Na passarela

Frederico Faizão estreou nas passarelas em 75, como estilista contratado da casa Versacce. O exímio talento deste costureiro foi identificado cedo, quando ainda era um estudante de moda na Universidade de Coimbra.

Seus vestidos, feitos sob encomenda para as festas da alta sociedade portuguesa, alcançavam preços na faixa dos dez mil doláres. Fruto do mercado ou artista verdadeiro?

De fato, suas coleções, (ele possui sua própria grife agora, FAIZON ) alcançam bons preços no mercado e são comercializadas nas butiques da Rodeo Drive, em Hollywood. Sua morte repentina num acidente de carro, quando viajava de Montercalo para Açores, sua cidade natal, foi uma grande comoção no mundo da moda, comparável apenas ao assassinato de Gianni Versacce.

Em homenagem ao seu cinqüentenário aniversário, publicamos aqui trechos do seu diário.

Sexta- feira, 12 de julho
Hoje estava chovendo, por isso não passei gel no cabelo. A Giulietta esteve aqui me procurando. Estou cansado dela, mulherzinha mais sem graça, e além de tudo se veste mal pra caramba! Me cansa a beleza.

Segunda-feira, 15 de julho Comprei o tal do gel granulado. Achei razoável, não é essa coisa toda que andam falando por aí. A Trícia me ligou, pedindo para sair com ela na semana que vem. Vou pensar. É preciso botar cu doce, ser rebelde, sei que sou gostoso mesmo, pra quê me preocupar com bobagem? Mulher é igual a biscoito, vai uma e vem 73 [ pode até não rimar, mas que o nosso conquistador tem um currículo invejável, isso não dá pra negar].

Sábado, 27 de julho Meu gel acabou, tenho que comprar mais no Mercadinho do Seu João. Amanhã tenho que fazer umas compras, estou ficando sem roupa. Lembrar: novo disco do Depeche Mode (deve estar um arraso!!). Hoje completa um ano que entrei na academia. Nem parece que eu era aquele menino magro, quase raquítico de um ano atrás. Quanto sacrifício! 10 gemas de ovo batidas no liqüidificador com leite desnatado pela manhã, mingau de aveia Quaquer às 10, muita carne e massa no almoço... e malhação, malhação, malhação... acho que vou fazer um livro sobre isso algum dia [ o referido livro fôra publicado 7 anos depois com o intrigante título "A primeira gemada a gente nunca esquece", com a impressionante continuação "A lição da maromba"].

Quinta-feira, 01 de agosto Misturei o gel ao condicionador para ver o resultado. Passei o dia todo sem sair de casa. Não podia me expor daquele jeito, o cabelo todo empinado, parecia crina de cavalo a galope, tava uma miséria! Aproveitei o dia para experimentar as roupas que comprei ontem no Arnold SiIva Place. A camisa de linha vermelha ficou perfeita com a calça da Levi's. O blusão de couro por cima me deixou mais forte do que já sou, fiquei lindo. Vez em quando, fico pensando como meu pai e minha mãe, os dois tão feinhos coitados, conseguiram fazer uma coisa tão fofa quanto eu, tão incrivelmente lindo [há sérias pesquisas na área da genética que busca desvendar porquê acontece esses fenômenos. Segundo Gregório Mendeli Filho, a causa pode ser de ordem genealógica, decorrente da "estirpe" genética de cada um. Para outros, a causa é de ordem zoológica ( corno, mesmo)].

Sábado, 03 de agosto Bíceps: 45. Peito: 82. Coxa: 56 [ calma, persistente leitor, isso não é tabela de preços de frigorífero, só estamos conhecendo mais a fundo o projeto melhorado dos deuses de Atenas]. Fiz essas medidas hoje e me admirei quando percebi o quanto emagreci. Está certo que ainda continuo muito gostoso ( sem falsa modéstia, já que ninguém vai ler isso mesmo), mas preciso melhorar, como se diz... alcançar metas. A Juliana me ligou, disse para ligar pra ela. Ela é gostosona, mas tem um mau hálito horrível, ô mulher desajeitada. Preciso comprar um pente novo. O Gel esteve aqui, cara legal ele [ humm...].

Domingo, 04 de agosto O dia foi muito chato. Estou na maior deprê. Nasceu uma espinha enorme na minha testa. Única felicidade do dia: já saiu no mercado o gel spray com película protetora para a água[ está vendo? há solução pra tudo nesse mundo].

Esse fragmento incompleto do diário de Frederico Faizão foi encontrado de forma inusitada. Após anos perdidos num caixote velho na antiga mansão da família Faizão ( você não esperava que algum latino pobre fosse se dar ao luxo de se achar gostoso, não é?), fôra recuperado por uma linda menininha de 9 anos. Pensando ter achado algo sem valor (?), jogara-o fora, num aterro sanitário. Mais tarde, por obra do acaso ou das brincadeiras insípidas que o destino nos prega, o próprio proprietário encontrara o documento, jogado às traças, numa estante velha do Centro de Recuperação do Lixo ( eles tinham um lema muito bonito: o lixo velho é o luxo novo). "Eu fôra dar uma palestra sobre 'Como reciclar espelhos velhos' e, sem querer, acabei achando meu melhor espelho", dissera certa vez a uma rádio o então presidente do Conselho Nacional de alta costura, Sr. Frederico Faizão.