Sadomasoquismo, um império de dor e prazer

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MARQUÊS DE SADE, O MARIDO COMPLACENTE

L&PM POCKET, CLASSICOS LIBERTINOS-1985-VOL.86
COLEÇÃO REBELDES E MALDITOS

Nenhum outro escritor foi tão indomável nem tão condenado quanto o Marquês de Sade. Como muitos, ele só pensa em sexo, e um sexo, o seu, bem anti-social, a usar, discricionariamente, os parceiros, anulando-os como individualidades, às vezes a chicotadas, mas sem excluir o veneno, o canivete, a cera quente e outras mumunhas. Como só ele, teve a audácia ou o talento, de advogar com ardor e constância esse sexo que o identificava enfim particular como o de qualquer outro, já que, na prática, o sadismo é tão limitado pela resistência alheia que antes permanece imaginário.

foto: Marquês de Sade

Mas, se a advocacia não convence, a paixão que nela põe é eruptiva. Produz fácil e velozmente uma obra que não raro se caracteriza pelo estilo direto da necessidade. Entrou mania nisso, mas se trata dum estilo superior, durável. Pôde hibernar cem anos, vilipendiado, até que o poeta Apollinaire, neste século, o redescobrisse, inclusive para um permanente sucesso de vendas. É um estilo que não enfeita, pois Sade, também como escritor, bate.

Pena que demais na mesma tecla. Sua preferência sexual é, a seu ver, um dado da natureza, portanto como todo o direito, pois o natural é a lei, a base sólida da ética. Na linha do pensamento de seu tempo, professa-se ateu, empírico, lógico. Natureza e razão são tudo. E como a natureza é, a despeito de considerações, conclui que só reconhece seu interesse e prazer, como se fosse uma pessoa para tê-los, como os tem o seu sexo. Fora da fraqueza e da hipocrisia, incumbe obedecer ao sexo, que nunca é louco porque é natural. O ideal ético de um homem que se respeita, como ele, é fazer o que entende na cama.

Isso pode ser lógico, mas de araque. Lê-se o que se quer na natureza justamente por não ser sentido, que é do homem, mas dado, numa ética. O homem se inventa na história, o que são outros quinhentos. Sade não pode ignorar isso todo o tempo e resulta que seus alegados evocam uma série de lugares-comuns, a brigar entre si, e a conhecida série de seus inaceitáveis lugares incomuns, continuando a briga. Mas, como enfim é a paixão que transforma as idéias na verdade de cada um, a dele não precisou de mais coerência que isso para se autonutrir furiosamente contra os outros. Sua verdade é exorbitante, não se dosa pela realidade, que é sempre mais dos outros. Ela, ou seu sexo, tendia antes a esmagar os outros que a lhes dar crédito.

Só que os outros não estão aí para ser esmagados e o puseram nas maiores frias. As vítimas e seus parentes reagiam, o denunciavam às autoridades. Além da eterna pornografia sádica publicava ressentidas calúnias, como a novela Zoloé contra Josefina. Era um caso de polícia, e essa não se omitiu. Chegou inclusive a ser condenado à morte à revelia e, já no Novo Regime, ia ser guilhotinado, mas deu sorte, não o acharam nas prisões em que podia estar... Isso para não falar em seus inimigos póstumos, abusados pelo seu elitismo petulante a sonhar com crimes.

Não dá o braço a torcer, mas paga o acusam, perseguem, infernizam, passa trinta anos na cadeia. A certa altura nem evita os riscos a ponto de parecer que quer ser punido. No mínimo, não se torna no cárcere menos ele mesmo. Aí se revela o escritor. Antes é apenas homem de gosto, habituado a ler e escrever, como tantos jovens bem-nascidos da época Uma pena longa é que lhe abre o veio desde então inestancável da vingativa autodefesa amenizada pela realização sexual imaginária. Pôde enfim escrever o que antes mais concebia já por dar tanto problema a realizar. Admite-se que troque essa intensa vida no papel pelas incertezas do viver, ou ser fiel em ato a um sexo tão exigente.

Encerrado, não corre o risco de ser peso, pode dizer tudo e só escreve e come. Acaba com um corpo descomunal e uma obra não menos. Manuscritos se perderam, outros foram destruídos pela polícia ou seus descendentes, mas o que sobrou é um porre, uma pomada. Seus longos romances, como Os 120 dias de Sodoma ou A Marquesa de Ganges, acumulam cenas sexuais e sádicas dum modo que, parece, só não se torna monótono mecanismo para o força do abstinente que as concebeu... A preocupação com os detalhes de cada orgia que orquestra como se os tivesse gozando, o que provavelmente estava, impede que se detenha nos personagens e os olhe, os veja viver para fazer viver. Os lapsos de vida que esses tenham logo se perdem nas renovadas descrições sexuais, ficam meras fachadas, meros nomes que não oferecem ao leitor suficiente humanidade para que possa, em parte ao menos, se identificar core eles e tomar parte em seus ágapes. A rigor, Sade fracassa não só como romancista também como pornógrafo, quem diria?

No entanto é um ficcionista. Nos próprios romances, mas mais nos contos, tem lampejos de criação narrativa põe a viver com traço seguro situações e personagens. Mas acerta meio incidentalmente, não é o que mais busca tanto que interrompe a qualquer hora a narração para perorar a favor de sua causa ou sexo. Desde que dramáticos, e os de Sade costumam ser, podem se admitir discursos na ficção. Mas ele é pessoal demais, e assim até sua eloqüência acaba nos afastando. Tanto barulho por um gozo tão problemático, calmáte corazón!

Ao escritor atrapalha menos a própria pessoa nos relatos curtos, e menos ainda nos curtíssimos, que não dão margem a divagações. Contos de relativa extensão, como a primeira Justina, ou os infortúnios da virtude e alguns dos Crimes do amor [...] foram escritas em 1787/88 nada menos que na Bastilha, o famoso cárcere cuja tomada em míseros cinco anos encetaria a grande Revolução. Mas não se afobem com política porque o marquês corre por fora. Proclama-se republicano, mas não se era marquês impunemente: vê o mundo do alto de sua classe privilegiada.

Nem teria sido tão Sade ou tão sádico, se ser nobre não fosse encerar os que não o eram nunca como iguais, e no fundo instrumentos do sujeito que é o nobre ou de seus desejos. Isso nem se disfarça em tudo o que escreve o grande cara-de-pau. No conto Castelã de Longeville, ele afronta sorrindo nossos preconceitos democráticos, aliás uma intervenção recente, que a bem dizer começa com Rousseau. Mas, felizmente, tão vitoriosa que a Castelã ou o passado já nos arrepiam.

 

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