Faculdade de Comunicação - UFBA
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Adolescência...Bicho papão?

O adolescente é uma criatura que já é grande o bastante para fazer várias coisas ( a maioria chatas), mas... não tem idade o bastante para fazer outras muiiiiito mais interessantes. Cresceu mas ... não amadureceu, pode, mas não deve.Por que afinal esta travessia da infância para a idade adulta é tão incompreendida?

O adolescente não é nem criança, nem adulto; é um tipo humano mutante capaz de mudanças camaleônicas na aparência, extremamente adaptável ao novo e naturalmente resistente ao que já foi estabelecido. O adolescente pode parecer à primeira vista estranho e até hostil, mas repare direitinho, ele pode estar apenas fazendo gênero.
O que acontece no corpo destas animadas criaturas é compreensível e bastante visível. Agora entender o que se passa na cabeça do dito cujo, é outra papa. Acontece que a desenvolvimento psicológico na adolescência compreende transformações intensas e radicais. O comportamento muda, as atitudes são surpreendentes e os relacionamentos interpessoais se ampliam - E como se ampliam!

O humor flutua da alegria intensa ao desespero absoluto em fração de segundos. O animo então vai do fuzuê à deprê num piscar de olhos. O cara está se redescobrindo e se experimentando, buscando definir a si mesmo. - O que cá pra nos não é fácil, mas é bastante interessante. A auto-imagem quase sempre é depreciativa, ninguém está satisfeito. Nas meninas, a queixa é que o cabelo ou é muito liso ou então muito cacheado; no capítulo seios, não é bom nem falar: ou são muito grandes ou então muito pequenos. No caso dos rapazes a coisa se agrava, não se chega ao consenso: afinal qual é mesmo o tamanho normal do pênis? Êta sofrimento, oh! dúvida cruel...

Estes questionamentos e outros igualmente torturantes, são provocados por uma flutuação da auto-estima. Afinal perdem-se os privilégios da infância, antes de se alcançar as prerrogativas da idade adulta, e a pobre do adolescente passa a ouvir o tempo todo frases "preciosas" como:
-"Já é grande demais para agir assim( ou assado)", ou ainda -" você ainda não tem idade o bastante para fazer isto (ou aquilo)," ou então a pior de todas :-" Fulaninho só tem tamanho..."
Assim, além de perder a identidade infantil e ter que conviver se adaptando às mudanças corporais ( é um tal de nascer cabelo em lugares impensados, perder roupas, nascer espinhas, oh horror), o injustiçado do adolescente ainda tem que ouvir cada barbaridade ... As criticas se multiplicam, as queixas dos pais e da escola se acentuam, as exigências aumentam, as responsabilidades idem. Se for dura e continuamente criticado o adolescente pode se sentir pouco amado e até rejeitado, e de rejeitado a revoltado é um pulo.

Com a intensificação do processo de intelectualização e do pensamento abstrato, acontecem os questionamentos dos valores familiares e da comunidade. É comum acontecer uma crise religiosa ou de valores, afinal novas influências e tendências se apresentam na cabeça da criatura. O perigo neste momento é o famoso pensamento "mágico" (fantasias de poder absoluto). Se o adolescente viaja no seu desejo, principalmente o de reconhecimento social, pode pintar uma propensão a atuações sociais ( inclusive transgressões), desencadeando dificuldades e problemas, que podem ir do abuso de drogas, à gravidez prematura, à contaminação com DSTS, chegando até à privação da liberdade.

A adolescência afinal não é só um período de desenvolvimento físico e psicológico, é também uma fase de absorção dos valores socioculturais da comunidade, e de elaboração de projetos pessoais que impliquem, em plena interação social e afetiva. Quando o bebe rechonchudo se transforma naquele menino magrelo, de jeitos estranhamente familiares, os pais se inquietam entre a rejeição e o reconhecimento: o adolescente nos espelha, mostrando a importância de rever valores e paradígmas, de exercitar a tolerância, de insistir no dialogo e no respeito mútuo e acima de tudo investir no recurso do amor.

Por que afinal, na adolescência acentuam-se as caraterísticas de cada pessoa, definindo-se os contornos de personalidade. Fase de grandes descobertas, e também de algumas decepções, é quando se sabe com certeza que se vai morrer um dia, que os pais não são perfeitos, que se precisa mesmo aprender a se "virar" sozinho, e se descobre que no fundo, todo mundo, todo mundo mesmo, tem um pouco de medo de crescer.

Tânia Costa Duplatt, Psicóloga, Psicanalista, Consultora e Pesquisadora em adolescência e Desenvolvimento Humano, e Coordenadora do Programa "Oficinas Culturais sobre a Adolescência, realizado desde 1997 nas Bibliotecas Públicas de Salvador.


Texto integrante do Projeto Saúde Emocional para a Adolescência
Publicado no Jornal "TEMA LIVRE", Do Instituto Anísio Teixeira

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