POR ANDRÉ SETARO

Um dos filmes que causaram grande impacto na década de 70, chegando, inclusive, a ficar 7 anos proibido no Brasil pela ditadura militar, A Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971), do grande Stanley Kubrick, é uma reflexão sobre o livre arbítrio: nenhum homem, segundo o realizador, pode ser impedido de possuir a sua liberdade e o poder de decidir sobre o seu próprio destino. O Estado interfere e manipula os cidadãos para lhes moldar uma personalidade conformista.

Em um futuro próximo, Alex (Malcolm McDowell) e seus comparsas praticam a ultraviolência e muitas atrocidades. Mas o líder do bando é preso e passa por lavagem cerebral para eliminar seus instintos violentos. Kubrick, neste mosaico de impressionante beleza pictórica, faz, aqui, um libelo a favor do livre arbítrio e contra a ingerência do poder que acaba por destruir a individualidade. A chave do filme se encontra na seqüência da biblioteca quando Alex conversa com o padre e este lhe adverte sobre a questão do arbítrio.

A Clockwork Orange, obra-prima, é construída como uma seqüência de "quadros", procurando o realizador dar a cada uma dessas seqüências uma autonomia em relação às outras. Em A Laranja Mecânica, a estrutura narrativa se apóia neste autonomismo seqüencial. Assim, a obra se estrutura numa seqüência de "quadros": o estupro da mulher do escritor ao som de "cantando na chuva", quando a narrativa, irônica, contraria a fábula, Alex submetido à Experiência Ludovico, Alex já "curado", a volta à casa do escritor e seu reconhecimento...

A forca visual de Kubrick deixa-o à vontade para utilizar a fala com o mínimo de carga narrativa. A narração na voz de Alex serve mais a um sublinhamento irônico e à caracterização do personagem que a apoiar o desenvolvimento da ação: o nadsat. A gíria de Alex e seus droogs frisa o isolamento dos jovens em relação aos mais velhos e acentua a violência que aqueles francamente assumem (vejam o momento do retorno ao lar, por exemplo). Mas, ao espectador mais atento não escapará o elemento rítmico sonoro dessas falas que se integram com o estilo semicoreográfico adotado por Kubrick. Nesse particular, vale ressaltar a importância da cenografia inserida no tecido dramático e, também, o tratamento funcional da cor - aqui longe de se constituir em mera ilustração mas contextualizada no discurso cinematográfico do autor e no estabelecimento da mise-en-scène.

O roteiro é do próprio Kubrick baseado no romance de Anthony Burguess, que utiliza vocábulos por ele inventados: a gíria do personagem e de seus comparsas. A fotografia é de um artista: John Alcott, um dos iluminadores preferidos de Kubrick. E os intérpretes estão inexcedíveis: Malcolm McDowell (como Alex), Patrick Magee (o escritor espancado), Michael Bates, Adrienne Corri, Paul Farrel, Marian Karlim, Sheila Raynor.

Ely Azeredo, um crítico carioca, resumiu bem as características dessa obra fundamental: "Laranja Mecânica é, na verdade, um blow-up da perversão que se reveste de um senso de humor absolutamente genial. Humor cáustico, extremamente colorido e nuançado. Que nos permite acompanhar o hui-clos que é A Clockwork Orange com razoável recurso a uma das armas que restam inteligência: o riso cético, rebelde, restaurador do ânimo"

Sinopse - Crítica - Kubrick - Burguess

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