| Um Corpo na Escada | ||
| O dia empurrava a noite para fora do céu, as últimas
putas e vagabundos deixavam as ruas, junto com outras
criaturas da noite, que viam na claridade o motivo para
se recolherem às suas tocas. O movimento começava no
Palais du Bordeux. Cada morador, impelido por
necessidades próprias, começava a traçar a estratégia
para encarar mais um dia de rotina. O compasso,
entretanto, não era o normal, pois todos ainda sentiam-se
molestados pela noite anterior. Iracema era a primeira a sair do prédio. A roupa amarela, do gosto de seu Orixá, perfeitamente engomada e o grande cesto cheio dos quitutes e toda parafernália que ela precisa para trabalhar. Estava saindo ainda mais cedo hoje, pois precisava comprar um galão novo de dendê. Mesmo contrariada, ela impunha um sorriso ao seu rosto, para ir já vestindo a personagem que cativava os fregueses. Ela abre a porta e começa a descer as escadas. No primeiro andar, entretanto, seu sorriso cordial dá lugar a uma expressão aterrorizante. Jogada na escada, de roupas rasgadas, restos de uma calcinha vermelha presos em uma das pernas, o corpo coberto de arranhões e cabelos negros, está Edicleide. Sua pele morena não tem mais brilho nem cor, sua jovialidade agora se resumia a uma visão de brutalidade. O cesto despenca da mão gorda de Iracema e o barulho dos apetrechos, junto com seu grito, trazem Demiurgo e Sófocles para o vão da escada. - Colémerma? Ninguém pode mais durmi por aquê não, é?
- berrou Demiurgo com a voz ainda sonolenta. Demiurgo nunca havia dito algo tão sábio. Querendo apenas defender seu lado, acabava levantando uma possibilidade boa para os três. Eles se entreolharam, a princípio os outros dois pensaram em discordar por causa de um ligeiro lapso de humanidade em relação à garota. Mas acabou prevalecendo o senso de auto-preservação, e concordaram em resolver tudo sem meter a polícia na história. - Eu posso auxiliar na limpeza e arrumação do cadáver. Não é certo sepultarmos a moça neste estado... Sófocles olhava de forma devoradora para o corpo sem vida. O que ele seria capaz de fazer com o belo cadáver em suas mãos, só o Diabo sabe! Iracema, no entanto, percebeu os olhares do cientista tarado, e logo tratou de preservar a integridade moral do cadáver. -
O sinhô pode deixar isso comigo. A menina é direita não
ia querer ficar sendo cuidada nas suas intimidade por um
homem que ela mal conhece. Ainda mais o sinhô, que nunca
pareceu ir muito com a cara dela...
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