| Mais uma noite entre tantas e tantas
daquela vidinha subterrânea. Enquanto a parte nobre do
mundo lá em cima se recolhia ao sono, a parte podre, o
submundo, se eriçava, festejando sob a luz da Lua. No
caso do subsolo, nem o luar penetrava, apenas as luzes
inseticidas fritavam algumas moscas estúpidas, enquanto
outras pestes se divertiam e os gatos no cio irrompiam o
silêncio noturno. A despeito de qualquer coisa que acontecia ao redor, Korova, entre goladas de fluido de freio e pedaços de queijo mofado, olhava ao redor, procurando alguma fêmea que pudesse lhe trazer alegria naquela noite. Foi então que pôs os olhos dopados em uma ratinha branca, com ares assustados, pouco mais que uma calunga. "Hehehe! Sangue novo!", Korova pensou com lascívia, passando a caminhar na direção da donzela. Tentou fazer uma cara sóbria, limpou os cantos da boca e foi se aproximando da roedorazinha, que tremia tentando não observar os passos do rato. Chegando ao lado dela, observou: -
Você é nova aqui, não? Alguns dos outros bichos do subsolo observavam a cena e não aguentavam de rir das caras e bocas teatrais de Korova. Com certeza seria uma noitada e tanto seduzir aquela pureza. A ratinha, com seu ar angelical, estava caminhando a passos largos para descobrir a putaria das noites subterrâneas. Apoiava-se completamente no "paternal" Korova, que provavelmente a levava para um canto safado, onde iria executar as maiores libertinagens. -
A propósito, branquinha, como é seu nome? Sentaram-se e a Cobaia continuou a contar a história triste que vivia no laboratório. Korova realmente estava penalizado, mas seus instintos e embriaguez falavam mais alto e aos poucos ele ia espalhando as patas pelo corpo da ratinha, que discretamente repelia suas investidas mais ousadas. Logo ele estava dizendo coisinhas meigas - as mesmas de sempre - dentro das orelhas da camundonga, que ria dócil e suscetível. Logo Korova acreditou ter tudo em mãos e partiu para uma investida mais "sarada" chafurdando bem as patas sob o pêlo branco da ratinha, bolinando e tentando jogá-la no chão. Assustada com a situação totalmente nova, a jovem roedora empurrou-o para longe e tratou de correr. Korova, embriagado ria, pois sabia que ela iria se perder ali no esgoto do subsolo. Lenvantou devagar e seguiu o cheiro de sua "presa". Ela estava parada num canto, procurando um lugar por onde sair. Seus sentidos eram pouco aguçados por causa do stress e artificialismo do laboratório. Korova aproveitou a indecisão e saltou sobre ela, mordiscando seu pescoço. Cobaia sentiu um arrepio e o corpo amoleceu um pouco, mas logo que sentiu a investida mais incisiva de Korova, correu mais uma vez. Ficaram nessa picula por quase meia hora, entre toques e quase rendições e a "fome" de Korova que se aguçava. A ratinha já estava gostando da brincadeira de provocar e se esquivar, começava a conhecer melhor o traçado dos canos e usava-os como esconderijo, ao passo que Korova começava a se aborrecer. -
Olha, ratinha... Tou ficando cansado disso. Você já
entendeu qual é o lance... então, se quiser mesmo
encarar, e eu sei que você tá gostando, trate de
aparecer, senão eu fico morgado e aí não tem mais
Korova pra hoje... - ele fazia a intimação encarapitado
num cano, certo de que ela apareceria. Cobaia saiu de trás de um cano, concordando com o que o rato queria. Korova abriu um sorriso de morder as pontas das orelhas, nunca tinha traçado nada tão limpinho e macio como aquela ratinha. Seus olhos brilhavam e sua boca chegava a estar cheia d'água, mas de repente POW! CHUÁÁÁÁ! Um cano lá se sabe de onde estourou e um jato forte de água esquisita, arrastou Korova para longe. O cano estava entupido por toneladas dos cabelos negros de Edicleide, embebidos em hormônios e estourou com o intenso fluxo de água daquele instante - que na verdade era uma mistura bizarra de crack e dendê velho, mais os tais cabelos. Essa mistura envolveu todo o corpo de Korova, além de entrar-lhe goela abaixo. Ninguém poderia imaginar que este tipo de coisa misturada daria uma tal bomba bioquímica que causaria um enorme transtorno naquele simples camundongo. A combinação de hormônios, com as propriedades nutritivas do dendê (também cheio de bactérias e substâncias estranhas desenvolvidas pelas semanas de re-uso), superdesenvolveram subitamente o corpo do camundongo. Os cabelos grudaram-se ao corpo, revestindo-os com uma camada resistente, enquanto a ação eletrizante do crack em excesso se fixaram no pequeno cérebro do animal, distorcendo e amplificando sua percepção e movimentos. Naquele momento, desmaiado num canto obscuro subsolo, uma nova força se erguia. Um animal como outro qualquer do subterrâneo era metamorfoseado num ser enorme, forte e cuJas capacidades até então eram inimagináveis. Dali para frente, Korova e os outros bichos do Subsolo fariam parte de uma nova realidade. |
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