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Wes Anderson: nos detalhes, uma abundância de idéias

(Por Rick Lyman, do "The New York Times")


LOS ANGELES - "Por que eu escolhi este filme?", perguntou Wes Anderson a si mesmo, encostado na parede do salão de vidro de um prédio comercial no terreno da Paramount Pictures, com um retrato em preto e branco de Dorothy Lamour sobre seu ombro.

"Uma coisa é, sou um grande fã de François Truffaut e este é o filme mais despretensioso que eu poderia imaginar", declarou Anderson, 32.


Ele está se referindo a "L'Argent de Poche" - ou "Small Change", que foi lançado nos Estados Unidos em 1976 (alguns outros países de língua inglesa usaram o nome "Pocket Money") - uma comédia curta, gentil e improvisada sobre crianças em uma pequena cidade francesa. O filme em estilo de documentário reúne peças, é cheio de vida e chegou em meio a um dos períodos mais férteis da carreira de Truffaut.

"Quase parece o tipo de filme que seria exibido em um projetor de 16 mm na biblioteca de uma escola, ou algo do tipo", disse Anderson. "E também há algo relacionado ao fato de que eu tenho a idade exata de muitas das crianças no filme. Mesmo que ele se passe na França e eu tenha crescido em Houston, é o meu exato período de infância."


Em menos tempo que levou para um diretor como, por exemplo, Stanley Kubrick para fazer apenas um filme, Anderson invadiu a movimentada comunidade cinematográfica do Texas com o favorito cult "Pura Adrenalina" ("Bottle Rocket"), primeiro um curta-metragem em 1994 e então um filme em 1996. Ele seguiu com uma segunda comédia em Houston, o celebrado "Três é Demais" ("Rushmore", 1998), e então reuniu um dos melhores elencos em um recente filme norte-americano - Gene Hackman, Anjelica Huston, Ben Stiller, Gwyneth Paltrow, Danny Glover etc - para fazer seu filme mais recente, "Os Excêntricos Tenenbaums" ("The Royal Tenenbaums"). Ao longo dessa trajetória ele também ajudou a transformar dois de seus amigos mais próximos, os irmãos Luke e Owen Wilson, em astros de cinema.

Mais um queridinho da crítica do que uma grande força, Anderson tem uma estratégia visual e um estilo de conto - uma combinação distinta e, para os seus fãs, divertida combinação do estranho e do formal - que recebeu muita atenção da crítica, embora tenha frustrado aqueles que tentam rebaixar Anderson. Uma pista, ao que parece, está em um filme tão pouco atraente e não-premeditado como "Small Change", com seus momentos curtos e detalhadamente observados do dia-a-dia.

"As pessoas falam como os primeiros filmes da Nouvelle Vague francesa eram livres, e câmera era tão livre e tudo o mais, especialmente em comparação aos filmes que vieram antes", disse Anderson. "Mas não desse jeito. Em 'Small Change', a câmera é ainda mais livre. Acho que Truffaut se concentra em não se obcecar por nada que envolva luz, ou algo do tipo. Todo o filme tinha um estilo de documentário. Isso faz você perceber o quão meticuloso alguns desses filmes da Nouvelle Vague eram."


Anderson diz que tende a ser irregular, submergindo na obra de diretores. Ele verá um filme de um diretor particular, e isso o levará a tentar ver o máximo e o mais rápido possível outros trabalhos desse mesmo cineasta. E, às vezes, ele descobre que a sensibilidade de um diretor o desconcerta em um ponto de sua vida, e então, inesperadamente, invade algum outro momento anos depois.

"Você tem de estar pronto para eles", disse ele. "Essa foi a experiência que eu tive, por exemplo, com Luis Buñuel. Os primeiros filmes de Buñuel que eu assisti eram alguns dos mais recentes - você sabe, 'O Discreto Charme da Burguesia' e 'Esse Obscuro Objeto do Desejo'. Eu os assisti pela primeira vez quando estava na faculdade e não consegui entender tudo. Simplesmente não conseguia responder a eles. E então, três anos depois, eu vi um de seus primeiros filmes - acho que era Jeanne Moreau em 'Diary of a Chambermaid' - e de repente em entendi seu senso de humor. Então eu voltei e comecei a assistir todos os seus filmes, e finalmente cheguei àqueles com os quais eu comecei, exceto que dessa vez eu os amei. Eu os entendi, percebe. Eu estava pronto para eles."


Em retrospecto com a fria objetividade, é aparente que "Small Change" é, de muitas maneiras, um empenho menor de Truffaut, especialmente comparado a grandes obras como "The 400 Blows". Vê-lo quando Anderson viu - como um aluno da Universidade do Texas, quando sua sensibilidade de cineasta estava começando a florescer - era parte do que fez do filme algo tão importante para ele.

