| Um prédio simples, meio acabado.
Sua fachada não é uma vitrine da vida. Ali dentro há
pessoas e modos de viver que quem olha de fora não
imagina. Somente dentro de cada apartamento realidades são
despidas e homens e mulheres são o que são. Um prédio
vela diversos segredos, um transeunte não poderia
adivinhar. "É apenas um prédio...". Mas
dentro das gaiolas de concreto, tudo muda de figura. O Palais du Bordeux é uma construção mal-acabada e sucateada, que de pompa só guarda o nome. Ali dentro, alguns poucos moradores, sobreviventes do cotidiano, têm seu refúgio um tanto apodrecido. Cada um deles faz de seu cubículo um castelo e guarda seus tesouros ou máscaras. A Modelo Isadora Malone, ou melhor, Edicleide, é uma das moradoras. Jovem e bonita, infelizmente ainda não conseguiu construir uma vida digna, por isso se submete à escuridão e imundice que abriga pestes e cerca o edifício. Como qualquer ser humano, apesar de não merecer tal moradia, já se habituou a ela e assim leva para seu apartamento todos os sonhos, encantos e desencantos do dia-a-dia. No travesseiro estreito e encardido deixa lágrimas, sorrisos, lamúrias e muitos fios de cabelo negro. Edicleide sonha com uma vida luxuosa e, como não tem muitos atributos, aposta tudo na sua beleza física. É uma morena bonita e até mesmo agradável. Quer ser uma modelo famosa e por isso joga seu parco dinheiro em cosméticos e algumas roupas. Mas, como toda obsessão, isso também lhe traz problemas : está sofrendo com um excessivo crescimento de pêlos pelo corpo e queda de cabelos. É que a menina ouviu dizer que comprimidos anticoncepcionais dissolvidos no xampu aumentavam o crescimento dos cabelos, além de embelezá-los, mas o que ela não sabia é que isso também poderia fazer nascerem pêlos em locais nunca dantes empentelhados! Resultado: Edi acorda todo dia às 4 e meia para poder se depilar completamente e tomar banho, quando seus cabelos começam a jorrar de sua cabeça, enegrecendo o chão do box. São litros e mais litros de pêlos misturados com hormônios a escorrer pelo ralo. Ela não faz idéia do mal que está causando, só sabe que precisa esconder de todos esta sua potencialidade de "Monga, a mulher gorila". Ela chora todas as noites pelo infortúnio de sua barba, seu bigode, os cabelos na bunda e no peito... O Pernóstico No segundo andar funciona o laboratório de Sófocles, um cardio-ginecologista biogeneticista. Mas ninguém sabe disso, é claro. Em teoria, ele tem um escritório simples, mas na verdade, o apartamento é um centro de pesquisa avançada em genética, onde são realizadas experiências bizarras, que nenhuma autoridade permitiria que fossem realizadas em seu território. Aos olhos alheios, uma construção semi-destruída nunca poderia abrigar um laboratório super-equipado e asséptico, de um cientista rico e renomado. Por isso ele escolheu o Palais du Bordeux como receptáculo de seus planos. Sua relação com os moradores não era das melhores. Eram muito diferentes, para ele, inferiores. Assim, dava um jeito de destratar a todos nas poucas vezes em que se encontravam nos corredores. Edicleide, por exemplo, era a maior vítima, com sua beleza vulgar e simpatia extravagante. No fundo, talvez ele os invejasse, porque achava todos ali viviam de forma autêntica, enquanto ele se escondia na irregularidade. Misticismo com Dendê Iracema de Oxum é a baiana de acarajé que mora no terceiro andar, uma negra gorda e sorridente, filha de santo e cheia de crenças. Vive somente dos quitutes típicos que vende em algumas praias a quilômetros de distância de sua casa. Não deseja mal a ninguém, mas sua própria condição e necessidade levam-na a fazer coisas reconhecidamente erradas. Como nem sempre tem dinheiro para comprar a matéria-prima de sua produção, Iracema descobriu uma forma econômica, porém nociva, de garantir a produtividade: ela reaproveita o azeite de dendê, dela e de outras baianas. Assim, ela tem em casa galões e mais galões misturas de azeite velho e novo (na proporção de 1/2 litro de azeite novo para cada 4 do velho). Ela não faz por mal, mas diariamente dezenas de pessoas são brutalmente conduzidas a banheiros e hospitais, derrubadas por verdadeiras cataratas de fezes, alucinações e dores lacinantes. Sem poder evitar o mal, ela pede a sua mãe Oxum que proteja os coitados e todo Sábado faz um despacho numa encruzilhada perto da Lagoa do Abaeté, para garantir a sobrevida e volta dos fregueses. Ela acredita e garante que até hoje ninguém pereceu... O Mais Visitado No andar superior - um dito duplex, com um terraço que mal cabe a antena Parabólica e é habitat de pombos hostis e borboletas venenosas - mora o morador mais visitado do prédio. É um rapaz estranho, muito calado, que usa roupas de grife surfwear misturadas com outras mais finas. A despeito disso, é quem mais recebe visitantes, aparentemente amigos e em geral muito pobres. Como não incomodam ninguém, fica tudo em paz. Este é Demiurgo, mais conhecido como "O Demiro". Seus visitantes humildes não vão ali por amizade, muito pelo contrário. Demiurgo vende crack e sua casa faz também o papel de escritório- guardava quilos da droga em casa e ali mesmo tratava dos negócios. Muito profissional, ele lida com gente que odeia tolerando odores e humores que jamais pensou que fosse aguentar. Trabalha apenas com crack porque é uma droga pesada, que vicia e mata rapidamente e, além disso é barata. Assim, ele crê que ajuda a "limpar o mundo" de toda essa pobreza que o cerca e de onde ele tira seu sustento. Por isso é calado e distante. Seus únicos amigos são Tico e Teco, um par de revólveres de grosso calibre, e que servem de argumento conciliador em qualquer caso de "maus pagadores". É claro que tantos esqueletos
nos armários não podem ficar escondidos por tanto tempo.
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