Korova e "Otros" Bichos


 
Aquele lugar era o paraíso para qualquer inseto detestável, roedor repugnante ou qualquer outro animal pestilento que vivesse sobre a terra. Era a pior praga para qualquer imóvel, mas é uma parte inevitável da construção, e às vezes tem lá sua serventia como depósito permantente ou temporário para as tranqueiras dos ocupantes do prédio. No fim, os piores objetos vão se bater por lá, como se fosse um cemitério, o triste destino final de móveis, eletrodomésticos, etc. e isso só contribui para a instalação das tais criaturas abomináveis, com moradia, infra-estrutura e conforto. O tal inferno chama-se Subsolo.

Justamente nesse lugar, Korova e sua turma vivem felizes e de esculhambação. Apesar de algumas das criaturas subterrâneas serem "de família", todos conviviam respeitando os limites da liberdade e da libertinagem. Porra-loucas ou caretas, as criaturas do subterrâneo viviam em paz e Korova, como bom filho, amigo e amante cafajeste, era o rato mais popular da região.

Korova nunca conheceu seu pai e maioria de seus irmãos sempre se espalhava pela cidade, de forma que ele vivia ali com sua mãe e Melissa, sua irmã gêmea e lésbica. A ratazana-mãe sempre procriava aos montes e em pouco tempo estava pronta pra outra. Não eram uma família muito comum, porém tinham harmonia, até que o encanto foi quebrado pelo trágico falecimento dos 24 (Melissa, a mãe e 22 filhotes), do qual Korova só escapou por pouco, sendo então praticamente adotado pelas criaturas do subsolo.

Seu melhor amigo, fiel escudeiro, Jackson, o carrapato albino, também desfrutava de certo privilégio, apesar de ser mais centrado e sério que Korova. Se divertia com as histórias e o jeito de cretino-simpático do amigo. Às vezes o invejava por conseguir traçar toda fêmea que quisesse, enganá-las e permanecer impune e querido pela comunidade. Mas era uma inveja sadia, gostaria de ser como ele em alguns momentos, e admirava o amigo, entretanto sabia valorizar sua própria pesonalidade e conquistava à sua maneira.

As baratas da região eram todas descoladas e loucas por Korova. Decerto era um sexo estranho, mas o rato se divertia com a imensa variedade de surubas das quais participava. Como nunca sabia o nome das parceiras cascudas - milhares, de forma que é difícil saber o nome de todas - ele se habituou a chamá-las todas simplesmente de "Roach", e isso bastava para que se derretessem. Como era chique ser chamada por apelido estrangeiro!

Além das baratas, é óbvio que Korova também traçava roedoras. Certamente tinha centenas de filhotes proliferados por Salvadorvi, mas não fazia questão de saber, assim como não faziam questão de informar-lhe. Às fêmeas férteis, bastava saber que haviam parido um Korova (diziam isso com o mesmos orgulho e esnobação de quem diz "Tenho um Caravaggio!"

Apesar dessa promiscuidade, uma fêmea marcou a memória de Korova, mas pela maneira drástica como a perdera, o camundongo também preferia tentar esquecer. Apenas Jackson e ele mesmo sabiam o verdadeiro espírito daquelas gargalhadas e alucinações psicodélicas das horas de esbórnia.

E por falar em esbórnia, era disso que o rato e sua galera viviam. Quando não estava tendo uma atividade "saudável", como uma picula com gatos, rolar pelos montes de entulho ou folgar entre as patas de uma fêmea, Korova estava chupando fluido de freio alucinadamente ou cheirando descarga de fusca. Também era chegado a comer toco de baseado mergulhando em caldo de pilha, beber acetona, comer floc gel de fralda descartável, aspirar infusão de Diabo Verde... Aliás, são incontáveis as formas de se chapar que as criaturas subterrâneas encontram no lixão do subsolo.

No mais, pode-se dizer que Korova é um escroto boa-praça, um rato que sabe aproveitar muito bem sua vida infame abaixo do solo. Mesmo assim, às vezes acontecem coisas lá em cima que acabam dando baque ali, naquele Édem...

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