PsiKorovologia

 

 
Decididamente, a transição de Korova de camundongo a aberração bestial mutante foi algo que revirou bem os miolos do bichinho. Não é todo dia que uma criatura desmaia medindo menos de 15 cm de fraqueza, pra depois acordar com 1,80 m de brabeza incontrolável. A princípio, para qualquer ser humano, isso pode ser uma vantagem, afinal este tipo de animal tem mesmo uma desgraçada mania de grandeza, a necessidade de se sobrepor pela força física. Mas calcule o que é isso para um ratinho (não, não o apresentador...)!

Num dia, Korova se refestelava entre insetos e pequenas porcarias para comer. Tinha privilégio entre as baratas (eram noitadas bizarras!), conseguia catar e dar esporro nas pulgas mais gulosas, se divertia com pequenos objetos plásticos e metálicos do lixão, sofria emocionantes perseguições de gatos vira-latas, entre tantos outros entretenimentos que sua miudeza permitia.

No outro: PUF! Um gigante que espanta todo e qualquer inseto, exceto centenas de pulgas famintas que ele não faz idéia de como arrancar do corpo. Vira hospedeiro de outros tantos bichinhos infames, mas não encontra comida que sacie a si mesmo. Não arruma nem onde dormir direito, a poeira, as pedras, tudo incomoda seu corpanzil. E para se divertir, não sobra nada, até os boiolas dos gatos têm medo dele!

Korova, sempre escrotinho e de bom humor, logo se vê desolado pela sua condição. De repente ele foi extirpado de seu mundo e agora, só sabia que não seria aceito no mundo dos homens.

- Pô, véi... Tudo bem que eu tou malhadão, e tal... Mas o que é que eu vou conseguir assim? Meus amigos têm medo de mim, não caibo mais em minha casa, e nem sei mandar direito nesse monte de carne e pêlo que eu virei...
- Amigão... Eu continuo aqui! - dizia Jackson, o carrapato albino, dentro de sua orelha.
- É... mas só porque tá comendo, seu sanguessuga! - Korova enfia um dedo gigantesco na orelha e tira o carrapato para olhá-lo nos olhos.
- ... - Jackson fala e gesticula sobre o dedo de Korova, mas este não consegue ouvir nada, seus sentidos estão menos apurados.
- Cumé-Qui-é, véi? - coloca-o na orelha novamente - Fala daí de dentro mesmo peste! Viu só? Nem na cara do meu melhor amigo eu posso olhar...
- Não se preocupe, amigão. Eu vou sempre estar com você e sei que mesmo que você não esteja me vendo, estarei em seu pensamento...
- Mas é claro! Você aí dentro doz'uvido, falano baixinho desse jeito, parece até que é minhas idéia mermo...
- Esse é o Korova que eu conheço! Perde o amigo, mas não perde a piada! Rá-rá-rá! Você não perdeu tudo, amigo! Viu?
- U'a porra!

BLARHT!

Korova se levanta como um raio e quando se dá conta, sua mão atravessou o reboco de uma parede. Nos seus olhos, a dor se transforma em vasos vermelhos e irritados ao invés de lágrimas. Sua boca parece seca, mas uma espuma escorre entre seus dentes afiados. Jackson não vê a expressão horrenda do amigo, mas por conhecê-lo, faz idéia do que se passa e tenta pensar rápido num conselho, uma solução, uma idéia ou qualquer coisa para acalmar toda aquela raiva.

- Korova! Pense um instante! Veja o lado bom disso...
- E essa desgraça lá tem lado bom, diabo? - a voz do ex-rato é um estrondo
- Claro que tem rapaz! Aproveita toda essa sua força e direciona essa ira pruma boa causa! Tem tanta criatura má por aí que precisava desse soco mais que essa pobre parede! Korova escuta as palavras do amigo e nesse instante tem um insight. Sua cara se transforma inteira num sorriso, seus pensamentos parecem iluminados.

- Ma rapá! Num é mesmo?! Só você mesmo pra me dar uma idéia dessa... Korova em defensão dos frascos e comprimidos!
- Ô véi! O lance é defesa, e mesmo assim, dos fracos e oprimidos...
- Porraniuma! Os frascos de álcool e fluido de freio, e os comprimidos de ecstasy e ropinol!!!
- IUUUUURRÚÚÚÚÚO! É assim que se fala, peludão!!!

E mais uma vez a expressão de Korova se transforma. Velhos fantasmas subitamente vêm à tona e ele se lembra dos dias megalotransloucos ao lado de Janis, seu grande amor. A barata boêmia que morrera em seus braços, inchada feito um balão, depois de inadvertidamente beber um troço verde que, segundo ela, dava barato. Lembrou-se também de toda sua família - sua mãe, os 22 irmãos com 4 dias de nascidos e sua irmã gêmea - que encontrou de pernas duras para o ar, com uma expressão de terror nas faces, depois de comer os simpáticos biscoitinhos vermelhos aglomerados nos cantos do subsolo.

- Vou sair caçando os desgraçados, igual eles fazem conosco. - seu tom era incisivo.
- Ma... mas que desgraçados, Korova?
- Os despestizadores.
- Quem?!
- Os miseráveis assassinos da minha família, de Janis e de outros semelhantes.
- Ah... Dedetizadores e desratizadores... - então Jackson compreende melhor
- Cumé?
- Issaê.
- Mas, mas... eles são gente! Gente é grande, tem veneno, tem aquelas armas horrorosas que soltam aqueles gases mortais, e...e... eles são maus e... e... e...
- Mas olha meu tamanho! Minha força! Eu posso fazer isso... - Korova suspende um sofá velho e imundo esquecido no subsolo e o arremessa, estraçalhando-o na parede oposta - ... com eles!!!
- Só...

Os outros insetos e ratos do Palais du Bordeux assistem a toda a cena, bestificados com o poder de Korova e a coragem de Jackson de permanecer a seu lado. Ao mesmo tempo, viam no ex-rato o grande vingador da causa pestilenta. Assim, aos poucos, os animaizinhos foram se movimentando, se aproximando de Korova, perfilados e aplaudindo-o como a um soberano. Vendo aquilo, sem entretanto ouvir um só ruído que os bichos produziam, perguntou ao carrapato do que se tratava.

- Eles estão lhe apoiando, meu velho! Estão orgulhosos de você!
- É?!
- Possa crer!

Korova olha os bichinhos com ternura e mais uma vez tem saudade de sua pequenez. Então, num último brado, ele promete:

- Aê! Também vou ferrar o desgraçado que me esticou desse jeito, mas antes, vou fazer o infeliz me trazer de volta ao normal!!! - YÉÉÉÉÉÉÉÉÉ!!!! - os animais berram, entusiasmados, mas ele não ouve. - Korova... Só tem uma coisa: se quem te fez isso trouxer você de volta ao normal antes de você ferrar com ele, tenha certeza de que quem vai entrar bem é você... - Ih! É mesmo...

O que será do novo vingador do subterrâneo? Korova sempre foi um roedor de palavra, "Ajoelhou, tem que chupar!", dizia sempre às ratinhas e camundongas da região...

Korova e "Otros" Bichos
Morte na Cidade
Um Corpo na Escada

 
Volta pra casa, vagabundo! Vô tentar mudar de canal! Arriba!

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