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As superstições resultam essencialmente do vestígio de cultos
desaparecidos ou da deturpação ou acomodação psicológica de
elementos religiosos contemporâneos, condicionados à mentalidade
popular. Participam da própria essência intelectual humana e não há
momento na história do mundo sem sua inevitável presença. É sempre
de caráter defensivo, respeitada para evitar mal maior ou distanciar
sua efetivação. Essa legítima defesa estende-se às zonas mais
íntimas do raciocínio humano e age independente de sua ação e rumo (
Luis da Camara Cascudo- Dicionário do Folclore Brasileiro- Ediouro).
Várias teorias procuram explicar o fenômeno
da superstição e magia dentro da sociologia e etnologia, psicanálise
e psicologia. As contribuições da etnologia e sociologia geram em
torno de estudos sobre a superstição como uma forma de fuga diante de
estados de incerteza.. Seria uma resposta cultural a uma necessidade de
certeza.. Dentre várias teorias sociológicas e etnológica, esta é a
que mais se aproxima das explicações lógicas da superstição devido
as abordagens a respeito de noções de certeza e de previsibilidade que
definem conceitos psicossocial da questão. A principal contribuição
destas duas ciências não diz respeito diretamente a superstição. A
sua abordagem contribui para o entendimento de qualquer realidade no
momento em que se procura investigar e insistir na tridimensionalidade
dos fatos sociais e na sua subordinação do estado psicológico ou
sociológico.
As teorias psicanaliticas partilham a idéia de
que na origem da superstição e também na da magia, se encontram não
leis lógicas, mas desejos e imagens "sentimentais". As
teorias de Freud e de seus discípulos, bem como a de Jung, põem em
destaque a importância do componente emocional. Para eles, as práticas
e crenças supersticiosas estão profundamente enraizadas no
inconsciente. Elas fazem parte do "equipamento" mental de cada
um e são suscetíveis de subir à superfície quando certas condições
são satisfeitas. Freud acreditava que a superstição é uma
manifestação de neurose obsessiva. As explicações de Freud não
deixa evidente como os ritos prescritos socialmente ( crenças
primitivas ) são transmitidas tradicionalmente. As ligações entre
superstição, doença mental e magia primitiva não esclarece a chamada
Simbologia Universal proposta pelo psicanalista para explicá-las.
As teorias psicológicas da superstição tem
em comum a idéia de que sua análise se estabelece sobre um nível
puramente individual e que ela deve ser assimilada a fenômenos postos
em evidência em variados lugares, seja no domínio de percepção da
memória, no estudo do desenvolvimento do pensamento na criança ou por
fim no da aprendizagem animal. Estas abordagens desconsideram o contexto
social de cada fator, o que comprova seu interesse pelas diferenças
interindividuais em sobreposição ao estudo do fenômeno da
superstição.
Por nível de análise entendemos como convém
situar as diversas explicações: em um nível exclusivamente centrado
no indivíduo isolado de seu contexto social ou, em oposição, em
nível exclusivamente centrado na sociedade? As abordagens vistas
enveredam por vários caminhos: as puramente sociais (a magia é um fato
social segundo Mauss – sociólogo e etnólogo), as puramente
individuais(para Freud a superstição é um sintoma neurótico e a
neurose não ultrapassou o estágio do narcisismo) e ainda as abordagens
"mistas" que apelam quer a noções sociais para a
explicação de fenômenos individuais, quer a noções individuais para
a explicação dos fenômenos sociais (Malinowski, um teórico da
sociologia, diz que a magia e a superstição constituem fatos sociais,
mas que esses fatos tem por função satisfazer as necessidades
individuais).
As diferentes teorias que procuram explicar a
superstição se assemelham em um aspecto: a referência à noção de
estado afetivo presente em todo processo de crendice. Assim para Lehmann
e para Mauss, existem na própria raiz da magia e/ou da superstição
estados afetivos geradores de ilusões, estados individuais, segundo o
primeiro, ou condicionados pela sociedade, de acordo com o segundo. As
práticas mágicas e supersticiosas teriam por função, segundo
Malinowski, por fim a um estado de ansiedade proveniente da incerteza
diante da qual se encontra o homem. Para certos teóricos, certos outros
ritos compulsórios fortemente carregados simbolicamente poriam fim a um
estado de ansiedade criado pelo medo do desafio e do sucesso. Por fim,
uma tensão afetiva pode explicar que o adulto volte a um estágio do
pensamento já ultrapassado há muito tempo.
Assim,
depreende-se destas teorias a idéia de que certos estados de ansiedade
estão na própria raiz das crenças mágicas ou supersticiosas e que o
recurso a certas práticas permite reduzir a tensão resultante do mundo
exterior aludido por poderes mágicos e mirabolantes. |