Um Corpo na Escada

 
O dia empurrava a noite para fora do céu, as últimas putas e vagabundos deixavam as ruas, junto com outras criaturas da noite, que viam na claridade o motivo para se recolherem às suas tocas. O movimento começava no Palais du Bordeux. Cada morador, impelido por necessidades próprias, começava a traçar a estratégia para encarar mais um dia de rotina. O compasso, entretanto, não era o normal, pois todos ainda sentiam-se molestados pela noite anterior.

Iracema era a primeira a sair do prédio. A roupa amarela, do gosto de seu Orixá, perfeitamente engomada e o grande cesto cheio dos quitutes e toda parafernália que ela precisa para trabalhar. Estava saindo ainda mais cedo hoje, pois precisava comprar um galão novo de dendê. Mesmo contrariada, ela impunha um sorriso ao seu rosto, para ir já vestindo a personagem que cativava os fregueses. Ela abre a porta e começa a descer as escadas. No primeiro andar, entretanto, seu sorriso cordial dá lugar a uma expressão aterrorizante.

Jogada na escada, de roupas rasgadas, restos de uma calcinha vermelha presos em uma das pernas, o corpo coberto de arranhões e cabelos negros, está Edicleide. Sua pele morena não tem mais brilho nem cor, sua jovialidade agora se resumia a uma visão de brutalidade. O cesto despenca da mão gorda de Iracema e o barulho dos apetrechos, junto com seu grito, trazem Demiurgo e Sófocles para o vão da escada.

- Colémerma? Ninguém pode mais durmi por aquê não, é? - berrou Demiurgo com a voz ainda sonolenta.
- Por acaso a senhora tem algum problema relativo às boas regras de... - Iracema não deixou que o mala do Sófocles concluísse a frase prolixa e falou alto, com a voz embargada:
- ELA TÁ MORTA!
- Cumé? Ela quem, nega véia? O que é que tá pegando? - Demiurgo já vinha descendo a escada, tirando o gorro e coçando a cabeça.
- É, a senhora poderia esclarecer? Do que a senhora está tratando? - Sófocles também já começava a descer a escada, com uma expressão interrogativa.
- É Edi, digo, Isadora! Ela tá, ela tá.... - neste momento a quituteira gorda desata a chorar. Os dois homens já chegavam ao andar onde se encontrava o corpo.
- Oh! Meu deus! É a senhorita que reside no primeiro pavimento! Isto com certeza trata-se de um homicídio! Não podemos tardar em acionar as autoridades competentes para solucionar este crime!
- Colé, mô pai! Esse negócio de trazer os macaco praqui num vai resolvê nada! A moça num deve de tê família e aí a gente pode cuidá da presunto direitinho, fazer uma vaquinha e enterra a dita num cemitério decente. Não vamo agora é fazê essa disfeita com a defunta, de trazer um rebanho de macho sacana pra ficá aqui bizoiando e apalpando as parte, cum discurso de que é pra averiguá. Que nada!

Demiurgo nunca havia dito algo tão sábio. Querendo apenas defender seu lado, acabava levantando uma possibilidade boa para os três. Eles se entreolharam, a princípio os outros dois pensaram em discordar por causa de um ligeiro lapso de humanidade em relação à garota. Mas acabou prevalecendo o senso de auto-preservação, e concordaram em resolver tudo sem meter a polícia na história.

- Eu posso auxiliar na limpeza e arrumação do cadáver. Não é certo sepultarmos a moça neste estado...

Sófocles olhava de forma devoradora para o corpo sem vida. O que ele seria capaz de fazer com o belo cadáver em suas mãos, só o Diabo sabe! Iracema, no entanto, percebeu os olhares do cientista tarado, e logo tratou de preservar a integridade moral do cadáver.

- O sinhô pode deixar isso comigo. A menina é direita não ia querer ficar sendo cuidada nas suas intimidade por um homem que ela mal conhece. Ainda mais o sinhô, que nunca pareceu ir muito com a cara dela...
- Eu... eu... mas eu sou um... um... 
- É, preciso admitir que tou apoiando a preta. A gente pode cuidar de arrecadar o dinheiro, providenciar o caixão e a sepultura 
- Pois então. Vumbora logo adiantando esse lado. O sinhô, trate de ir na
funerária mais perto daqui. E você, esse menino, me ajude aqui a levar a moça pra cima, que eu vou limpar ela e botar uma roupa bem da bonita. Coitada, merece ir ver pai Oxalá com uma saia de renda branca... Depois você me vai lá nas Quintas e vê quanto é que os papa-defunto tão cobrando pra sepultá sem hora marcada.
- Mas e... Mas e... é que...
- E o sinhô me deixe de amolação e vá logo lá ver o preço desse caixão! Nada de luxo, só uma coisa simples que é pra a menina descansá na terra do pé junto!

 

Morte na Cidade
Suspeitas
Korova e 'Otros' Bichos

 
Volta pra casa, vagabundo! Vô tentar mudar de canal! Arriba!

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