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Estão agora dois
grupos de trabalhadores frente a frente, dez passos cortados os separam.
Dizem os do norte, Há leis, fomos contratados e queremos trabalhar.
Dizem os do sul, Sujeitam-se a ganhar menos, vêm aqui fazer-nos mal,
voltem para vossas terras ratinhos. Dizem os do norte, Na nossa terra não
há trabalho, tudo é pedra e tojo, somos beirões, não nos chamem de
ratinhos, que é ofensa. Dizem os do sul, São ratinhos, são ratos, vêm
aqui para roer o nosso pão. Dizem os do norte, Temos fome. Dizem os do
sul, Também nós, mas não queremos sujeitar-nos a esta miséria, se
aceitarem trabalhar por esse jornal, ficarem nós sem ganhar. Dizem os
do norte, A culpa é vossa, não sejais soberbo, aceitais o que o patrão
oferece, antes menos que coisa nenhuma, e haverá trabalho para todos,
porque sois poucos e nós vimos ajudar. Dizem os do sul, É um engano,
querem enganar-nos a todos, nós não temos que consentir neste salário,
juntem-se a nós e patrão terá que pagar-nos melhor a jorna a toda a
gente. Dizem os do norte, Cada um sabe de si e Deus de todos, não
queremos aliança, viemos de longe, não podemos ficar aqui em guerras
com o patrão, querem trabalhar. Dizem os do sul, Aqui não trabalham.
Dizem os do norte, Trabalhamos. Dizem os do sul, Esta terra é nossa.
Dizem os do norte, Mas não a querem fabricar. Dizem os do sul, Por esse
salário, não. Dizem os do norte, Nós aceitamos o salário. Diz o
feitor, Enregam, que mando eu, ou chamo a guarda. Dizem os do sul, Antes
que a guarda chegue, correrá aqui sangue. Diz o feitor, Se a guarda
vier, ainda mais sangue correrá, depois não se queixem. Dizem os do
sul, Irmãos, dêem ouvidos ao que dizemos, juntem-se a nós, por alma
de quem lá têm. Dizem os do norte, Já foi dito, queremos trabalho.
Então
o primeiro do norte avançou para o trigo com a foice, e o primeiro do
sul deitou-lha a mão ao braço, empurraram-se sem agilidade, rijos,
rudes, brutos, fome contra fome, miséria sobre miséria, pão que tanto
nos custa. Veio a guarda e separou a briga, amalhou-os como animais. Diz
o sargento, Quer que os leve todos presos. Diz o feitor, Não vale a
pena, são uns desgraçados, segure-os aí um pedaço até desanimarem.
Diz o sargento, Mas há ali um ratinho com a cabeça rachada, houve
agressão, a lei é lei. Diz o feitor, Não vale a pena, meu sargento,
sangue de bestas, tanto faz do norte como do sul, é o mijo do patrão.
Diz o sargento, Por falar em patrão, estou precisando de um bocado de
lenha. Diz o feitor, Lá lhe irá uma cerrada. Diz o sargento, E umas
poucas telhas. Diz o feitor, Não será por causa disso que dormirá ao
relento. Diz o sargento, A vida está cara. Diz o feitor, Mando-lhe una
chouriços.
Os
ratinhos avançaram pela seara dentro. Caem as espigas louras sobre a
terra morena, que beleza, cheira a corpo que não se lavou nem se sabe
quando, e ao longe vem passando e parou um tílburi. Diz o feitor, É o
patrão. Diz o sargento, Agradeça por mim, e sempre às ordens. Diz o
feitor, Tenha-me olho nesses malandros. Diz o sargento, Vá sem receio,
com eles eu sei lidar. Dizem uns do sul, Deitamos fogo sobre a seara.
Dizem outros, Seria um dó de alma. Dizem todos, Não há dó para estas
almas.
(37-38)
A grande e decisiva arma é a ignorância.
É bom, dizia Sigisberto, no seu jantar de aniversário, que eles nada
saibam, nem ler, nem escrever, nem contar, nem pensar, que considerem e
aceitem que o mundo não pode ser mudado, que este mundo é o único
possível, tal como está, que só depois de morrer haverá paraíso, o
padre Agamedes que explique isto melhor, e que só o trabalho dá
dignidade e dinheiro, porém não têm de achar que eu ganho mais do que
eles, a terra é minha, quando chega o dia de pagar impostos e contribuições,
não é a eles que vou pedir dinheiro emprestado, que aliás sempre foi
assim, e será, se não for eu a dar-lhes trabalho, quem o dará, eu e
eles, eu que sou a terra, eles que o trabalho são, o que for bom para
mim, bom para eles é, foi Deus que quis assim as coisas, o padre
Agamedes que explique melhor, em palavras simples que não façam mais
confusão à confusão que têm na cabeça, e se o padre não for
suficiente, pede-se aí a guarda que dê um passeio a cavalo pelas
aldeias, só a mostrar-se, é um recado que eles entendem sem
dificuldade. Mas diga-me, senhora mãe, bate também a guarda nos donos
do latifúndio, Credo, que esta criança não regula bem da cabeça,
onde é que tal se viu, a guarda, meu filho, foi criada e sustentada
para bater no povo, Como é possível, mãe, então faz-se um guarda só
para bater no povo, e que faz o povo, O povo não tem quem bata no dono
do latifúndio que manda a guarda bater no povo, Mas eu acho que o povo
podia pedir a guarda que batesse no dono do latifúndio, Bem digo eu,
Maria, que esta criança não esta em seu juízo, não a deixes andar
por aí a dizer estas coisa que ainda temo trabalhos com a guarda.
