Sadomasoquismo, um império de dor e prazer

depoimentos
galerias
links

(continuação)

Recordar alguma dia alguma biografia facilitará a esta altura. Vamos, pois, nascer a 2 de junho de 1740, em Paris, Donatien-Alphonse-François, marquês de Sade. São estrelas-guias da época não para ele mas sempre um pouco, Voltaire (1694-1778), Rousseau (l7l2-1778), Diderot (1713-1784); Goethe, poesia e moral que ainda vigoram, fecundam, é só nove anos mais moço (1749-1832). Estuda com os jesuítas e, aos quinze, é subtenente na infantaria do rei, aos dezessete, capitão da cavalaria e toma parte na Guerra dos Sete Anos. Casa aos 23 com a filha de um presidente da corte de Aides, de que, apesar da vida aventureira que leva, conseguirá ter dois filhos e uma filha. Ela contemporiza com ele, o ajuda, só vindo a se divorciar em 1790, apesar da ruão, a presidenta de Montreuil, que se tomará inimiga do genro, lhe negando o apoio de sua fortuna. Em compensação, dele receberá talvez a maior massa de insultos escritos da história...

Cinco meses depois das bodas, nosso bonito rapaz - então era - é recolhido quinze dias por libertinagem, blasfêmias, profanação da imagem de Cristo. Em 68, leva uma pedinte, Rose Keller, à casinha que mantém para encontros em Paris. Submete-a a flagelações e a encerra um quarto, de onde ela escapa e apresenta queixa. A rica sogra paga alta quantia para Rose desistir, e o tribunal de Paris, ao gosto de Sade, como se verá por este volume, o condena apenas a uma retratação, embora fique alguns meses preso por ordem do rei.

Mas é a 27 de junho de 72, de passagem por Marselha que ocorrem os fatos que dão margem à uma sentença. Vai de manhã com o criado Latour, ao quarto de quatro profissionais. Flagelações mútuas, e o que para o marquês é o máximo: Latour o sodomiza enquanto ele se serve de uma moça. Instada pelo marquês, ela come bombons de cobertura com cantárida que seria um afodisíaco. À noite, Sade vai a outra profissional que, mais gentil ou gulosa come todos os bombons que ele lhe oferece. Tem em seguida vômitos fortes, se julga envenenada a polícia fica a par, e também dos acontecimentos da manhã.

Na madrugada seguinte, o marquês escapa para a Itália, na companhia da cunhada que apresenta e usa como esposa. O Tribunal da Provença acaba condenando, o por envenenamento e sodomia, devendo-se lembrar de que, na época a pena para essa prática hoje tão inocentada era nada menos, mesmo se praticada com mulher, que a morte na fogueira.

A 12 de setembro, Sade é executado em efígie numa praça de Aix. Não há retratos dele, mas, por um depoimento no processo, continuava bonito aos 32 anos: "Bela figura de rosto cheio, 1 e 72 de altura, talhe elegante". A pedido da sogra e por ordem do rei da Sardenha, é preso e conduzido à fortaleza de Miolans, de onde foge seis meses depois. No seu castelo de La Coste, de 74 a 77, compõe serralhos, organiza orgias, é acusado por sevícias e desaparecimento de pessoas. Contrata belos criados e criadas para todo o serviço... Chega a importar cinco meninas de Lião e Viena. Teve bases no real a idéia, que se diria mera ficção dos 120 dias de Sodoma e outros relatos seus, de reunir num recinto fechado e impune uma companhia minuciosamente preparada para por em prática as cenas sexuais imaginadas...

A presidente obtém contra ele uma ordem punitiva do rei (lettre de cachet) e, passando Sade por Paris em fevereiro de 77, é encerrado em Vincennes. Em junho do ano seguinte, é levado a Aix, onde a sentença de morte é anulada pela inexistência do envenenamento. Judicialmente está livre, não pelo rei. Evade-se, mas para voltar a seu castelo e ser facilmente recuperado. Dessa vez por mais de onze anos, firmando o escritor. Compõe os 120 dias, Alina e Valcourt, a primeira Justina, enfim, sua obra. Perde o bom aspeto, o cabelo branqueia, engorda adquirindo, segundo as próprias palavras, "por falta de exercício, uma corpulência tão enorme que mal pode se mexer".

Com a abolição das lettres de cachet, é liberado em 90. Presidente de uma seção, a Nova Ordem o devolve às grades em 93, imaginem, por moderado... Transferido de cela várias vezes, não é encontrado quando, no ano seguinte, o buscam a propósito de um requisitório coletivo de Fouquier-Unville que o levaria à guilhotina. Solto ainda em 94, volta a ser confinado em 1801, pela polícia de Napoleão, como autor das duas Justina e de Julieta. Levado para o hospício de Charenton, o compreensivo diretor permite que organize representações teatrais, a que vêm inclusive elegantes de Paris. Falece a 2 de dezembro de 1814. Por decisão da família nenhum nome é gravado na lápide.

Mas que vida! Um romance. Aliás, já bastante bem escrito pelo americano Guy Endore, especializado na história literária da França: Satan's, Saint, 1965, publicado entre nós com o titulo de Sade: o santo diabólico. Dez anos antes, no entanto, esse romance da vida de Sade tinha sido desmistificado, humanizado pela inteligente análise de Simone de Beauvoir no ensaio É preciso acabar com Sade?, em Priviléges, e que saiu também entre nós como prefácio a Os crimes do amor. Quem quiser saber mais da história olhe esses dois volumes e, se enrrabichar, busque os muitos estudos dos admiradores em massa do marquês Maurice Heine e Gilbert Lely. A vida de Sade desse ocupa vários tomos, mas compendiou as principais descobertas de suas pesquisa num Sade de bolso. Lely tem boas intenções, pretende respeitar a verdade, mas o resultado geral é hagiográfico. Nem por isso menos imprescindível a quem quiser estar a par do que hoje se pode saber do que de fato aconteceu nessa vida.

Páginas 1, 2

voltar


Copyright© 1999 - COM 024/ FACOM- UFBA
Site produzido por: Luiz Goulart e Yerma Soledade