Revelação


 
No subsolo do Palais du Bordeux um camundongo desperta de um desmaio. É Korova, o rato mais popular daquela região. Ele está sozinho, jogado num canto úmido e fétido do domínio subterrrâneo, enquanto seus amigos o procuram, sem fazer idéia de onde ele pode estar. Korova se sente estranho, meio zonzo e finalmente consegue se levantar, apoiando a cabeça numa das patas.

"Cacete, eu devo estar muito doido mesmo! Parece que tá tudo menor... AAAAAAai!" Korova se desequilibra e cai num monte de entulho. Sua queda parece ser maior e mais dolorosa do que seria normalmente. Ele sente como se seu corpo ocupasse mais espaço. Ainda deitado, ele dá uma olhada em seu próprio corpo e percebe que ele realmente está maior, muito maior do que costumava ser. No mesmo instante ele sente uma excitação, um calafrio, uma alegria. Ele não se contém e berra, segurando a genitália:

"Galera! Eu mudei! Olha só que Korovão gostoso tem aqui procês!"

Finalmente as outras pestes descobrem onde está o camundongo e vão na direção de sua voz. Quando chegam aos pés de Korova, todos eles congelam assustados. Por fim, uma barata consegue balbiciar: "O ratinho não é mais aquele, olha o tamanho dele...". Os outros bichos fazem cálculos aproximados e presumem que o rato agora tem 1,76 m de altura, com uns 80 quilos de massa muscular bruta.

Mesmo sabendo que, apesar do tamanho humano, Korova continua tendo alma de camundongo, alguns dos animaizinhos fogem, se escondendo entre blocos e pedaços de madeira. Apenas seu melhor amigo e confidente, Jackson, um carrapato albino, permaneceu a seus pés, admirado e curioso para saber o que tinha operado tal mudança tão radical.

- Sei lá, rapaz, eu tava lá, tentando faturar uma fêmea - nem me lembro de qual espécie! - e depois não sei de mais nada, só sei que acordei jogado aqui, e deste tamanho todo! Ó só pra isso! Que tamanho de piroca! Agora é que o bicho vai pegar mesmo!!! 
- É, mas tem um probleminha: com esse "instrumento", qual é a rata ou barata que vai quere cair em sua pilha? Só se estivesse dopada! 
- Pô, véi... vc melou meu baba! O diabo é que vc tá certo... Putamerda! Qual é a criatura que vai querer levar um fuque-fuque aqui? Pôxa...

Nesse instante, diante da frustração sexual de Korova, uma gargalhada coletiva ecoa no subsolo. Eles não tinham observado, mas todas as outras criaturas ouviam a conversa. Korova tinha virado uma assombrosa celebridade e todos estava ali para vê-lo, ouvi-lo. Era uma criatura que despertava a curiosidade de todos, mas pelo visto, apesar da diferente forma física, continuava sendo aquele rato escroto que há anos morava ali.

- Aê, alguém me arranje logo uma boa dose de fluido de freio, ou ácido de bateria, que esse papo todo tá me soando estressante pra caralho! E você -disse olhando para o gato frouxo que eventualmente aparecia por ali - você, seu filhote de merda, vai cair na minha rede, que vc é o maior bicho depois de mim e deve aguentar a...

O gato evidentemente assustado, arregalou os olhos e saiu correndo com um miado estridente, como se estivesse antevendo a miséria que aquele rato gigante poderia lhe fazer. Percebendo que tinha conseguido aterrorizar o animal, Korova soltou uma gargalhada alta e sádica, que contagiou a todas as outras pestes. Logo o subsolo inteiro eram pestes de pernas pro ar, se contorcendo. Parecia efeito de inseticida, mas ao contrário, era a pura alegria devastadora dos seres pequenos.

Era evidente que as coisas mudariam depois daquela estranha metamorfose. Korova não transaria mais como antigamente, mas não era só isso que ficaria diferente na sua rotina...

Um Corpo na Escada
Morte na Cidade
Korova e 'Otros' Bichos

 
Volta pra casa, vagabundo! Vô tentar mudar de canal! Arriba!

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