O povo
fez-se para viver sujo e esfomeado. Um povo que se lava é um povo que não
trabalha, talvez nas cidades, enfim, não digo que não, mas aqui no
latifúndio, vai contratado por três ou quatro semanas para longe de
casa, e meses até, se assim convier a Alberto, e é ponto de honra e de
homem que durante todo o tempo do contrato se não lave nem cara nem mãos,
nem a barba se corte. E se o fizer, hipótese ingênua de tão improvável,
pode contar com a troça dos patrões e dos próprios companheiros. É
esse o luxo da época, gloriarem-se os sofredores do seu sofrimento, os
escravos da escravidão. É preciso que este bicho da terra seja bicho
mesmo, que de manhã some a remela da noite à remela das noites, que os
sujos das mãos, da cara, dos sovacos, das virilhas, dos pés, do buraco
do corpo, seja o halo glorioso do trabalho no latifúndio, é preciso
que o homem esteja abaixo do animal, que esse, para se limpar, lambe-se,
é preciso que o homem se degrade para que não se respeite a si próprio
nem aos seus próprios.
[...]
Quando
estes casamentos se fazem, às vezes já vem um filho na barriga. Deita
o padre a bênção a dois e ela cai sobre três, conforme se vê pelo
redondo da saia, às vezes empinada já. Mas mesmo quando assim não é,
vá a noiva virgem ou desvirgada, muito de estranhar será passar um ano
sem filho. E, quando deus quer, é um fora, outro dentro, mal a mulher
pariu, logo ocupa. É uma brutidão de gente, ignorantes, piores que
animais, que esses têm seu cio e seguem as leis da natureza. Mas estes
homens chegam do trabalho ou da taberna, enfiam-se no catre, esquece-os
o cheiro da mulher ou o rescaldo do vinho ou o apetite da a fadiga e
passam-lhe para cima, não conhecem outras maneiras, arfam, brutos sem
delicadeza, e lá deixam a seiva a abeberar nas mucosas, nessa
trapalhada de miudezas de mulher que nem um nem outro entendem. Bem está
isto, que não é fazê-los em mulheres alheias, mas a famílias cresce,
encheram-se de filhos, não tiveram cuidado, Mãe, tenho fome, a prova
de que Deus não existe é não ter feito os homens carneiros, para
comerem as ervas dos valados, ou porcos, para a bolota. E se mesmo assim
bolotas e ervas comem, não pode fazer em sossego, porque l’s estão o
guarda e a guarda, de olho fito e espingarda fácil, e se o guarda em
nome da propriedade de Norberto, se não ensaia nada para mandar tiro a
uma perna ou tiro que mate mesmo, a guarda que o mesmo também faz
quando lhe dão ordem ou sem esperar por ela, tem os mais benignos
recursos de prisão, multa e sova entre quatro paredes. Mas isto,
senhores, é umacesta de cerejas, tira-se uma, vêm três ou quatro
agarradas, e não falta por aí latifúndio que tenha o seu cárcere
privado e o seu código penal próprio. Nesta terra faz-se justiça
todos os dias, onde que iríamos parar se a autoridade faltasse.
Cresce
a família, mesmo morrendo muito infantes, de suas doenças de caganeira
líquida, desfazem-se em merda os podres anjinhos e extinguem-se como
pavios braços e pernas mais gravetos que outra coisa, e a barriga
inchada, e estão assim até que chegada a hora, abre pela última vez
os olhos só para verem ainda a luz do dia, quando não acontece
morrerem as escuras, no silêncio do casebre, e quando a mãe acorda dá
com o filho morto e lá começam os gritos, sempre os mesmos, que estas
mães a quem morrem os filhos não são capazes de inventar nada,
estupores. Quando aos pais, estes ficam secos, e no dia seguinte vão à
taberna com o ar de quem vai matar alguém ou alguma coisa. Voltam bêbedos
e não matam nada e nem ninguém.
[...]
