foto: roberto jayme
Marcelo D2
 (vocalista do Planet Hemp):

 “O alcoolismo é um problema gravíssimo, mas o Ronaldinho vende cerveja na tevê”.
 
Eric de Castro
(autor da prisão
do Planet Hemp):

 
“Eu cumpro a lei, e a lei diz que o uso e a apologia à maconha são ilegais.”

Fernando Gabeira
(Deputado Federal):

 “Os fumantes de maconha não precisam de ajuda nenhuma, eles só não querem ser incomodados.”

 
foto: otávio magalhães
Padre Zeca
(padre e surfista):

“É uma substância alucinógena. Portanto, imoral. Afeta a razão.”
 
Bezerra da Silva
(cantor e compositor):

“Deus criou a natureza e a beleza da vida. Então explique, doutor, por que esta erva é proibida?”

Romeu Toma Júnior (ex-chefe
da Interpol em
São Paulo):
“É preciso punir traficante e usuário. Como seria possível autorizar o consumo e não permitir a vida?”

 
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Maconha:
verdades
&
mitos

 

Popeye, o marinheiro, saca sua lata de espinafre quando a barra está ficando pesada. Defensores da maconha querem preencher vazios com a cannabis sativa, que tem um princípio ativo chamado tetrahidrocanabinol. A questão é de saúde, não de polícia. Mas quando o tema se transforma em saúde pública, o Estado interfere.

Havendo uma lei de oferta (o traficante) e de procura (o usuário), e abordada a relação droga-saúde, precisamos não defender uma tese, mas sim estabelecer o que seria melhor para as pessoas e a sociedade. Mas não definir uma tese primeira, fazendo de tudo para que os fatos se ajustem a tudo aquilo que, a priori, ficou convencionado, só para projetar personalidades. Fugir disso – como nos ensinou Mangabeira Unger, o professor brasileiro de Direito em Harvard – é seguir a fórmula de Karl Popper, prêmio Nobel e historiador da ciência: “o verdadeiro cientista não deve buscar as evidências que provam a sua hipótese mas também, e com igual empenho, as evidências que a desaprovam”. De um lado, como explica o especialista francês Claude Clivenstein, isso pode significar que ninguém é anjo ou demônio, antes e depois da droga. De outro lado, havendo dependência, temos diante de nós o adicto – que etimologicamente quer dizer escravo.

Não conheço nenhuma boa história em termos de maconha, e acompanho essa questão há quase três décadas. Sou a favor das pessoas, e não da matéria prima da qual se pode extrair princípio ativo. É falso que a senhora cannabis sativa ilumine idéias, criatividade, transforma medíocres em talentosos, míopes sociais em donos de visão redentora. Se for para engajar em torno de uma boa briga, prefiro lutar pela liberação daquilo que considero essencial para o povo brasileiro – a escola, a alimentação, a moradia, o transporte, a vida digna e saudável. Nesses tempos em que se luta tanto contra cigarro, e o Ministério da Saúde faz a sua pálida advertência em cada maço, gastar energias para defender a maconha é no mínimo surrealista. Entre tantas causas e fatores, os defensores omitem que mesmo diante da hipótese teria de haver controle. Ou, por favor, me respondam: a sociedade vai querer ver crianças comprando tetrahidrocanabinol no bar da esquina? Permitirá que, entre outras profissões, pilotos, motoristas, médicos, enfermeiros, bombeiros, responsáveis pela rede elétrica, de água... sejam adeptos ostensivos dos baseados? O buraco é mais em baixo: muitos, nessa sociedade cheia de problemas, recorrem à cannabis para fugir da razão, assim contribuindo – com sua omissão, talvez inconsciente – para a manutenção de sua imagem negativa. Mas isso já é uma outra história.

No conto de Southern intitulado “Red Dirt Marijuana”, um negro que trabalha na roça está conversando sobre os prazeres canábicos com um menino de 12 anos. O garoto pergunta: “Como pode ser tão proibido se é tão boa?”. O roceiro responde: “Porque o homem enxerga demais quando fica chapado. O mundo está cheio de mentira e enganação... Bem, a gente fuma e enxerga todas essas mentiras e enganações, toda essa enrolação”. 

foto: elisabet
Conforme acontece, muitas das leis pertinentes à maconha são exemplos acabados dessa “enrolação”. Lembro-me que, há três anos, O Ministério da Saúde Pública dos EUA resolveu não mais fornecer maconha às pessoas que sofrem de câncer, glaucoma, esclerose múltipla ou AIDS.

O governo americano disse que a maconha não tinha valor terapêutico, ignorando a conclusão do seu próprio departamento de toxicologia, a Drug Enforcement Administration (DEA), de que a maconha “é uma das mais seguras substâncias terapeuticamente ativas conhecidas pelo homem”. O protesto foi geral, principalmente entre os médicos especialistas em câncer; 50% deles disseram que receitariam a maconha se ela não fosse ilegal, enquanto 44% admitiram que já prescreviam aos seus pacientes. Em outras palavras, a política do governo americano – e a do governo da maioria dos países – tem muito pouco a ver com a medicina e tudo a ver com a enrolação.

Não há nada de inconsistente nisso. A atitude de muitos governos perante as drogas psicoativas contém sempre uma dose elefantina de falso moralismo. De fato, os moralistas e os políticos só pioram as coisas. Através de uma intensa guerra à maconha, eles forçaram os traficantes a trocarem esta pela cocaína, bem menos volumosa, o que faz aumentar o preço da maconha e tentar os consumidores, especialmente os jovens, a usarem o crack de cocaína, muito mais barato e disponível, mas extremamente perigoso. Pesquisas indicam que cerca de 30 milhões de brasileiros têm alguma coisa em comum: já fumaram um baseado, entre eles, nosso atual presidente da República. Número suficiente para qualificar a maconha como uma preferência nacional. Mas há uma grande oposição à essa realidade, porque, diferente do álcool, um sedativo que embota e aliena a mente, a maconha produz um estado de percepção que permite ver todas as enganações a que somos submetidos, o que representa uma grande ameaça aos padrões estabelecidos. E este é o motivo pelo qual os políticos e moralistas fogem da maconha como se ela cheirasse mal.

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