QUARTO PODER

O título de quarto poder concedido à imprensa alude à sua capacidade de construir e, principalmente, destruir imagens. Representada pelos veículos de massa, a imprensa tem um poder de ação e convencimento grandioso, em particular em países em desenvolvimento, como o Brasil, em que o índice de analfabetismo é extremamente alto e a capacidade crítica das pessoas é mínima. Para muita gente tudo o que diz o jornal ou a TV é verdadeiro. Esse grande poder concentrado nas mãos dos jornalistas tem sido usado tanto pela "imprensa marrom" quanto pelo jornalismo dito "sério" para aumentar os pontos no IBOPE ou a vendagem nas bancas. Apesar de ser constituída por empresas capitalistas, que objetivam o lucro, a imprensa não tem o direito de manipular ou infamar irresponsavelmente a vida daqueles à quem deveria servir.


IMPRENSA AMARELA

Nos EUA a imprensa sensacionalista, de escândalo é chamada de imprensa amarela. No Brasil recebeu o nome de imprensa marrom. Tudo começou na terra do Tio Sam , quando Joseph Pulitzer (1847-1911) e William Randolph Hearst (1863-1951) disputavam o mercado com os seus respectivos jornais New York World e New York Journal. A guerra entre os dois era tão acirrada ao ponto de contratarem gângsteres para explodir os caminhões de distribuição do rival.
Em 1890 foram inventadas as máquinas de 4 cores tornando os desenhos e cartoons de humor populares. E Hearst passou a superar o concorrente nesse campo, com presença forte da sátira política. Em 1894 um novo personagem entra na história, o desenhista Richard Felton Outcault que teve o seu trabalho publicado pelo World de Pulitzer. No ano seguinte é contratado pelo jornal e conquista o público com o desenho de um garoto que "falava" não na forma de balões como os quadrinhos convencionais, mas em textos colocados em sua camisola larga e comprida. Antes, em preto e branco. Depois, a camisola mudava de cor - do marrom claro ao azul, tons desbotados, pouco definidos.
Coube ao responsábel pelo controle das cores na máquina impressora do World, Charles Saalberg, descontente com o que estava sendo feito, tentar uma cor amarela bem viva na camisola do menino. Foi um sucesso! O personagem Mickey Dugan virou o "yellow kid" (garoto amarelo), a grande bandeira do jornal de Pulitzer. Passou a simbolizar ainda os extremos a que chegavam Pulitzer e Hearst na guerra da circulação. E a cor tornou-se emblemática do jornalismo que os dois praticavam na obsessão de vender jornal e fazer dinheiro, inclusive pela ferocidade com que brigaram pelo desenho. O garoto virou até personagem de show da Broadway.


IMPRENSA MARROM

A tradução do amarelo, nos EUA, para o marrom, no Brasil, é uma história engraçada. A mutação cromática deu-se no Diário da Noite do Rio, então sob a liderança de Alberto Dines. Ao receber informações na redação de que um jovem cineasta cometeu suicídio por estar sendo chantageado por uma daquelas revistas de escândalo (que viviam de extorquir dinheiro de pessoas fotografadas em bailes de Carnaval e outros lugares), Dines resolveu colocar o fato como manchete. Então, escreveu algo como "'imprensa amarela leva cineasta ao suicídio". Entrou na sala em que era desenhada a primeira página, quando o chefe de reportagem, Calazans Fernandes, protestou: "Na minha terra amarelo é cor bonita. Põe marrom, é cor de merda" O argumento era até mais convincente do que aquela que dera origem à expressão original norte-americana - em última instância, devida ao homem que controlava a tinta nas máquinas de Pulitzer. "Foi uma das decisões mais rápidas que já tomei", explica Dines. "Tirei amarelo e coloquei marrom - com a vantagem de ter uma letra a menos. E o assunto virou cruzada. Fui ameaçado de morte, tive de andar com guarda-costas durante algumas semanas. Mas fechamos as revistas (sensacionalistas), com a ajuda decisiva de Carlos Lacerda, governador da Guanabara. Ele gostava muito do nosso tablóide e conhecia a história da 'yelow press' americana".


VÍTIMAS DO 4º PODER

A Escola Base
Na noite de 4/3/94, o Jornal Nacional abriu uma reportagem em que pais de alunos da Escola Base, situada no bairro da Aclimação, em São Paulo, acusavam diretores e professores de abusar sexualmente das crianças. Toda a imprensa nacional alardeou a notícia. Em apenas dez dias de investigações, o delegado Edélcio Lemos, responsável pelo caso, concluiu que os acusados eram culpados por violento atentado ao pudor e formação de quadrilha, sem nenhuma prova concreta. O casal proprietário do estabelecimento chegou a ser preso. Outros dois casais envolvidos passaram a ter sérios problemas psicológicos e financeiros. Até mesmo um americano naturalista, que não tinha nada a ver com a história (a não ser o fato de residir próximo à escola) foi preso. Em pouco tempo a verdade veio à tona. Já era tarde, a difamação promovida pela imprensa deixara marcas irreversíveis.

Anestesista - Cláudia Liz
Em 1996, a modelo e atriz Cláudia Liz internou-se numa clínica para fazer uma lipoaspiração. A cirurgia não se concretizou devido a complicações anestésicas. O atendimento de emergência durou um minuto e 30 segundos. O fato, seguido da transferência da atriz para um grande e renomado hospital, complicou a vida da médica anestesista, a cirurgiã plástica Ana Helena Patrus de Souza, sócia da Clínica Santé, onde Cláudia Liz se internou. Sem checar se realmente se tratava de imperícia, a imprensa passou a assediar a médica, cuja carreira ficou prejudicada. Teve de se desfazer da sociedade e amargou sucessivos fracassos profissionais, morais e financeiros. Perdeu clientes e passou por situações vexaminosas, que atingiram também sua filha. A menina estressou-se tanto, a ponto de fazer xixi na roupa quando chegava à escola, onde era tratada pelos colegas como '... a filha da mulher que quase matou a atriz...'. No Conselho Regional de Medicina a conduta adotada pela médica foi considerada adequada.

Lady Di: "Leave me alone"
A princesa Diana é a mais famosa vítima da imprensa sensacionalista. A mídia usava e abusava da sua imagem para vender. Desde o seu casamento de cinderela até a sua trágica morte quando os abutres paparazzi atormentavam-na enquanto balbuciava: "Leave me alone" (Deixem-me sozinha)