POETERRA

 

A questão da terra revela-se na arte do povo como a literatura de cordel; revela-se com a sensibilidade das grandes obras como as de João Cabral de Melo Neto, de Patativa do Assaré e tantas outros anônimos, mas que fazem parte da multidão carente por justiça e que usa a criatividade para fazer revolução:

"Povo
não pode ser sempre o coletivo de fome.
Povo
não pode ser um séquito sem nome.
Povo
não pode ser o diminutivo de homem."

(Affonso Romano de Sant'anna)


SECA
Autor: José Inácio Vieira de Melo

Uma vaca magra
Duas vacas caídas
Vacas morrendo

Barragens secas
Açudes secos
Rios secos
A seca - o Sol

Água são léguas
Água são carotes de lama
Água são pote de vermes
Água é mijo doído

 

 

Olhos esbugalhados - fome
Beiços ressequidos - sede
E a vida some...

Tudo vermelho
De todo Sol

Verde só a algarobeira cabeluda
Verde só o mandacaru totêmico
Verde só os últimos paus-ferros

E o meu irmão sambudo
Sobrevive doutras secas
Sobrevive a esta
E a que há de sobrevir

É essa a sua existência:
Esperança e crença
Num todo verde
Em espelhos d'água
E pratos fartos.

 

SEU DOTÔ ME CONHECE?
(Patativa do Assaré)

Seu dotô, só me parece
Que o sinhô não me conhece,
Nunca sôbe quem sou eu,
Nunca viu minha paioça,
Minha muié, minha roça,
E os fio que Deus me deu.

Se não sabe, escute agora,
Que eu vou contá minha história,
Tenha a bondade de ouvi:
Eu sou da crasse matuta,
Da crasse que não desfruta
Das riqueza do Brasi.

Sou aquele que conhece
As privação que padece
O mais pobre camponês;
Tenho passado na vida
De cinco mês em seguida
Sem comê carne uma vez.

Sou o que durante a semana,
Cumprindo a sina tirana,
Na grande labutação,
Pra sustentá a famia
Só tem direito a dois dia,
O resto é pra o patrão.

Sou o que no tempo da guerra
Cronta o gosto se desterra
Para nunca mais vortá,
E vai morrer no estrangêro,
Como pobre brasilêro,
Longe do torrão natá.

Sou o sertanejo que cansa
De votá, com esperança
Do Brasi ficá mió;
Mas o Brasi continua
Na cantiga da perua:
Que é: - pió, pió, pió...

Sou o mendigo sem sossego,
Que por não achar emprego
Se vê forçado a segui
Sem dereção e sem norte,
Envergonhado da sorte,
De porta em porta a pedi.

Sou aquele desgraçado,
Que nos ano atravessado,
Vai batê no Maranhão,
Sujeito a todo matrato,
Bicho de pé, carrapato,
E os ataque de sezão.

Senhô dotô, não se enfade,
Vá guardando esta verdade
Na memóra, e pode crê
Que eu sou aquele operáro
Que ganha um pobre saláro
Que não dá nem pra comê.

Sou ele todo, em carne e osso,
Muntas vez
Não tenho armoço
Nem tombém o que jantá;
Eu sou aquele rocêro,
Sem camisa e sem dinhêro,
Cantado por Juvená.

Sim, por Juvená Galeno,
O poeta, aquele geno,
O maió dos trovadô,
Aquele coração nobre
Que a minha vida de pobre
Munto sentido cantou.

Há mais de cem ano eu vivo
Nesta vida de cativo
E a potreção não chegou;
Sofro munto e corro estreito,
Inda tou do mêrmo jeito
Que Juvená me deixou.

Sofrendo a mesma sentença,
Tou quage perdendo a crença,
E pra ninguém se enganá
Vou dexá meu nome aqui:
Eu sou fio do Brasi,
E o meu nome é Ceará!

