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Diretor, roteirista, crítico, produtor e ator.
Nascimento: 03 de dezembro de 1930 - Paris, França
Formação: Etnologia em Sorbonne

Poucos cineastas obtiveram efeito tão profundo no desenvolvimento da arte como Jean Luc Godard. Desde os seus primeiros anos como crítico e pensador das páginas da Cahiers Du Cinema, passando pela era dourada da Nouvelle Vague, continuando (com menor impacto) nos anos 70 e 80, Godard redefiniu a maneira de se olhar para um filme. Um ensaísta e poeta do cinema, ele faz a linguagem de filmes uma real parte de sua narrativa.

Com prodigioso senso de exploração, Godard trabalhou seu caminho por entre não menos que quatro períodos artísticos, desde os anos 50. O Godard da Nouvelle Vague (ainda o mais influente) durou de Acossado (1959) até Le Week-end (1967). O Godard revolucionário estendeu-se de Le Gai Savoir (1968) até Tout Va Bien (1972), finalizando o período Dziga Vertov. Godard, o Vidéoaste abrangeu o período entre a fundação da produtora Sonimage com Anne-Marie Miéville até 1978. Finalmente, o Godard contemplativo iniciou-se com Sauve Qui Pent La Vie e se estendeu até Hellas Por Moi.

O exame crítico de Godard nos mestres do cinema internacional, autores americanos e gêneros americanos dos anos 50, estava em paralelo com suas incursões neste media. Ele atuou e produziu uma série de curtas: desde o documentário Opération Béton (1954), passando pelo excêntrico Tous Les Garçons S'Appelent Patrick (1957), até seu exercício de edição, Une Histoire D'Eau (1958), filmado por Truffaut, mas passado a Godard quando o diretor de Os Incompreendidos desistiu do material. Essas forças recíprocas, o vai-e-vem da produção para a crítica, levou a uma série de homenagens, reinvenções e variações que ajudaram a entender os filmes.

Em Acossado, sua marcante estréia, Godard quebrou com as narrativas convencionalmente estabelecidas, mixando espontaneamente elementos de detetive, comédia e suspense. Une Femme Est Une Femme (1960) aplicou sua inteligência crítica à um musical, como Alphaville (1965) fez com a ficção científica. Numa fresca, nova maneira, o diretor realizou filmes que eram "sobre" outros filmes (assim como sobre eles mesmos), na maioria das vezes com modestos recursos. Alphaville, por exemplo, criou uma ameaça única, um olhar futurístico aos cenários contemporâneos. Ao mesmo tempo, Godard estava desenvolvendo a forma ensaística, quando ele começou a falar mais diretamente com a sua audiência em filmes como Vivre Sa Vie (1963), Une Femme Mariée (1964) e Masculine-Feminine (1966).

Com exceção de Une Femme Est Une Femme (sua obra de amor a sua mulher de então - Anna Karina), o objeto desses filmes é obscuramente moderno. Os casais de Godard são alienados do seu ambiente e de si mesmos; dirigidos pela incerteza e desconfiança. Rodeados pelo comercialismo do capitalismo, eles atuam arbitrariamente, na maioria das vezes com trágicos resultados. Fugindo da desordem da cidade para um refúgio na natureza, como em Pierrot Lê Feu (1965), os personagens ainda assim não escapam da morte. Linguagem, naturalmente ambígua, serve de barreira para a comunicação e exclui o amor. Até a linguagem corporal falha: em Les Mepries (1963), a insegurança de um marido faz ele suspeitar dos gestos faciais de sua mulher. Prostituição torna-se a incessante metáfora.

Godard, porém, era capaz de um entendimento mais abrangente: se seus personagens não podiam comunicar, ele mesmo estava se tornando melhor nisso a cada filme. Ele expressou bem esse positivo aspecto em Expectativa, seu episódio no filme Le Plus Viex Métier Du Monde (1967). Nessa parábola, um soldado do exército soviético-americano do futuro (Jean-Pierre Léaud) é enviado para receber tratamento de uma prostituta "espiritual" (Anna Karina). Juntos, eles reinventam o beijo (utilizando a aprte do corpo que pode falar e fazer amor). As autoridades declarou-os perigosos, pois "eles estão fazendo amor, progresso e conversação - tudo ao mesmo tempo".

Em Deux Ou Trois Choses Que Ja Sais D'Elle, considerado por alguns como a maior de suas obras-primas, Godard, cineasta-narrador, é um importante personagem. Comentando o universo disfuncional, ele retrata-o por meio de uma dona de casa que trabalha meio-período como prostituta. Em Le Week-End, a alienação torna-se absurda: o casal discute abertamente sobre eles mesmos, em um mundo desintegrado, explícito por intermináveis engarrafamentos e batidas de carro. Dignidade humana e respeito estão ausentes nessa visão selvagem dos bárbaros da classe média e dos revolucionários sem ideal, que por vezes se tornam canibais.

Nesse ponto, decidindo-se que há algo fundamentalmente incorreto na maneira como nós levamos a vida moderna, Godard estava pronto - como muitos dos seus contemporâneos - para virar-se para a ação política como solução. Políticos tinham sido eventuais componentes do seu cenário fílmico em alguns dos seus primeiros filmes. Le Petit Soldat (1965), seu segundo filme, foi banido pelo governo por muitos anos, por causa da sua visão sobre a situação da Argélia. Masculine-Feminine (1966) está preocupado com o papel da juventude na França contemporânea. La Chinoise (1967), um dos seus filmes mais esquisitos, era um retrato, em pinceladas da pop-art, do novo movimento esquerdista da França, um ano antes dos eventos do Maio de 68. Agora era o momento de agir.

Reunindo-se com seus colegas da Cahiers du Cinéma, Godard participou em 68 de diversas manifestações. De 1968 até 1972, fez 11 filmes, metade tendo como colaborador Jean-Pierre Gorin, e muitos assinados como o "grupo de Dziga Vertov". Godard e Gorin estavam, como disseram eles, "fazendo filmes políticos, politicamente". Apesar de ambos bradarem, "nós não temos respostas, só perguntas", esses filmes pareciam endereçar e apoiar assuntos de militância.

Ao final, fica claro que Godard e Gorin estão mesmo mais preocupados com o processo de fazer cinema do que com a revolução. Após o desmanche da Dziga Vertov, Godard migrou para o vídeo, para pôr em prática experimentos e comunicar-se com um maior número de pessoas, por meio da TV. Muitas tentativas foram feitas para que Godard realizasse filmes em Hollywood, entre eles Bonnie and Clyde, porém todas foram fracassadas.

Godard fez ainda filmes importantes como Je Vous Salue Marie (1985), condenado pelo Vaticano, e Nouvelle Vague (1990). Em 1991, revistou o clássico de Roberto Rosselini, Alemanha Ano 00, no vídeo Alemanha Ano 90. Rosselini foi uma das maiores influências para o cinema de Godard, assim como o neo-realismo italiano em geral.

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Criado em 2002 por Paula Cruz e Leonardo Maia