desejo que súbita e sorrateiramente parecia reacender.
Ele seria capaz de fazer aquele desejo reviver? A umidade no baixo
ventre parecia gritar que sim. Sim!
Mas na mente, ou seria no peito, a raiva, os remorsos e o desejo
de castigá-la pareciam ainda ser fortes. Ele era forte, sua barba
mal feita de alguns dias, o cheiro de álcool e maconha tornavam
sua figura um misto de mendigo, de homem do mundo, marinheiro,
os desejos de moça dela.
Quanto tempo? Ela ainda se lembrava de tudo, quanto se rastejara,
quanto se humilhara, implorara carinho. Aquele homem era o homem
que matara sua inocência. Aquela mulher agora era ela. Decidira
após esse tempo todo vingar-se dele mas a mão alojada agora no
desvão da vagina era onipotente, retirando-lhe as energias que
precisava para cumprir a missão. Aquela umidade teimava em contradizer
o olhar de des-pre-zo.
Ele baixou o rosto e mordeu delicadamente, queria ser rude, foi
suave, um dos bicos de um dos seios. Percebendo-se suave mordeu
mais forte. Queria ser rude. O bico do seio crescia dentro da
sua boca. Ele desceu com a língua pela barriga até o umbigo, mergulhou
devagar fazendo voltas, a barriga dela agora descia e subia, ela
já arfava baixinho, tentava controlar-se mas o sangue já inundava
o seu rosto e todo o resto. A mão queria acariciar os cabelos
desse homem, mas ela resistiu no meio do caminho.
Bravamente, ela lutava contra uma maré, um oceano de carne que
pulsava. Ele levou uma das mãos à braguilha e apressadamente tirou
seu pedaço mais quente e resistente. Ela olhou, misto de assustada,
curiosa e desejo. Ele avançou como um huno para dentro dela. Agora
que ele sabia que havia toda aquela umidade ali, ele parecia ter
um convite formal.
Há eras, parecia ter ocorrido em outra vida, tal a distância que
eles se impuseram, ela conhecia, atávica que era, essa sensação.
Lembrava-se agora, fora a conquista, o prêmio que se permitira
receber. Foi quando se concebera mulher.
Mas não se tornara mulher quando ele destruiu sua inocência fazendo-a
rastejar-se? Ou havia se tornado mulher antes?
Aquele homem arremessava-se agora com uma fúria primal para dentro
dela. Ela se lembrava. Ele socava cada vez mais forte, cada vez
mais bárbaro, a raiva e o desejo, o desejo, a raiva e o desejo...
Ela se lembrava de algo parecido, mas nunca tão forte.
Ele decidira que ela teria o maior prazer que já sentira na vida,
ela saberia como ele podia ser bom. Como ela tinha sido estúpida
de tê-lo afastado de si, atirando-o na terrível miséria de não
ter a quem se dar. Ele iria destruir suas barreiras. Quanto mais
forçava mais elas iam caindo, uma por uma. A raiva então parecia
tão distante. Do que era mesmo que ela o culpava ?
E o prazer em ondas, aquelas vagas titânicas de prazer.
Ele não gozaria jamais, ela jamais deixaria de gozar. Ele ainda
tinha bem presente o ódio que havia entre os dois. Aquela conjunção
era sua única arma contra tanto veneno dela.
Ele não sabia ainda que tudo que agora restava daquela mulher
fortaleza era a caverna escura e úmida por onde a penetrava como
um aríete em brasa. Tudo que sobrava eram ruínas de uma casamata
onde ele, totem em chamas, saboreava sua vingança.
Ela estava toda entregue, acariciava-o, cruzava as pernas nas
suas costas no sofá, posição difícil, ela gritava, urrava de prazer,
ele arremessava como um selvagem, um cruzado, um alucinado, a
sua mulher, a sua mula, sua... Ele não ousava ainda pensar. Ele
cada vez mais excitado, silencioso, nem um gemido, o suor banhava
todas as partes, as mais secretas. Ele não falava, não gritava,
só a respiração pesada, quase um arfar murmurado. Ele calado.
Ele, concentrado, não gozaria jamais. Estava reservado para ela
como uma overdose.
Quanto tempo seria necessário, horas, dias, 3 anos ? Mais?
A mão descia agora suave pelo rosto dela, pelos seios, ele agarrara
um seio. Agora seria dor? Ele a esbofeteava!!! Esbofeteava forte!!!
Nunca fizera aquilo antes. Porque nunca fizera aquilo antes? Ela
nunca se sentiu tão dominada pelos sentidos. Cada bofetada dele
era como uma rajada de espasmos que lhe percorriam todos os milímetros
da pele, era calor e era cheiro, o som do tapa nas faces, na boca,
a cabeça voltando-se para os dois lados, para um lado e para o
outro. Ela nunca antes sentira-se tão liberta da vergonha. Sentia
dor e gostava. A dor-prazer ! De onde veio tudo aquilo? Daquele
homem? Daquela mulher? Eram desconhecidos. 3 anos juntos e não
se sabiam. Quanto mais ela gemia mais ele calava e estocava.
Do que era mesmo que ela o culpava ? Do que era mesmo que ele
a culpava?
Então, finalmente, quando não havia mais como resistir, ele, o
homem, entregou-se a ela. Desabou num grito imenso. Um imenso
e contido grito apenas e todo um mundo veio abaixo. Bastava aquele
grito e todo o mundo não seria suficiente para restaurar o seu
ódio perdido, esfacelado em meio ao jorro de vida com que ele
a inundara.

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