Sadomasoquismo, um império de dor e prazer

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(continuação)

Trata-se de um escritor do século XIX, nascido na geração intelectual cientificista e anticlerical que se seguiu à revolução de 1848 como ele se define a si próprio? Primeiro, como um aristocrata, numa sociedade da monarquia dos Habsburgo, que era mais impregnada de respeito pelos valores aristocráticos do que pelos valores burgueses.

"Entre meus amigos, quase todos são príncipes e condes e nos romances que vivi, as heroínas são quase sempre princesas, condessas ou pelo menos baronesas; e isto não porque eu seja escritor e gentil-homem (Kavalier), mas porque sempre, como escritor, continuei sendo o gentil-homem que sabe manejar o sabre e a pistola tão bem quanto a pena." A uma jovem que ele corteja, escreve em 1875: "Eu sou o que os escritores alemães não são, isto é, um gentleman, e tenho uma reputação de esgrimista e atirador, sou um passável cavaleiro, um bom andarilho e um caçador apaixonado."

Tem orgulho de suas origens, de seus antepassados; é um maníaco do código de honra. Se fala livremente de suas amantes e do amor, isto é um privilégio de sua classe social. Ao contrário da burguesia, preocupada com uma moral tacanha, os nobres podem sem hesitação exibir suas conquistas. No século XIX, a liberdade de tom sobre o Amor não é o resultado de uma democratização da sociedade, mas sim de resquícios aristocráticos. Afinal, no século XIX quem é que defende a liberdade das mulheres, senão três aristocratas: George Sand, Flora Tristan e Louise Michel, jogadas pela vida à margem de sua classe de origem?

Sacher-Mascch é um aristocrata liberal, um homem da revolução de 1848 que ele descobriu aos doze anos sobre as barricadas de Praga, apaixonado pelo progresso social.

É um homem de fronteira: nasceu na Galícia, na Polônia anexada pela Áustria por ocasião das partilhas do final do século XVIII, entre o mundo russo que anuncia o Oriente e o mundo germânico. Escreve em língua alemã, mas para evocar uma realidade eslava, completamente estranha à literatura alemã.

Mas nasceu também na fronteira intelectual: entre a arte russa de Turgueniev e de Gogol, o entusiasmo da geração romântica, o pessimismo cientificista de Schopenhauer e de Darwin.

Entre duas concepções da mulher: a aristocrata liberada e dominadora da nobreza polonesa, na época uma exceção na sociedade européia, e a mulher liberada do futuro que ele espera com impaciência.

Entre duas concepções da política: um nobre liberal mas desdenhoso da democracia tal como existe, com seus excessos nacionalistas, sua imprensa de massa com jornalistas arrogantes e incapazes. Ele foi um austríaco fanático, acreditou realmente num Estado multinacional que asseguraria a todos os alemães, eslavos e húngaros uma total igualdade. Em 1866, era antibismarckiano, hostil ao novo Reich alemão, enquanto uma parte da intelectualidade aderia à superioridade germânica e ao nacionalismo pangermanista. Partidário dos pobres, amigo dos camponeses, também foi o nobre protetor dos judeus, contra a vulgaridade dos movimentos anti-semitas, mas sem esconder seu desprazer pela vulgaridade dos capitalistas judeus enriquecidos. Meu objetivo é escrever sua vida, tal como ele a viveu, como uma aventura individual fascinante, voltada para a conquista da glória literária, à procura de um ideal feminino que sempre se esquiva:

Gilles Deleuze mostrou que sadismo e masoquismo não são complementares totalmente separados. "Na verdade o gênio de Sade e o gêaio de Masoch são completamente diferentes; seus mundos são incomunicantes; suas técnicas romanescas sem relação entre si." conclui pela "diferença radical entre a apatia sádica e o frio masoquista".

Pervertido sexual? Doente? cada qual decidirá livremente, sem que se imponha qualquer julgamento. "Aqueles que pensariam ver nele uma vitima, destinada às formas passivas do amor, cometeriam um grande erro. Por ocasião de sua morte, em 1895, um critico que o conhecera muito bem escreveu:

"Quando observadores superficiais viam Sacher-Masoch, tinham a impressão de estar diante de um homem de uma incrível fraqueza; porém um exame mais aprofundado revelava nele uma força incrível." Eu gostaria de mostrar que ele sempre inventou sua vida.

Não existia uma verdadeira biografia do escritor. Para escrevê-la, seria preciso primeiro tê-lo lido, em sua obra esparsa: a bibliografia dos livros que ele publicou até 1895 comporta nada menos que cento e vinte títulos. Ora, a maioria de seus comentadores tenta reconstituir suas idéias a partir da Vênus das peles e da leitura apressada de um ou dois outros volumes.

Para que gastar tesouros de engenhosidade a fim de inventar respostas, quando elas se encontram em seus livros claramente e explicitamente formuladas? Basta saber lê-las. Mas principalmente, para compreendê-lo, é preciso conhecer intimamente a monarquia dos Habsburgos no século XIX, não somente o mundo alemão mas também o mundo eslavo, ruteno, polonês, tcheco, com suas línguas, seus costumes, seus rituais sociais.

Quando de sua emigração da Alemanha depois de 1933, sua neta, Sra. Mechtilde Saternus, salvou livros, quadros, manuscritos. Mas o diário de Sacher-Masoch, documento essencial do qual conhecemos trechos graças a seu primeiro comentarista, Schlichtegroll, desapareceu perto de Leipzig durante a Segunda Guerra Mundial, com a filha do escritor, Olga.

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