"Acho que vi pela primeira vez em vídeo", disse. "Ele me surpreendeu pela primeira vez, sabe? Ele é muito sonhador, doce e triste. O primeiro filme de Truffaut que eu assisti foi 'The 400 Blows', e ele teve um grande impacto sobre mim. Mas também há alguma coisa nele. E quando você faz algo assim - escolher um filme e o assistir por causa de um artigo - você quer escolher algo que possa seguir, de alguma maneira. E você também está escolhendo um tipo de marca para você. Ou, ele é o cara que escolheu 'Shane' para assistir, ou ele é o que assistiu um filme do Roy Rogers. Eu estava um pouco nervoso por escolher um filme francês, porque isso pode fazer você parecer um pouco, bem, você sabe. Isso pode não convencer algumas pessoas."


DE CORAÇÃO

Anderson caminhou pelo canto e entrou em uma sala de projeção no andar térreo que tinha sido separada. Ele se sentou no fundo da sala, em uma das cadeiras grandes e estofadas, olhando exatamente para o meio da tela.

O filme começa, com apropriada simplicidade, na cena de uma garota parada diante de uma loja onde somos informados que é a vila de Bruere-Allichamps. O nome da loja, de acordo com a placa sobre sua porta, é Centro da França, e a garota entra para comprar um cartão-postal, e então corre para uma ilha no meio da rua principal para escrever. O alto monumento atrás dela, que também aparece no cartão-postal, marca o centro geográfico exato da nação. E é dessa maneira, discreta mas com o óbvio simbolismo, que Truffaut nos alerta que esse assunto não será nada menos que o coração da França refletido em suas crianças.

Quando o cartão-postal cai em uma caixa do correio, a cena muda para outra vila: a cidade natal da menina, Puy-de-Dome, onde acontecerá a ação principal. Crianças felizes gritam e correm pelas ruas em seu caminho para a escola enquanto os créditos aparecem.

A música feliz e vivaz de Maurice Jaubert toca durante os créditos, sem sufocar os sons do entusiasmo infantil. As escolhas musicais idiossincráticas do próprio Anderson foram observadas pelos críticos, então não é uma surpresa que ele tenha feito um estudo das composições de Truffaut.

"Eu sempre pensei que Truffaut tinha esses dois, Georges Delerue e Jaubert, como seus compositores principais, e tentei colocar as mãos em cópias de todas as suas trilhas sonoras", contou Anderson. "Foi só então que realmente olhei para elas e percebi que a música que ele estava usando de Jaubert era reciclada de filmes dos anos 20 e 30. Tentei reunir esse material. Eu amei tanto essas partituras nos filmes de Truffaut que pensei que talvez houvesse outras peças de Jaubert que Truffaut não tinha usado. Mas estou descobrindo que é muito difícil colocar as mãos nelas."


CRIANÇAS PELAS RUAS

"As crianças em vilas francesas realmente correm para a escola em grupos?", perguntou Anderson. "Eu não sei, mas parece natural, não parece? Há algo nessas camisas e tênis que as crianças estão usando. É tudo do mesmo tipo de material que estávamos vestindo na mesma época, em meados dos anos 70. Embora nossas ruas no Texas não fossem parecidas, obviamente, a maneira que elas estão vestidas realmente me faz lembrar da maneira que eu e meus irmãos nos vestíamos. E eu gosto muito que elas estejam correndo para a escola, sabe? Eu gosto dessa sensação. Isso poderia se tornar uma pequena preciosidade, mas não se torna, não é?"


Um por um, nas primeiras cenas na escola, os personagens são apresentados: dois professores frustrados no amor, um novo aluno de uma família abusiva, o palhaço de uma classe, uma menina precoce, entre outros. "Oh, esses são os irmãos Deluca", disse Anderson. "Eles são legais. Adoro eles nesse filme. Eles sempre estão tramando alguma coisa."

NADA PARECE METICULOSO

A câmera desliza dentro e fora de grupos de pessoas, focalizando uma criança e depois outra, cortando para uma sala de aula diferente, contemplando diferentes conversas e olhares roubados. Nada no filme parece ser meticuloso. A câmera filma de onde estiver.

"É isso o que é tão grandioso neste filme", afirmou Anderson. "Há todas essas tramas, todas essas pessoas e histórias, mas há também uma grande liberdade, embora possamos nos juntar a qualquer personagem em qualquer momento. Há alguns personagens que têm apenas uma cena e um momento, e então alguns que continuam por todo o filme e têm suas próprias histórias. Mas quando eles são apresentados, todos são apresentados da mesma maneira, você nunca tem certeza de quem vai ser importante e quem terá uma única aparição. É muito raro apresentar personagens dessa maneira, não fica parecendo um truque da maneira que Truffaut faz. Parece muito natural."


