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Relatos,
Casos, Histórias
"T.,
mais ou menos três anos, praticamente cega dos dois
olhos, devido a complicações relacionadas com
a síndrome. Embora, segundo depoimento da responsável,
ela só visse algumas sombras e vultos de pessoas próximas,
ela era a mais obsessiva em desenhar entre as crianças
presentes. É uma menina muito comunicativa, simpática,
muito carente de atenção e receptiva ao nosso
trabalho. Logo quando chegamos, ela me disse que estava chorando
muito há poucos minutos atrás. Ao indagar o
motivo do choro, ela me respondeu que pensava que nós
do GAS não fôssemos aparecer.
Li duas histórias para o grupo: "A Galinha Ruiva"
e "O Pequeno Polegar". Terminadas as histórias,
conversamos um pouco sobre o que acabávamos de escutar,
quando T. pediu para contar uma história, porque ela
sabia várias histórias. Pedi então que
contasse. A sua história se resumia em uma frase: "Aí,
o gato morreu." Todas as crianças riam muito,
porque naturalmente T. criou toda uma expectativa e começou
pelo que poderia ser provavelmente um fim. Depois conversamos
mais um pouco, desenhamos, pintamos e encerramos o trabalho.
Fiquei pensando de que forma essa "história"
contada por T. poderia ser uma elaboração simbólica
da morte de sua mãe, relativamente recente. Mas como
não sou psicanalista, deixei passar despercebido. Talvez,
se isso acontecesse agora, mais de um ano depois, teria traquejo
para propor uma história coletiva a partir da circunstância
proposta pela criança. O fato é que nunca mais
encontrei com ela e espero que ela esteja contando outras
histórias em que a vida e a esperança estejam
presentes."
Alex Simões (voluntário)
" Era minha
primeira intervenção. Estava cheia de expectativas,
de GAS, enfim de vontade. Cheguei ao ambulatório e
encontrei todos muito receptivos às nossas propostas.
Apenas um, de mais ou menos três anos, bem magrinho
e com a pele cheia de marcas ficou num cantinho sem qualquer
vontade de participar.Seu nome era Isac.
Discretamente, levei papel, lápis e deixei próximo
dele, passando de vez em quando para estimulá-lo. Depois
de algum tempo, mesmo bem juntinho de sua acompanhante, ele
esboçou os primeiros rabiscos.
Esses rabiscos foram tomando mais cor, forma, vigor e eu muito
contente, elogiava. Mais tarde entreguei-lhe uma bola e imediatamente
ele começou arremessá-la pra mim. Senti que
seu ânimo aumentava e convidei-o para sentar-se à
mesa com os demais e ele timidamente se integrou ao grupo.
Fique super radiante com a conquista. Mais contente ainda
fiquei , após alguns meses sem vê-lo, quando
duma festa na brinquedoteca, reencontro Isac gordinho, com
uma carinha ótima e logo o distingui na turma. A sua
imagem estava ainda muito fresquinha na minha memória."
Zidi Brandão
(voluntária)
"Hoje fui
no Hospital. Meio chato ir sozinha e não ter feito
nenhuma programação legal para crianças,
mas a tarde me surpreendeu. Ainda estava chegando quando M.
veio e me abraçou. Passei o olho e vi que tinham muitas
crianças de colo, o que me frusta um pouco porque a
gente
nunca tem muito o que fazer com eles (ainda mais que eu estava
sozinha). Bom, fiquei um tempo com os mais velhos na mesinha
colorindo vários desenhos que levei e depois passei
pra "brincar" com os bebezinhos. Hoje foi definitivamente
o meu melhor dia com eles, todos os que não estavam
dormindo deram risada pra mim !!!
Mas teve um em
especial, G., que fez meu dia. Qualquer coisa que eu fazia
ele se acabava de rir ( todo banguelinha, super lindo!!!).
E a mãe dele é super gente boa. Não é
comum vermos mães de alto-astral lá (não
é a toa). Só teve uma hora que ele chorou; quando
a mãe foi tentar limpar o nariz dele...
É
muito bom poder fazer uma criança um pouco mais feliz
só de mexer no nariz dela, só de sentar à
mesa e colorir com ela, só de conversar sobre o desenho
animado. As crianças lá do hospital podem ser
mais carentes e demandar um pouco mais da nossa atenção,
mas é prazeroso porque vemos estampado no rosto delas
o quanto significa um colo e um carinho seu. O carinho de
alguém que não tem medo de tocar nela, de beija-la.
Os dias em que fico mais feliz são quando estou saindo
do hospital e me dou conta que não me passou nem por
um momento que as crianças são soropositivas."
Marina Barral (voluntária)
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