Ia a
mulher ao merceeiro e requeria, Faz-me o favor, fie-me lá o resto do
avio porque esta semana o meu
marido não ganhou nada por não haver trabalho. Ou ainda, pondo de
vergonha os olhos no balcão, como quem não tem outra moeda com que
pagar, Senhor, o meu marido para o Verão já ganhará mais ordenado,
depois faz contas consigo e paga-lhe o atrasado. E o merceeiro, batendo
com punho na costaneira, respondia, Essa conversa já eu ouço a muito
tempo, depois passa o Verão e fica cá o cão a ladrar à mesma, as dívidas
são cães, tem graça esta, quem teria sido o primeiro a lembrar-se de
tal, isto é um povo de invenções miúdas e necessitadas, imagine-se o
rol do merceeiro ou do padeiro, ali escrito em grossos números, a lápis,
tanto aquele, tanto este, um cachorro pequeno, todo felpa, pode crescer,
e esta fera de dentuça como o lobo, dívida grossa já do passado ano,
ou paga ou corto-lhe o fiado, Mas os meus filhos têm fome e as doenças,
o meu homem sem trabalho, não tem o dom de nos venha, Quero lá saber,
só leva depois de pagar. Ladram por toda esse terra os cães,
ouvimo-los às portas, vêm atrás de quem não pagou, mordendo-lhe nas
canelas, mordem-lhe na alma que o merceeiro venha à rua e diz para quem
o quer ouvir, Diga lá ao seu marido, o resto já se sabe. Há quem
espreite pelos postigos para ver quem é a da vergonha, são crueldades
de pobre, hoje tu, amanhã eu, não se pode levar a mal.
Quando
o homem se queixa, alguma coisa lhe doi. Queixemo-nos pois desta
ferocidade sem nome, e é pena que não tenha, Que vai ser de nós hoje,
só com esse dinheiro, e as semanas tão atrasadas, a merceeiro não
fia, de cada vez lá vou, ameaça que nos levanta o crédito, nem um
tostão mais, Mulher, vai lá experimentar, isso são palavras da boca
para fora, o homem não tem nenhuma pedra no lugar do coração, Eu
sozinha não vou, que já não tenho cara de entrar naquela porta, só
se tu fores comigo, Então vamos os dois, mas um homem não muito para
estas coisas, o seu dever é ganhar-lo, fazê-lo render é com a mulher,
além de que as mulheres são habituadas, protestam, juram, regateiam,
fazem choradeira, capazes até de se atirarem para o chão, aí o copo
de água que a pobrezinha teve um ataque, e um homem vai, mas vai a
temer, porque devia ganhar e não ganha, porque devia governa a família
e não governa, Senhor padre Agamendes, como posso eu cumprir o que
prometi quando casei, diga-me lá. Chegamos à loja e estão outros
fregueses, uns saem outros entram nem todos de compra pacífica e nós
vamos ficando para trás, aqui neste canto, ao pé da saca do feijão,
mas cuidado não pense ele que viemos para o roubar. Não há mais
fregueses, aproveitemos agora, então avanço eu que sou homem, tenho as
mãos a tremer, Senhor José, fazia-me o favor de aviar, mas olhe que
esta semana não lhe posso pagar o avio todo, porque tive semana ruim,
depois em ganhando melhor ordenado pago-lhe tudo, esteja descansado, que
não lhe fico a dever nada. Diga-se agora que estas palavras não são
novas, já foram ditas na página de trás, ditas em todo o livro do
latifúndio, como se haveria de esperar que a resposta fosse diferente,
Não senhor, não lhe fio mais nada, mas antes que tal resposta fosse
dada, a mão do merceeiro recolheu, foi um rapa, o dinheiro todo que
para o abrandar eu pusera em cima do balcão e depois é que respondeu.
E eu disse, com toda a calma que podia, que Deus sabe qual, que pouca
era, Senhor José, não me faça uma coisa destas, então o que vou eu
dar de comer aos meus filhos, tenha dó de mim E ele disse, Não quero
saber, não lhe fio mais nada, por favor, ao menos dê-me o avio no
valor do dinheiro que me tirou, só para remediar, para dar alguma coisa
de comer aos meus filhos, até que arranje outro rumo. E ele disse, Não
lhe posso fiar mais nada, esta quantia que recebi nem dá para a quarta
parte do que me deve. Deu um soco no balcão, desafia-me, e eu vou
bater-lhe, dar-lhe com a rasoira do alqueire, ou espetar-lhe a faca,
sim, a navalha, esta lâmina curva, esta adaga de mouro, Aí homem que
de desgraças, olha os nossos filhos, não faça caso, senhor José, não
leve a mal, isto é desespero do pobre. Sou puxado até à porta,
Mulher, larga-me que eu mato esse malandro, mas vai-mi o pensamento
pensando, não mato, não sei matar, e ele diz-me, lá de dentro, Se eu
fiar a toda a gente e não me pagarem, como é que eu vivo. Todos temos
razão, quem é o meu inimigo.
(71-84)
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1991 Companhia das Letras
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