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Crítica para "Acossado", Folha de São Paulo, 25/5/61 |
(Por Benedito J. Duarte)
De toda já vasta experiência empreendida pelos jovens da nouvelle vague, especialmente pela equipe atrevida do Cahiers du Cinéma, este A Bout de Souffle me parece constituir uma das tentativas mais curiosas e da maior importância no campo do cinema moderno. Trata-se, em verdade, de uma peça de vanguarda, a elevar-se talvez ao mesmo nível atingido por Hiroshima, Mon Amour, guardadas as devidas proporções de gênero e de estilo, está claro, tanto Hiroshima quanto A Bout de Souffle se apresentando com a mesma força de penetração, ambas a surdir de uma imensa e quieta cerebração, do inquieto e intenso terra a terra em que hoje vive aquela geração nascida sobre a sombra monstruosa dos cogumelos atômicos, quer se tenham eles formado sobre um deserto de Nevada, quer tenham sido provocados por cima das ruínas calcinadas de Nagasaki e de Hiroshima.
Jean-Luc Godard, intelectual de seu tempo, panfletário, crítico e realizador de cinema a um tempo, com este seu estranho e perturbador A Bout de Souffle, remaneja um tema já abordado por Gide e por Camus (o autor de L'Etranger): a imotivação de gestos e de atos, ou a força do ato gratuito, num mundo em que o homem, pobre mortal, se vê a braços com uma natureza rude e imperecível, regendo o comportamento humano, numa época inteira, ou apenas numa fração de tempo.
A Bout de Souffle é assim inteiramente composto (creio que nessa película, o termo "composto" deva substituir o vocábulo "realizado") por fragmentos (ou toda uma série) de atos gratuitos ou de gestos imotivados. É um gesto gratuito que move "Michel" a suspender a saia de uma desconhecida em plena rua; é um ato gratuito que leva Michel a assassinar um guarda rodoviário em sua viagem de Marselha a Paris; é um ato imotivado que impele Patrícia a denunciar Michel ao inspetor de Polícia; é um gesto imotivado que leva este a matar Michel, quando facilmente poderia prendê-lo ali na rua, pois, nesse momento, Michel já era um ser entregue e realmente a bout de souffle.
E tão cedo, certamente, não se verá de novo um filme em que a montagem, chocante por sua gratuidade, tão bem acompanhe, tão bem faça integrar, em sua dinâmica, os diálogos, o espírito, o comportamento das personagens (não raro com a sua imagem fora de campo), uma dialética em geral pontuada por movimentos de câmera impossíveis, por travellings circulares ou retos, ora completos em seu trajeto, ora bruscamente interrompidos e, também aqui, nem sempre motivados. E os atores seguem perfeitamente essa linha sinuosa da criação cinematográfica de Godard, que sabe tirar deles um resultado que, afinal, está longe de ser gratuito nesse mosaico de imotivações. E isso é o que vale em cinema, ou em qualquer outra obra humana.
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