Julien, o novo estudante de uma casa abusiva, é mostrado no pátio da escola, com seu cabelo bagunçado escondendo seu rosto. "Agora, essa é uma das histórias que vamos seguir, mas ele é apresentado da mesma maneira que todos os outros", disse Anderson. "Sua história é provavelmente a mais obscura em todo o filme, mas nunca é realmente pesada. Nada é. Todo o filme tem uma verdadeira luminosidade quanto a isso."

Um filme de Truffaut mostrando uma criança inevitavelmente exige uma comparação com "The 400 Blows" (1959) e seus outros filmes autobiográficos, no qual o jovem diretor transformou sua juventude difícil em arte. O que intriga Anderson não é apenas a diferença com que Truffaut tratou o trauma da infância em "The 400 Blows" e "Small Change", mas como todo o tom e sensibilidade mudaram nas décadas intermediárias para mais claros e complacentes.

"Este filme tem tanta inocência", disse Anderson sobre "Small Change". "Em 'The 400 Blows', o personagem de Antoine, que realmente é Truffaut, não é tão inocente. Estamos do lado dele, não é culpa dele, mas ele é muito mais complicado e preocupado e revoltado, como o próprio Truffaut deve ter sido, do que Julien ou qualquer uma das crianças em 'Small Change'".


Anderson lembrou que enquanto universitário ele se deparou com um grande volume de roteiros e cartas de Truffaut na biblioteca da Universidade do Texas. Ele os devorou e se lembra perfeitamente de muitas passagens. "Uma das cartas de Truffaut é incrível e tão engraçada e triste", contou Anderson. O jovem Truffaut estava escrevendo para um de seus amigos mais próximos, que tinha confiado ao seu futuro diretor seus livros e outras coisas de valor, que Truffaut vendeu imediatamente e depois guardou o dinheiro.

"Há uma carta de desculpas de Truffaut que é muito exagerada", disse. "A linguagem é muito floreada, e você sente que, nesse relacionamento, Truffaut se sentia intelectualmente superior e era a personalidade dominante entre os dois. Mas nesse ponto, ele era claramente culpado e estava vulnerável e exposto, e estava tentando manter supremacia no relacionamento ao mesmo tempo em que não conseguia ser mais culpado. O que é interessante é ver como esse garoto, que saiu de um cenário violento, passou por tudo isso e saiu, nos anos 70, com sua atitude humana e gentil quanto a tudo isso."


SENSAÇÃO DE DOCUMENTÁRIO

Várias vezes durante o filme, Anderson fez observações sobre a qualidade da atuação das crianças, a maioria delas simplesmente recrutadas nas ruas da vila onde o filme foi feito. Houve importantes atores infantis em todos os filmes de Anderson, e ele tem fortes sentimentos sobre o assunto.

"'The 400 Blows' e este filme tiveram grandes crianças", afirmou Anderson. "Adoro trabalhar com crianças. Elas são tão surpreendentes, sabe? Mas o processo com o elenco é muito envolvente. Leva muito tempo para realmente resolver isso com elas. Mas então uma vez que você se adapta a elas, você pode ver qual delas realmente tem jeito pra isso e é completamente natural. Algumas pessoas conseguem fazer isso e outras não. Além disso, elas não tiveram nenhuma experiência, então não tiveram chance de criar nenhum hábito, bom ou ruim. O que eu descobri de interessante, no entanto, é que algumas pessoas que conseguem fazer isso só conseguem fazer isso, desde o começo. Acho que nunca vi ninguém se aprimorar durante a produção de um filme. Ou eles conseguem ou não. Isso é estranho."


As cenas passam sem nenhum senso de ritmo ou propósito, apenas capturam fragmentos da vida diária. A câmera visita uma criança, então se vira para outra. A vida continua ao redor. Em uma cena, os estudantes estão entrando em uma sala de aula. Alguém rouba um olhar da câmera, e então continua em frente.

"Agora, ele poderia muito bem ter filmado isso de novo", disse Anderson. "Normalmente, os atores não olham para a câmera quando estão caminhando. As coisas que acontecem no filme parecem estar acontecendo na vida real, e na vida real uma criança pode fazer algo desse tipo. Em alguns filmes, isso arruinaria tudo. Mas aqui, parece que Truffaut não tem de fazer nenhum esforço para colocar um feitiço. É tudo natural. Esse é um dos motivos pelos quais ele parece um documentário. Temos realmente de sentir que estamos em uma verdadeira escola francesa com verdadeiras crianças francesas e que estamos assistindo a uma parte da vida real."


