Suicídio


 
Quem não deve não teme, já diz a sabedoria popular. Será mesmo? O desespero que toma conta dos seres acuados transfigura-os, fazendo-os tomar atitudes nem sempre louváveis (e quase sempre suspeitas...)

O suor escorre aos baldes da face pálida de Sófocles. Prostrado na poltrona ocre destinada ao descanso no laboratório, com uma taça de Cabernet Sauvignon 1989 em uma mão e a garrafa vazia na outra, o cientista é a própria imagem do desespero.

Na TV 14 polegadas mal sintonizada passa apenas uma corrida de cavalos, numa tal de TV Jóquei. Também, que mais pode-se exigir da televisão em matéria de qualidade na programação às 4:37hs da madruga?

Sófocles sente-se atordoado. Não aguenta mais os olhares de desprezo e dúvida do pessoal do Palais. Não aguenta mais as suspeitas. Os cavalos permanecem correndo tresloucadamente em frente à tv. As imagens daqueles dias de terror também se sucediam de modo alucinado em sua mente. Os corpos, a suspeita, a polícia, os ratos... Não!!!! Não era possível que estivessem duvidando dele. Talvez, sim, fosse ele o culpado!! Sim! Vir morar em um prédio no qual a escória do mundo se esconde... e ele tornara-se parte daquela escória, do lixo social, de tudo o que era detestável. Sofócles, Médico e monstro!!!!!!!!! O mundo falso e desumano. Morte à raça de humanos falsos e pervertidos!!!!!!!!!!

À embriguez do vinho juntava-se toda a dor da acusação. O que era inicialmente revolta torna-se ódio. Ódio do mundo, desta fétida poltrona ocre que acolhe um corpo insano e podre. O cheiro da cidade, as gargalhadas das putas que passam sorrindo em frente ao Palais du Bordeaux, os gatos vagabundos que rastejam e trepam na madrugada torpe. O ÓDIO!!!!!!!!! Os cavalos idiotas que correm a favor de nada e o mundo que exige amor e paz e gentilezas e não permite que sintamos ódio. Este ódio quente, que escorre pela garganta abaixo e preenche todos os vãos do meu ser, que já não é nada além de ódio e raiva e inquietação!!!!! O ódio do mundo não é mais a razão do meu viver, pois já é toda a minha vida! Que o maldito e filho da puta do mundo duvide de mim!!!! Eu já duvido de suas crenças e deuses estúpidos e amores e razões e paixões desde que me entendo por ser humano!!

Correm mais os cavalos. No ápice de seu desconforto, Sófocles atira a garrafa vazia contra a tv: "cavalgar é fácil, difícil é conviver", afirma, após um misto de gargalhada e pranto desesperado. Coloca fogo em vários montes de estudos científicos que desenvolvia. Fogo eterno pra afugentar provas de algo que não é real (ou é?). Apanha o revólver calibre 45 no coldre sobre a cômoda e desce as escadas. Chega à porta do prédio e grita:

-Se eles querem meu sangue, terão o meu sangue...

E nem termina a frase. Encosta a arma na têmpora direita e atira. Um menino que dormia na rua acorda com o ruído e, meio sonolento, ainda fala ao ver a chuva de miolos do cientista: "que bonitinho, já é São João".

Sófocles foi comer grama pela raiz. Será que ele estava realmente certo ao dar cabo da própria vida? Se você for "isprito di porco", corre logo para ter sua Revelação. Se não, procure ler primeiro todas as partes do conto, que deu trabalho para fazer!!!!

Mutação ou Gênese
Suspeitas

 
Volta pra casa, vagabundo! Vô tentar trocar de canal! Arriba!

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