
Marcelo D2
(vocalista do Planet Hemp):
“O alcoolismo é um problema gravíssimo, mas o
Ronaldinho vende cerveja na tevê”. |
Eric
de Castro
(autor da prisão
do Planet Hemp):
“Eu
cumpro a lei, e a lei diz que o uso e a apologia à maconha são
ilegais.”
Fernando
Gabeira
(Deputado Federal):
“Os fumantes de maconha não
precisam de ajuda nenhuma, eles só não querem ser
incomodados.” |

Padre Zeca
(padre e surfista):
“É uma substância alucinógena. Portanto, imoral. Afeta a razão.” |
Bezerra
da Silva
(cantor e compositor):
“Deus
criou a natureza e a beleza da vida. Então explique, doutor, por
que esta erva é proibida?”
Romeu Toma Júnior
(ex-chefe
da Interpol em
São Paulo):
“É
preciso punir traficante e usuário. Como seria possível
autorizar o consumo e não permitir a vida?” |

Maconha:
verdades
&
mitos |
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Popeye,
o marinheiro, saca sua lata de espinafre quando a barra está
ficando pesada. Defensores da maconha querem preencher vazios
com a cannabis sativa, que tem um princípio ativo chamado
tetrahidrocanabinol. A questão é de saúde, não de polícia.
Mas quando o tema se transforma em saúde pública, o Estado
interfere.
Havendo
uma lei de oferta (o traficante) e de procura (o usuário), e
abordada a relação droga-saúde, precisamos não defender uma
tese, mas sim estabelecer o que seria melhor para as pessoas e a
sociedade. Mas não definir uma tese primeira, fazendo de tudo
para que os fatos se ajustem a tudo aquilo que, a priori, ficou
convencionado, só para projetar personalidades. Fugir disso –
como nos ensinou Mangabeira Unger, o professor brasileiro de
Direito em Harvard – é seguir a fórmula de Karl Popper, prêmio
Nobel e historiador da ciência: “o verdadeiro cientista não
deve buscar as evidências que provam a sua hipótese mas também,
e com igual empenho, as evidências que a desaprovam”. De um
lado, como explica o especialista francês Claude Clivenstein,
isso pode significar que ninguém é anjo ou demônio, antes e
depois da droga. De outro lado, havendo dependência, temos
diante de nós o adicto – que etimologicamente quer dizer
escravo.
Não
conheço nenhuma boa história em termos de maconha, e acompanho
essa questão há quase três décadas. Sou a favor das pessoas,
e não da matéria prima da qual se pode extrair princípio
ativo. É falso que a senhora cannabis sativa ilumine idéias,
criatividade, transforma medíocres em talentosos, míopes
sociais em donos de visão redentora. Se for para engajar em
torno de uma boa briga, prefiro lutar pela liberação daquilo
que considero essencial para o povo brasileiro – a escola, a
alimentação, a moradia, o transporte, a vida digna e saudável.
Nesses tempos em que se luta tanto contra cigarro, e o Ministério
da Saúde faz a sua pálida advertência em cada maço, gastar
energias para defender a maconha é no mínimo surrealista.
Entre tantas causas e fatores, os defensores omitem que mesmo
diante da hipótese teria de haver controle. Ou, por favor, me
respondam: a sociedade vai querer ver crianças comprando
tetrahidrocanabinol no bar da esquina? Permitirá que, entre
outras profissões, pilotos, motoristas, médicos, enfermeiros,
bombeiros, responsáveis pela rede elétrica, de água... sejam
adeptos ostensivos dos baseados? O buraco é mais em baixo:
muitos, nessa sociedade cheia de problemas, recorrem à cannabis
para fugir da razão, assim contribuindo – com sua omissão,
talvez inconsciente – para a manutenção de sua imagem
negativa. Mas
isso já é uma outra história. |
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No
conto de Southern intitulado “Red Dirt Marijuana”, um negro
que trabalha na roça está conversando sobre os prazeres canábicos
com um menino de 12 anos. O garoto pergunta: “Como pode ser tão
proibido se é tão boa?”. O roceiro responde: “Porque o
homem enxerga demais quando fica chapado. O mundo está cheio de
mentira e enganação... Bem, a gente fuma e enxerga todas essas
mentiras e enganações, toda essa enrolação”. |
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| Conforme
acontece, muitas das leis pertinentes à maconha são exemplos
acabados dessa “enrolação”. Lembro-me que, há três anos,
O Ministério da Saúde Pública dos EUA resolveu não mais
fornecer maconha às pessoas que sofrem de câncer, glaucoma,
esclerose múltipla ou AIDS.
O
governo americano disse que a maconha não tinha valor terapêutico,
ignorando a conclusão do seu próprio departamento de
toxicologia, a Drug Enforcement Administration (DEA), de que a
maconha “é uma das mais seguras substâncias terapeuticamente
ativas conhecidas pelo homem”. O protesto foi geral,
principalmente entre os médicos especialistas em câncer; 50%
deles disseram que receitariam a maconha se ela não fosse
ilegal, enquanto 44% admitiram que já prescreviam aos seus
pacientes. Em outras palavras, a política do governo americano
– e a do governo da maioria dos países – tem muito pouco a
ver com a medicina e tudo a ver com a enrolação.
Não
há nada de inconsistente nisso. A atitude de muitos governos
perante as drogas psicoativas contém sempre uma dose elefantina
de falso moralismo. De fato, os moralistas e os políticos só
pioram as coisas. Através de uma intensa guerra à maconha,
eles forçaram os traficantes a trocarem esta pela cocaína, bem
menos volumosa, o que faz aumentar o preço da maconha e tentar
os consumidores, especialmente os jovens, a usarem o crack de
cocaína, muito mais barato e disponível, mas extremamente
perigoso. Pesquisas indicam que cerca de 30 milhões de
brasileiros têm alguma coisa em comum: já fumaram um baseado,
entre eles, nosso atual presidente da República. Número
suficiente para qualificar a maconha como uma preferência
nacional. Mas há uma grande oposição à essa realidade,
porque, diferente do álcool, um sedativo que embota e aliena a
mente, a maconha produz um estado de percepção que permite ver
todas as enganações a que somos submetidos, o que representa
uma grande ameaça aos padrões estabelecidos. E este é o
motivo pelo qual os políticos e moralistas fogem da maconha
como se ela cheirasse mal. |
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