Demiurgo Alves dos Santos

Filho de pai intelectual e mãe badogueira, Demiurgo nasceu pobre e tornou-se miserável (ou miseravão, como preferirem). Viveu toda sua infância e adolescência numa invasão (favela), ouvindo o pai, Jaime dos Santos, pregar a decência, a dignidade e a cidadania, enquanto a mãe, Clara, tornava-se famosa na favela do Morreau de lo Gatenebleu (ou morro do Gato, como preferirem) por sua disponibilidade para ceder favores de todos os tipos (inclusive os sexuais) para os chamados donos do morro- Véi Zuzu e Cara de parede, assim chamado devido à sua tez extremamente branca.

Sendo Jaime um homem estudioso e de boa índole, apesar de não ter berço, conseguiu entrar na faculdade de História e formar-se com honras. Contudo, o brilhantismo de sua mente rendeu-lhe apenas um salário indigno, como professor de uma escola pública. Mesmo assim, fazia questão de aplicar à sua vida e à sua família os valores nos quais acreditava.

Tanto era assim que, ao levantar, punha toda a sua família para cantar o Hino Nacional e o Hino da Independência, num ritual que só fazia crescer em Demiurgo o desprezo a todas as instituições que não fossem as do submundo.

Jaime casou-se com uma de suas alunas, uma mulher de extrema malícia, que transpirava luxúria, que 4 meses depois do casamento num cartório, tornar-se-ia a mãe do bebê esquálido, que seguindo o otimismo e a erudição do pai, veio a chamar-se Demiurgo.

O menino foi crescendo ao léu, entregue à vizinhança, pois enquanto o pai passava 3 turnos lecionando, a mãe trabalhava em apenas um, deixando o turno da tarde para a execução de tarefas as quais tornassem a vida mais fácil (ou sexo pago, como preferirem). Clara gostava de sexo, MUITO, não podia negar, mas também amava o marido e o filho. Mesmo que ninguém entendesse e todos a censurassem, seu fogo era destinado à vida de sua família.

Essa liberdade forçosa de Demiurgo fez com que aos 13 anos Demiurgo já tivesse contraído algumas doenças venéreas, de tanto "passar" as meninas e mulheres da favela. Além disso, adquiria o hábito de fumar até 3 carteiras de cigarro por dia, quando não estava tragando os baseados que arranjava. Se incomodava muito com o temperamento pacífico do pai, seus discursos, o amor cego e apático por Clara. Em um diário mal escrito pelo aprendiz de marginal, pode-se ver claramente esta irritação. Sua mãe, para ele, era a pior mulher do mundo, sempre com cheiro de outros homens impregnando o vestido. E, quando fazia seu sexo violento, oculto nas vielas da invasão, era nela que pensava. Ser chamado de Filho da Puta era algo que o ofendia profundamente.

Jaime morreu quando Demiurgo tinha 16 anos. Certa madrugada, um marginal cheio de anfetaminas entrou na favela de arma em punho, tentando invadir casas para se esconder da polícia. Chegando à porta do casebre da família, o marginal tentou invadi-lo. Vendo seu lar ameaçado, Jaime reagiu, tentando expulsar o elemento. "Meu pai era um otário. Isso sim, um tremendo dum idiota. Morreu com 5 bala cravada no peito pra defender uma mulé descarada e um pivete escroto!". Essa é a última memória que Demiurgo escreveu em seu diário sobre a família.

Na época da tragédia, o rapaz já trabalhava como "aviãozinho" e passava a ser conhecido como "Demiro", porque nenhum dos traficantes ou fregueses, do alto de sua ignorância, conseguia pronunciar seu nome corretamente. Cara de Parede gostava do pequenino marginal como um filho. Pode, enfim, ensinar a alguém as "paradas" do morro, do tiro ("só mira na cabeça", ensinava o paternal traficante"). Assim, foi conhecendo as manhas do tráfico de todo tipo de droga, ao mesmo tempo em que ganhava consciência perfeita do ódio que tinha do povo negro e mestiço que o cercava.

Negociando crack, acabou conhecendo um bando skin head, com o qual se identificou muito e formou a banda "Sem Preto Só Preconceito". Eles tocavam hardcore com letras nazistas, faziam arruaças onde se apresentavam e escapavam por pouco de serem detidos. Desiludido com o futuro e os perigos que a carreira musical lhe reservavam, "Demiro" resolveu se envolver completamente com o negócio das drogas.

Juntando o dinheiro das vendas e passando algumas necessidades, "Demiro" conseguiu comprar um apartamento fora da favela, e sair daquele antro que ele odiava. Nunca mais precisaria ver ninguém que lhe recordasse a desgraça de sua família. Seu "lar doce lar" agora se estabelecia no Palais du Bordeaux.

Volta pra casa, vagabundo! Vai pra dentro do Palais du Bordeaux

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