Invocado e evocado a toda hora nas conversas mais banais,o
Cavaleiro de Sacher-Masoch é, ainda assim, um ilustre desconhecido.
Ou era até Bernard Michel - professor de História da Europa
Central Contemporânea da Universidade de Paris I, diretor do
Instituto Pierre Renouvin e diretor de seminário no Instituto
de Estudos Políticos-lhe dedicar uma minuciosa biografia. Como
nota Michel, quando o psiquiatra vienense Krafft-Ebing rotulou
de "masoquismo" certo "tipo especial de perversão sexual" imortalizou
e banalizou Sacher-Masoch em todos os idiomas do mundo, mas
ao mesmo tempo matou-o como escritor.
Nascido na Galícia, província do sul da Polônia anexada ao
império dos Habsburgo desde 1772, e filho de um alto funcionário
imperial que era intendente de policia em Lvov, Sacher-Masoch
foi um típico representante da geração intelectual cientificista
e anticlerical que surgiu depois da revolução de 1848. Escritor
de língua alemã ("Sou alemão; penso, sinto e quero em alemão"),
foi, no entanto, por opção um eslavo, um pequeno prussiano,
um homem do Oriente Em sua vida misturam-se violência, aventura,
exotismo e erotismo.
Em 1846 assiste às insurreições camponesas da Galícia e em1848,
aos doze anos, está nas barricadas dos insurretos de Praga.
Em sua obra excessiva e passional o tema dominante é sua Galícia
natal, com a guerra declarada ou surda entre os camponeses pobres
e a nobreza polonesa. Mas o que lhe deu em vida renome e prestígio
em toda a Europa foram os romances, novelas e contos em que
descreve a busca incessante de um esquivo ideal feminino.
***
"Masô", "masoquista": ele está presente em toda parte, na linguagem
mais corriqueira, constantemente invocado e evocado, sem que
se saiba quem foi o cavaleiro de Sacher-Masoch. Em 1890, um
professor de psiquiatria da Universidade de Viena, Richard von
Krafft-Ebing, escreveu em suas Novas investigações no domínio
da psicopatia sexual:
"Essas perversões da vida sexual podem ser chamadas de masoquismo,
pois o famoso romancista Sacher-Masoch, em vários romances e
principalmente no seu célebre A Vênus das Peles, fez desse tipo
especial de perversão sexual o tema predileto de seus escritos."
E ele o considerava o complemento do sadismo, que tirava o
seu nome do célebre Marquês. com isso ele tomava Sacher-Masoch
imortal, banalizado através de todos os idiomas do mundo, mas
o matava como escritor. Se algum psiquiatra tivesse forjado
a palavra "proustiano", Em busca do tempo perdido não teria
corrido o risco de desaparecer da grande literatura para se
tornar o jardim secreto de uma sexualidade marginal?
Sacher-Masoch recusou com indignação ser posto de lado. Vivera
um destino de criador, fora o amante inventivo de esplêndidas
amantes; não podia admitir que tudo isso fosse rebaixado ao
nível de uma doença sexual. Tanto quanto El Greco não podia
aceitar que sua pintura fosse apenas o resultado de perturbações
visuais, ou Van Gogh que o mundo por ele criado não refletisse
mais do que uma simples desordem mental.
Quem foi Sacher-Masoch? Escritor austríaco de língua alemã,
ele evoca o mundo eslavo do sul de sua Polônia natal, a Galícia.
As histórias da literatura alemã o ignoram, os poloneses quando
muito conhecem seu nome. Ele surge apenas acessoriamente do
desvio das páginas de uma história intelectual da Áustria.
E impossível compreendê-lo sem situá-lo em seu quadro histórico.
Como todo grande escritor, ele parte de uma transcrição biográfica.
Às vezes levemente modificada, porém nunca literal.
"E todos os meus romances, quando não tratam de um assunto
histórico, nasceram de minha vida, banharam-se no sangue do
meu coração. Que me compreendam bem, não fiz romances a partir
dos diversos capítulos de minha biografia, isto estaria bem
longe da arte, mas em cada uma de minhas narrativas há um nervo
que é meu, há motivos que são extraídos de minha vida. Mesmo
quando a fábula é inteiramente inventada, não é o caso dos caracteres,
não é o caso das cenas e dos detalhes. Na minha obra a pintura
é sempre propriedade do poeta mas a tela em que nasceu assim
como sua impressão pertencem à minha pessoa, à minha vida. Não
fui morto em duelo como Wladimir em Noite de luar e muito menos
entregue à chibata de um rival mais feliz, como Séverin em A
Vênus das peles, mas houve uma época em que a pálida Olga deitava
timidamente em meu peito a cabeça cansada da vida e uma outra
época em que, realmente, fui o escravo de uma mulher bela e
cruel.
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