Sadomasoquismo, um império de dor e prazer

histórico
Depoimentos
galerias
links


MATÉRIA PUBLICADA NA FOLHA DE SÃO PAULO
Caderno Mais 08/11/98

Autor: PAUL THEROUX (especial para "The New Yorker" )
TRADUÇÃO: CLARA ALLAIN

O escritor americano Paul Theroux conta a história e as práticas eróticas da Enfermeira Wolf, uma das principais rainhas do sado-masoquismo de Nova York.

O homem que a Enfermeira Wolf batizou de "o esmagador de insetos" costumava aparecer no estúdio dela carregando, furtivamente, recipientes velhos e opacos de Tupperware com rótulos de fita adesiva dizendo "lasanha, abril 97'' ou "molho para espaguete''. Mas os rótulos não diziam a verdade; os Tupperwares continham insetos que o homem tinha capturado em seu quintal. Ele começou com besouros e, mais tarde, passou a levar baratas e lesmas. Com o passar do tempo, os bichos foram ficando maiores. Um dia, o esmagador de insetos levou um camundongo vivo.

A Enfermeira Wolf lhe disse: "Vamos parar por aqui. Eu nunca falei que toparia fazer com um camundongo''.

"Por favor'', implorou o homem. "Ele já está meio morto mesmo.''

O camundongo estava num recipiente de Tupperware, sem furos para a entrada de ar.

"Eu ia dizer nem pensar!'', contou-me a enfermeira Wolf. Mas ela concordara em fazer com os outros bichos. Ela tinha que usar sandálias de salto alto enquanto o homem ficava deitado de lado, no chão "à perspectiva dos insetos'', nas palavras da Enfermeira Wolf_, tocando-se.

"Fure o bicho devagar, com o salto.'' Ele queria que a enfermeira atormentasse os bichos. Depois, dizia "esmague-o!'', enquanto se agarrava.

O fetiche do esmagador de insetos era incomum, até mesmo para alguém com a ampla experiência da Enfermeira Wolf. Não era fácil para ela esmagar os insetos com seu salto agulha _eles escapavam a toda hora_, e as lesmas eram impossíveis, simplesmente.

"Eu gostava do aspecto aberrante daquilo'', disse a Enfermeira Wolf.

Quando a Enfermeira Wolf contou a sua psicoterapeuta que, como "dominatrix'', às vezes se imaginava um animalzinho peludo com dentinhos afiados e com cauda, a terapeuta disse: "Talvez seja inveja do pênis''.

"Mas eu tenho pênis!'', gritou a Enfermeira Wolf, começando a rir. "Tenho pênis aos montes! Tenho um pênis roxo e grandão, recoberto de brilho. Não sou invejosa.''

Algum tempo depois, a Enfermeira Wolf me disse: "Adoro mulheres com caudas''. Também me disse: "Adoro rapazinhos hispânicos gordinhos, com seios. Adoro velhos. Adoro velhos gordos, moles. Alguns dos homens mais gordos e mais velhos são meus bebês. Visto fraldas neles. Gosto dos que ficam deitados ali e curtem o cheiro de talco. Também adoro os perversos _os que são malcomportados e precisam apanhar muito''.

No mundo virado do avesso, as pessoas à procura de dor são quase tantas quanto aquelas que buscam alívio para sua dor.

"Enfermeira Wolf'' foi o nome que dei a essa rainha da algolagnia _do prazer obtido com a dor. Ela dava prazer infligindo dor, sentia prazer ao provocá-la. Em nossas conversas, descreveu um de seus papéis favoritos como sendo o de uma enfermeira num cenário médico, e o papel lhe cabia como uma luva. Ela tinha pouco mais de 30 anos, era atraente, tinha saúde perfeita; sua aparência ainda era a da líder de torcida texana que havia sido; era fácil imaginá-la no papel de uma enfermeira eficiente, que não se assusta com nada. Em seu estúdio, tinha uma sala médica e muitos implementos: fórceps, bisturis e aparelhos elétricos. Em diversas ocasiões, fiz alguma observação sobre o conhecimento especializado que esses instrumentos todos sugeriam, mas ela não deu importância a isso, dizendo que os procedimentos envolvidos eram bastante simples. A modéstia com que dizia isso era muito típica de enfermeira: ela fazia um gesto de negativa com a cabeça e dizia: "São cirurgias domésticas, nada mais''.

Explicou: "Normalmente sou uma enfermeira malévola. Digo, por exemplo: 'Isto daqui é para seu bem'. Ou 'mamãe quer medir sua temperatura. Faz parte de seu tratamento'. Sabe, para algumas pessoas o som de uma luva de borracha sendo vestida faz muito mais efeito do que um exame interno com dedo especialmente se seus olhos estiverem vendados''.

Páginas 1, 2, 3

voltar

 


Copyright© 1999 - COM 024/ FACOM- UFBA
Site produzido por: Luiz Goulart e Yerma Soledade