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Entrevista com Eric Rohmer |
(estraída da Cahiers du Cinema n.527)
Você é um dos cineastas franceses mais coerentes. Parece que segue uma linha extremamente clara, precisa, ao filmar o mesmo tipo de histórias, com processos idênticos...
Coerente seguramente. Mas procuro não me repetir. Nunca quis que os meus filmes fossem grandes sucessos comerciais, mas acho que, apesar de tudo, a arte está ao serviço do público.
E é extremamente fiel ao seu método.
É verdade que me sinto à vontade com a minha maneira de filmar. Acho que se fizesse um filme procurando filmar de outra forma, deixaria de ser eu próprio. A especificidade do meu universo desaparece com a minha escrita cinematográfica. A natureza dos filmes está extremamente ligada não só à forma como os filmamos como também à forma como os produzimos.
Os seus actores fazem parte do seu método de trabalho?
Toda a vida serei fiel aos meus actores. Para usar uma metáfora amorosa, eu não sou daquelas pessoas que têm ligações passageiras que esquecem facilmente. A partir do momento em que dei um primeiro papel a um actor não volto imediatamente a fazer um filme com ele, ao contrário de alguns cineastas que fazes dois ou três filmes de seguida com o mesmo actor, e depois o abandonam. Eu volto a encontrar sempre os meus actores, às vezes depois de um grande intervalo de dez ou quinze anos. Béatrice Romand, por exemplo, filmou "Le Genou de Claire" em 1970, depois "Le Beau Mariage" em 1981, e agora o "Conto de Outono", dezasseis anos mais tarde. De cada vez que utilizei Béatrice Romand e Marie Rivière, tive o cuidado de não as utilizar da mesma maneira. Em "Le Beau Mariage", Béatrice Romand interpretava uma personagem que queria um homem "a qualquer custo". Aqui, ela também quer um homem, mas não o procura "a qualquer custo". A situação é parecida mas, de um certo modo, a personagem foi construida de forma invertida. Quanto a Marie Rivière, o seu papel é mais cómico do que nos filmes precedentes, depois de muito tempo quis que ela aparecesse verdadeiramente divertida no ecrã.
Não é a primeira vez que vemos regressar os seus actores depois de longos anos de ausência, mas aqui, como raras vezes acontece tivemos a sensação de ver registado qualquer coisa do seu envelhecimento, do seu amadurecimento.
Nos "Contos das Quatro Estações" aparece um elemento novo que não existia nos "Contos Morais" nem nas "Comédias e Provérbios": as gerações diferentes. Eu queria fazer uma coisa assim, em que não me interessasse só pelos jovens. Neste filme, as quarentonas são as mais interessantes, e estão em primeiro plano em relação ás de trinta anos (o que não aconteceu no "Conto da Primavera"). As personagens jovens são mostradas exteriormente, enquanto que a geração precedente é filmada por dentro. O espectador encontra-se mais próximo da sua intimidade.
Também demonstra uma certa dureza em relação à juventude e uma grande fragilidade e doçura para com as personagens mais velhas.
Isso não vem dos actores, mas da minha vontade. Não sei porque é que me interesso mais pelas personagens de quarenta anos, o que é efectivamente novo. E estas personagens não são "velhadas", como muitos dizem. Eu podia mesmo ser pai delas! Dito isto, quando me perguntam porque é que me interesso pela juventude, normalmente respondo que gosto das pessoas que olham para o futuro. As personagens de "Conto de Outono" ainda são suficientemente jovens para olhar para o futuro, mas já têm um passado muito denso. Elas podem simultaneamente olhar para a frente e para trás de si.
Por Antoine de Baecque e Jean-Marc Lalanne
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