Também há algo sobre a qualidade das crianças escolhidas por Truffaut: elas são atraentes e bonitas, mas não plásticas ou lindas. "Elas são mais interessantes do que uma criança comum tirada da rua, mas não são artistas", disse Anderson. "Eu pensei muito neste filme. Não é que eu estava trabalhando, e pensei 'Oh, como será que Truffaut fez isso?'. Mas essas imagens definitivamente chegam a mim quando estou trabalhando. E também o elenco. Quando você vê essas crianças, elas não parecem artistas, apesar de serem muito atraentes. Isso é algo que eu sempre estou tentando capturar."

Várias vezes, Anderson apontou uma localização inábil de câmera ou balanço no movimento da câmera. "Claramente, Truffaut é um cineasta que sabia como fazer um filme suave e polido", afirmou Anderson. "Ele fez 'Story of Adèle H.' nessa mesma época, e ele não se parece nenhum pouco com este filme. Como aqui - vê como a câmera balança e está um pouco torta? E Truffaut simplesmente continua em frente. É parte de sua estratégia para este filme. Ele queria captar um certo espírito, naturalidade, e é assim que ele faz. Além disso, acho que ele concluiu este filme muito, muito rapidamente."

MOMENTOS MEMORÁVEIS

Duas cenas no filme tiveram o principal comentário de Anderson.

Na primeira, uma das passagens mais famosas do filme, um bebê engatinha até a janela de um apartamento, 11 andares sobre a grama e as cercas. Enquanto os transeuntes aterrorizados assistem de baixo, o bebê balança pela proteção e mergulha no ar, caindo em um arbusto macio com um barulho suave e um grande sorriso, totalmente são.

"Você apenas sabe, durante tudo isso, que nada realmente ruim vai acontecer à criança", disse Anderson. "Isso simplesmente não se encaixaria com o tom do filme. E quando as crianças caem, você pode dizer que é uma queda falsa. É tão estranho em um filme que tenha sido tão realista. E então ela cai e está sorrindo e são, e isso é - eu não sei, o que é isso? Não é realismo. Talvez seja realismo mágico. Mas de alguma maneira se encaixa perfeitamente ao filme."


Um momento depois, duas estudantes estão passeando pela rua principal da cidade, passam algumas lojas e um café na calçada. A câmera segue ao lado, ouvindo sua conversa. Quando elas entram em uma loja, a câmera se prolonga do lado de fora, ouve mais uma conversa de um pedestre, e então continua a seguir as garotas pela rua. Quando elas entram no café, mais uma vez a câmera espera do lado de fora, ouvindo uma e depois outras conversas acontecendo nas mesas da calçada, e então volta às meninas quando elas aparecem.

"Não há nada acontecendo nesta cena", disse Anderson. "Não há nenhuma programação particular que possamos ver. E a maneira pela qual nos movimentamos através dos diferentes grupos de pessoas - ouvindo partes de diferentes conversas, às vezes sobrepostas - é a maneira que Robert Altman trabalha. E então, no fim, toda a cena acaba não tendo sido nada. Isso não avança para nenhuma das linhas da história. É só um fragmento da vida diária, como uma divisão entre duas cenas mais importantes."


TRUFFAUT COMO INSPIRAÇÃO

Fica claro conforme o filme se desenvolve, nos colocando dentro e fora de tantas vidas, que pelo menos um motivo pelo qual Anderson o escolheu foi rever toda a influência que Truffaut teve em seu trabalho, começando com o uso das crianças e continuando pela estrutura intrincada. Mesmo a narração (de Alec Baldwin) que Anderson usou em "Os Excêntricos Tenenbaums" tem seu antecedente em Truffaut. "Adoro a maneira como ele usa a narração, como nas passagens iniciais de 'Jules e Jim', lembra como ele estava falando rápido? E é um narrador que não participa da história. Em muitos filmes, ele usa a narração e cartas ou livros. 'Story of Adèle H.' foi praticamente todo sobre cartas."

Ainda mais, no entanto, do que a maneira como o estilo de Anderson espelha o de Truffaut, o que fica aparente quando se assiste "Small Change" é a diferença entre os diretores. Enquanto o filme de Truffaut parece inteiramente improvisado e desgovernado pelas exigentes leis de filmagem, o de Anderson é formal e calculado e inteiramente exigente.

