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Conflitos

Povo Basco

1. A Espanha e o País Basco

Em 1959, ano de fundação da organização separatista ETA (Euskad Ta Askatasuna, o que significa "Pátria Basca e Liberdade"), um militante dessa organização, pescador de profissão, disse a um jornalista americano:

"Somos o único país da Terra cujas fronteiras não são divisões geográficas nem políticas, mas vogais e consoantes. Nosso país começa onde se fala basco e termina onde se fala basco e termina onde não se fala mais. Uma vez que o basco não tem relação com qualquer língua conhecida, isso cria fronteiras melhores que as impostas pelos governos."

Os bascos têm mais de 5 mil anos de história. Sua origem é desconhecida, mas sabe-se que defenderam a sua independência contra os romanos, godos e visigodos, na Antigüidade e Idade Média. A língua basca (euskera) parece, sequer, pertencer ao tronco indo-europeu, fonte do latim e das demais línguas ocidentais. Hoje existem cerca de 500 mil bascos habitando quatro províncias espanholas (Vizcaya, Guipuscoa, Alava e Navarra) e três francesas (Labourd, Baixa Navarre e Soule).

2. Os bascos e a ditadura franquista

A Guerra Civil espanhola (1936-1939) colocou um ponto final na efêmera II República, instalou a ditadura de Francisco Franco e cortou, no nascedouro, as leis de autonomia da minoria nacional basca. O País Basco foi um dos primeiros a ser atingido pelos conflitos, sofrendo o célebre bombardeio de Guernica, imortalizado pela pintura de Pablo Picasso, quando a aviação de Hitler devastou aquela localidade basca que tinha sido sede, no passado, das reuniões do Conselho dos Anciãos (órgão governamental supremo da comunidade basca)

A ditadura franquista (1939-1975) foi, antes de tudo, um regime extremamente centralizador. Toda e qualquer manifestação autônoma das comunidades regionais sofria dura repressão. A língua basca foi proibida,e seu ensino constituía ato de subversão. O uso das cores branco verde e vermelho, da bandeira basca, era duramente punido.

A organização separatista ETA, originou-se da ala jovem do tradicional e conservador (mas ilegal, sob a ditadura de Franco) Partido Nacionalista Basco (PNV). No início, a ETA limitou-se a uma atividade de difusão cultural dos valores e costumes bascos mas, a partir de 1966, lançou-se à ação política e à luta armada. A ação armada mais retumbante da ETA ocorreu em 1973, quando um comando da organização fez explodir o carro que transportava o primeiro-ministro franquista, Luis Carrero Blanco, matando-o em plena zona urbana de Madri. Durante o longo período franquista, o terrorismo basco acabou sendo uma manifestação da luta contra a ditadura.

3. Os bascos na democracia espanhola

Desde 1974, a ETA estava dividida em duas correntes: a ETA Político-Militar, que rejeitava o terrorismo; e a ETA Militar, ou simplesmente ETA-M, que fazia da luta armada e do terrorismo o meio mais importante para a conquista da autonomia basca.

Em 1979, no contexto das reformas democratizantes do rei Juan Carlos e de seu primeiro-ministro, Adolfo Suárez, eram aprovados em referendos os estatutos da autonomia basca, previstos na Constituição promulgada um ano antes. A região ganhava órgãos de governo próprios e eram suspensas todas as restrições à divulgação de cultura dessa minoria nacional. As datas nacionais bascas passavam e ser livremente comemoradas e, em muitas escolas, o euskera voltava a ser ensinado.

De 1979 a 1982, viveu-se uma trégua entre as autoridades e a ETA. O novo estatuto provocava uma grande discussão nas fileiras da ETA, levando muitos militantes a defenderam o fim da luta armada.

Em 1982, consumou-se a divisão na ETA. A Espanha passava a ser governada pelos socialistas de Felipe González e a ETA-M retomava, com grande estardalhaço, a luta armada e os atos de terrorismo. Ao mesmo tempo, a ETA-M, com o apoio de Herri Batasuma, representação parlamentar e pública da facção, formulou um programa de cinco pontos que significava uma rejeição do estatuto de autonomia de 1979 e a opção por uma linha claramente separatista. Esse programa ficou conhecido como Alternativa KAS, já que a primeira frase de cada ponto começava com a letra "K", quando escrita em euskera.

Durante cinco anos sucederam-se as ações violentas do ETA-M, atingindo indistintamente militares, policiais e civis, dentro e forra das províncias bascas. A reação do governo de Madri conduziu a uma intensa repressão policial e, praticamente, à ocupação militar do País Basco. Acordos entre o governo de Felipe González e o governo socialista francês de François Mitterrand acabaram com os tradicionais refúgios de militantes bascos espanhóis nas províncias bascas francesas. Paris passou a extraditar para Madri centenas de dirigentes da ETA escondidos naquelas províncias.

Os anos de terror produziram um repúdio generalizado na sociedade espanhola contra o ETA-M. AUtoridades, partidos de situação e oposição e sindicatos conduziram manifestações públicas imensas, principalmente em Madri e Barcelona, contra os principais atos terroristas da ETA-M.

No país Basco, o terrorismo resultou numa fissura profunda: de um lado o Partido Nacionalista Basco, que representava a ETA; de outro o Eukadino Ezkerra, partido que não aceita a luta armada.

Atualmente, a maior parte da população rechaça a luta armada, defendida pela ala mais radical da ETA, ou seja, a ETA-M.

Em 1999, sem o apoio popular, a ETA declarou oficialmente o cessar-fogo, o que não impede que os radicais bascos continuem com os atentados a bomba, como os ocorridos no primeiro semestre de 2001.

 

 
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