Sadomasoquismo, um império de dor e prazer

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SACHER-MASOCH
ROCCO, BERNARD MICHEL, RIO DE JANEIRO, 1992

Durante uma viagem a Viena com o pai, o garoto descobre na galeria imperial do palácio do Belvedere o retrato de Héléne Fourment pelo marido, Rubens, que a pintou nua, enrolada numa peliça que mais revela que esconde seu corpo. "Ainda menino eu já tinha por peliças uma predileção que com o tempo se tornou uma paixão, verdadeira mania." Adulto, o Cavaleiro de Sacher-Masoch firmou com a Sra. Fanny de Pistor um contrato nestes termos: "O Sr. Leopold de Sacher-Masoch aceita ser o escravo da Sra. de Pistor e obedecer incondicionalmente a todos os seus desejos e ordens; isto durante seis meses, Por sua vez, a Sra. de Pistor promete vestir-se de peles o mais freqüentemente possível e sobretudo quando der prova de crueldade".

 

foto: Sacher Masoch

Invocado e evocado a toda hora nas conversas mais banais,o Cavaleiro de Sacher-Masoch é, ainda assim, um ilustre desconhecido. Ou era até Bernard Michel - professor de História da Europa Central Contemporânea da Universidade de Paris I, diretor do Instituto Pierre Renouvin e diretor de seminário no Instituto de Estudos Políticos-lhe dedicar uma minuciosa biografia. Como nota Michel, quando o psiquiatra vienense Krafft-Ebing rotulou de "masoquismo" certo "tipo especial de perversão sexual" imortalizou e banalizou Sacher-Masoch em todos os idiomas do mundo, mas ao mesmo tempo matou-o como escritor.

Nascido na Galícia, província do sul da Polônia anexada ao império dos Habsburgo desde 1772, e filho de um alto funcionário imperial que era intendente de policia em Lvov, Sacher-Masoch foi um típico representante da geração intelectual cientificista e anticlerical que surgiu depois da revolução de 1848. Escritor de língua alemã ("Sou alemão; penso, sinto e quero em alemão"), foi, no entanto, por opção um eslavo, um pequeno prussiano, um homem do Oriente Em sua vida misturam-se violência, aventura, exotismo e erotismo.

Em 1846 assiste às insurreições camponesas da Galícia e em1848, aos doze anos, está nas barricadas dos insurretos de Praga.

Em sua obra excessiva e passional o tema dominante é sua Galícia natal, com a guerra declarada ou surda entre os camponeses pobres e a nobreza polonesa. Mas o que lhe deu em vida renome e prestígio em toda a Europa foram os romances, novelas e contos em que descreve a busca incessante de um esquivo ideal feminino.

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"Masô", "masoquista": ele está presente em toda parte, na linguagem mais corriqueira, constantemente invocado e evocado, sem que se saiba quem foi o cavaleiro de Sacher-Masoch. Em 1890, um professor de psiquiatria da Universidade de Viena, Richard von Krafft-Ebing, escreveu em suas Novas investigações no domínio da psicopatia sexual:

"Essas perversões da vida sexual podem ser chamadas de masoquismo, pois o famoso romancista Sacher-Masoch, em vários romances e principalmente no seu célebre A Vênus das Peles, fez desse tipo especial de perversão sexual o tema predileto de seus escritos."

E ele o considerava o complemento do sadismo, que tirava o seu nome do célebre Marquês. com isso ele tomava Sacher-Masoch imortal, banalizado através de todos os idiomas do mundo, mas o matava como escritor. Se algum psiquiatra tivesse forjado a palavra "proustiano", Em busca do tempo perdido não teria corrido o risco de desaparecer da grande literatura para se tornar o jardim secreto de uma sexualidade marginal?

Sacher-Masoch recusou com indignação ser posto de lado. Vivera um destino de criador, fora o amante inventivo de esplêndidas amantes; não podia admitir que tudo isso fosse rebaixado ao nível de uma doença sexual. Tanto quanto El Greco não podia aceitar que sua pintura fosse apenas o resultado de perturbações visuais, ou Van Gogh que o mundo por ele criado não refletisse mais do que uma simples desordem mental.

Quem foi Sacher-Masoch? Escritor austríaco de língua alemã, ele evoca o mundo eslavo do sul de sua Polônia natal, a Galícia. As histórias da literatura alemã o ignoram, os poloneses quando muito conhecem seu nome. Ele surge apenas acessoriamente do desvio das páginas de uma história intelectual da Áustria.

E impossível compreendê-lo sem situá-lo em seu quadro histórico. Como todo grande escritor, ele parte de uma transcrição biográfica. Às vezes levemente modificada, porém nunca literal.

"E todos os meus romances, quando não tratam de um assunto histórico, nasceram de minha vida, banharam-se no sangue do meu coração. Que me compreendam bem, não fiz romances a partir dos diversos capítulos de minha biografia, isto estaria bem longe da arte, mas em cada uma de minhas narrativas há um nervo que é meu, há motivos que são extraídos de minha vida. Mesmo quando a fábula é inteiramente inventada, não é o caso dos caracteres, não é o caso das cenas e dos detalhes. Na minha obra a pintura é sempre propriedade do poeta mas a tela em que nasceu assim como sua impressão pertencem à minha pessoa, à minha vida. Não fui morto em duelo como Wladimir em Noite de luar e muito menos entregue à chibata de um rival mais feliz, como Séverin em A Vênus das peles, mas houve uma época em que a pálida Olga deitava timidamente em meu peito a cabeça cansada da vida e uma outra época em que, realmente, fui o escravo de uma mulher bela e cruel.

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