FAZENDO AS PRÓPRIAS REGRAS

"Neste filme, é quase como se Truffaut estivesse dizendo: 'não teremos nenhuma regra aqui'", disse Anderson. "Eu faço regras obsessivamente. Tenho regras estranhas e sem sentido. Quero que os filmes sejam quase matemáticos. Mas somente no aspecto da câmera e da edição e como a música é usada e coisas do tipo, não quando se trata da atuação."


Seus câmeras sabem que há certos movimentos de câmera que ele não permite. Em "Os Excêntricos Tenenbaums", todo o filme é gravado usando os mesmos 30 mm. Por quê? Anderson dá de ombros. "Tem de ser com essa lente", disse. "Se for com outra lente não fica certo, o formato não é correto."

Outra regra: sempre que alguma coisa é colocada sobre uma mesa, a câmera se move diretamente para cima e filma o objeto abaixo. "Chegou ao ponto em que eles nem precisam me perguntar", contou. "Eles sabiam que era uma cena na mesa, então colocaram a câmera sobre a mesa. 'Oh, aí está, outra filmagem sobre a mesa que é padrão de Wes'. É mais por mim, acho, do que pelo filme. Para mim parece certo desse jeito. Mas o efeito final é que isso unifica o filme."

Perceptível mais imediatamente é a maneira como seus personagens são emoldurados. Se há um ou muitos personagens, eles estão sempre focalizados no centro da tela.

"No filme que acabamos de terminar, todos estão no centro do quadro quase o filme inteiro", disse Anderson. "Mesmo quando você tem nove pessoas em uma cena, elas estão obsessivamente organizadas para que você possa ver todas elas. Ninguém está obscurecendo ninguém. Eu tive uma cena com 13 pessoas, e queria que todas ficassem de costas para mostrar mais pessoas nos cantos. Mas fazendo isso, eu descobri, algumas das pessoas eram bloqueadas. Então fiz com que Bill Murray, Owen Wilson e um outro cara se abaixassem de modo estranho conforme a câmera se aproximava, só assim eles sairiam e continuariam na cena. Tenho de admitir, acho que talvez seja mais meticuloso do que saudável."


UM CAMINHO DIFERENTE

Nada poderia ultrapassar a sensibilidade de "Small Change", no qual os personagens olham para a câmera, bloqueiam um ao outro e parecem caminhar pelo quadro à vontade. É isso, diz Anderson; este é o mistério de como um cineasta pode influenciar tão fundamentalmente outro e ainda assim fazer filmes que são estilisticamente opostos.

"Uma coisa à qual eu sinto total conexão é a liberdade dos atores", disse Anderson. Exceto nos casos estranhos em que tenho atores se movimentando de maneira a continuar na cena, quando tenho atores em uma cena eu tento fazer com que eles se sintam o mais livre possível. É onde eu cruzo com 'Small Change'. Talvez meus atores tenham de chegar a uma marcação, mas não há tantos obstáculos no caminho deles, possibilitando que eles façam o caminho que quiserem fazer."


Muitos dos cineastas que participaram desta série foram lembrados tristemente, em alguns pontos do filme que significavam tanto para eles, que o filme não poderia ser feito em Hollywood hoje. Caro demais, estranho demais, escuro demais - seja qual for o problema, eles pareceram quase melancólicos sobre o que seria trabalhar em estúdios quando esses filmes poderiam ser feitos. Mas Anderson apenas deu de ombros quando perguntado se ele se sentia assim sobre "Small Change". A questão não se aplica, respondeu ele.

"Eles não fizeram esse filme em Hollywood. O motivo pelo qual você não pode fazer este filme hoje é que François Truffaut está morto."


"Small Change" ("L'Argent de Poche"). Dirigido e produzido por François Truffaut. Roteiro de Suzanne Schiffman e Truffaut. Filmagem de Pierre-William Glenn. Com Claudio Deluca, Franck Deluca, Sylvie Grizel, Sebastien Marc, Marcel Berbert e Corinne Boucart. MGM/UA, 1976. 105 minutos. US$ 19,98.

Os filmes de Anderson:
"Os Excêntricos Tenenbaums". Com Gene Hackman, Anjelica Huston, Danny Glover, Bem Stiller e Gwyneth Paltrow. 2001.
"Rushmore". Com Jason Schwartzman, Bill Murray, Olivia Williams e Brian Cox. 1998.
"Bottle Rocket". Com Luke Wilson, Owen Wilson e Ned Dowd. 1996.

Este artigo faz parte de uma série de discussões com diretores, atores, roteiristas, cineastas e outros famosos na indústria dos filmes. Em cada artigo, um cineasta seleciona e discute um filme que tenha um valor pessoal.

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Criado em 2002 por Paula Cruz e Leonardo Maia