O NOSSO MAIOR ARTISTA

Até hoje, a história da arte se dividia em antes e depois de Da Vinci. Agora temos um novo marco na historiografia da arte mundial: Renée de Vermont.

Não haverá ser humano perdoado pelos céus se não comparecer até o próximo dia 7 ao Musée National d'Art Moderne ( Centre National d'Art et Culture Georges-Pompidou) e ter a honra - uma graça divina, de fato - de presenciar a exposição "Eu em meus quantos", que reúne 27 peças do mais nobre, inteligente e talentoso artista de todos os tempos.

Suas telas são o maior retrato já visto do que um homem pode construir de belo num mundo tão anti-artístico. Retratam o homem em todas suas feições, todo gênero humano refletido num só rosto - o do próprio artista, obviamente. 27 obras corajosamente auto-biográficas, sinal de quem não tem medo de se expor aos olhos dos outros, o que mostra toda a grandiosidade do artista.

As pinceladas são fortes, personalizadas, traçadas sob rigorosa técnica, esculpida anos a fio por horas de estudo, pesquisa e concentração. São, ao mesmo tempo, detalhistas e engrandecedoras, formais e revolucionárias, sutis e avassaladoras. São de tal forma grandiosas que só um gênio, não um mero mortal que tanto nos orgulhamos de ser, poderia ter concebido.

E quando conhecemos pessoalmente o artista admirável é que compreendemos de onde provém tão fecunda criatividade. Renée é inteligentíssimo, já viajou por todo o mundo e fala vários idiomas. Não seria o nosso artista um exemplar primário do homo sapiens sapiens ? Não bastasse tudo isso, possui a sapiência inerente a todo grande artista (pergunto-me agora se realmente os outros a possuem) de explicar o mundo através de seus quadros. Além de ser, é claro, um belíssimo homem, de cor morena (traçada pelo sol de julho), olhos amendoados de um verde celestial, cabelos negros, quase ondulados e uma estatura invejável de porte apolíneo (como crítico de arte, atrevo-me a relatar tais detalhes por achar mais que importante que meus leitores visualizem bem a figura, caso se deparem com ele - graça maior não poderia ser concedida aos amantes da arte - pela enamorada Place San Martin, pela avenida Champs Elyssée ou mesmo em qualquer café de nossa florida cidade).

Meus adoráveis leitores, finalmente temos um artista de verdade, um gentleman, um gênio excepcional que quer nos mostrar os verdadeiros caminhos de uma arte visceral, existencial, sublime. Resta-nos agora decidir qual prêmio enviar a Deus por tão magnífico presente à humanidade.

Le Monde, 6 de setembro de 1962. Paris, França.