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SEU DOTÔ ME CONHECE?
(Patativa do Assaré)
Seu dotô, só
me parece
Que o sinhô não me conhece,
Nunca sôbe quem sou eu,
Nunca viu minha paioça,
Minha muié, minha roça,
E os fio que Deus me deu.
Se não sabe, escute
agora,
Que eu vou contá minha história,
Tenha a bondade de ouvi:
Eu sou da crasse matuta,
Da crasse que não desfruta
Das riqueza do Brasi.
Sou aquele que conhece
As privação que padece
O mais pobre camponês;
Tenho passado na vida
De cinco mês em seguida
Sem comê carne uma vez.
Sou o que durante a semana,
Cumprindo a sina tirana,
Na grande labutação,
Pra sustentá a famia
Só tem direito a dois dia,
O resto é pra o patrão.
Sou o que no tempo da guerra
Cronta o gosto se desterra
Para nunca mais vortá,
E vai morrer no estrangêro,
Como pobre brasilêro,
Longe do torrão natá.
Sou o sertanejo que cansa
De votá, com esperança
Do Brasi ficá mió;
Mas o Brasi continua
Na cantiga da perua:
Que é: - pió, pió, pió...
Sou o mendigo sem sossego,
Que por não achar emprego
Se vê forçado a segui
Sem dereção e sem norte,
Envergonhado da sorte,
De porta em porta a pedi. |
Sou aquele desgraçado,
Que nos ano atravessado,
Vai batê no Maranhão,
Sujeito a todo matrato,
Bicho de pé, carrapato,
E os ataque de sezão.
Senhô dotô, não
se enfade,
Vá guardando esta verdade
Na memóra, e pode crê
Que eu sou aquele operáro
Que ganha um pobre saláro
Que não dá nem pra comê.
Sou ele todo, em carne e osso,
Muntas vez
Não tenho armoço
Nem tombém o que jantá;
Eu sou aquele rocêro,
Sem camisa e sem dinhêro,
Cantado por Juvená.
Sim, por Juvená Galeno,
O poeta, aquele geno,
O maió dos trovadô,
Aquele coração nobre
Que a minha vida de pobre
Munto sentido cantou.
Há mais de cem ano
eu vivo
Nesta vida de cativo
E a potreção não chegou;
Sofro munto e corro estreito,
Inda tou do mêrmo jeito
Que Juvená me deixou.
Sofrendo a mesma sentença,
Tou quage perdendo a crença,
E pra ninguém se enganá
Vou dexá meu nome aqui:
Eu sou fio do Brasi,
E o meu nome é Ceará!
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