 

 

O POVO E A SECA CONTRA A FOME
Autor: Enoque Araújo
1983

(Literatura de Cordel)


I
Atenção caro leitor
Lanço aqui o meu apelo
De apoio ao Sertanejo
Sofrendo até os cabelos
Com as secas que lhe traz
Sede, fome e desespero.

II
A nossa situação
Há tempos que é precária
E ajuda ao Nordeste
É sempre estacionária
O povo luta sem terra
E sem ter reforma agrária.

III
Parece que o sofrimento
Da sua vida faz parte
Os políticos lhe exploram
Usa o voto como arte
Sofre toda humilhação
Até que a fome o descarte.
...

V
Os homens lá do poder
Não tem sensibilidade
Usa o voto de cabresto
Pra se encher de vaidade
Prega mentira e promessa
Em troca de apoio e verdade

VI
Sem escola e assistência
Morando numa palhoça
Coração, alma pura
Escravizado na roça
Quando recebe alguém
Para servir não se coça
...

VIII
Vem a cheia lhe flagela
E a seca se arrasa
A política como sempre
Esquenta-lhe mais a brasa
De tido tira proveito
E a vida do pobre atrasa
...

X
Tem EMBRAPA e EMATER
Veio PROJETO SERTANEJO
Também veio POLONORDESTE
Os resultados não vejo
Vem projetos mas a verba
O povo fica em desejo

XI
Os bancos em nosso País
Só tem visão financeira
Se preocupa com juros
E o dinheiro em carteira
Pra liberar um empréstimo
O pequeno leva canseira

XII
Já o latifundiário
No banco tem regalia
O gerente lhe atende
A qualquer hora do dia
É sempre atravessador
E a rápida verba desvia

XIII
Por isso chega a seca
Pega o caboclo sem preparo
Essas Frentes de Emergência
Trata-o como boi de carro
É só um paliativo
Para evitar seu esparro
...

XVIII
A SUDENE foi criada
Numa grande estrutura
Para aumentar o rebanho
E crescer a agricultura
Hoje muito esvaziada
Não garante a rapadura

 XIX
Se o grande Celso Furtado
E saudoso JK
Que criaram a SUDENE
Encontra-se como está
Arranjavam muita verba
Ou de tristeza iam chorar
...

XXI
Defendo apoio ao campo
E a tecnologia
A cultura popular
Com prática sem fantasia
Planta, terra, chuva e seca
Roceiro tem mais valia

XXII
Pagar melhor o técnico
Para ter mais consciência
E junto ao produtor
Acatar a experiência
E os bancos respeitarem
Liberação a carência

XXIII
Essas Frentes de Serviço
Tem que ser bem diferente
Empregando homem e mulher
De maneira permanente
Com assistência social
Dando-lhe trato de gente

XXIV
Toda essa mão-de-obra deve ser bem contratada
Fomentar Cooperativas
De forma conscientizada
Que o povo julgue o destino
Da vida cooperativada

XXV
Convoque técnicos do Nordeste
Para um grande projeto
As águas do São Francisco
Pra outros rios correr direto
Tendo água e incentivo
No Sertão dá tudo certo

XXVI
Outra coisa que o governo
Também tem que respeitar
O minério que nos tira
E pouco lucro nos dá
Nordeste exporta petróleo
O retorno é de amargar

XXVII
Tem que evitar o êxodo
Para o Sul e Sudeste
São Paulo foi construída
Pelo "Baiano" que deu certo
Incham as grandes cidades
E o sertão fica deserto
...

XXX
Para o povo nordestino
Não tem Direitos Humanos
É sempre relegado
Ao mais triste dos planos
A saída é lutar
Pra se tornar soberano

XXXI
Aqui apelo de novo
Ajuda ao nordestino
Houve tanta ajuda ao Sul
Que tem melhor seu destino
De lá pra cá veio pouca
É outro o nosso Hino?
...

 

MORTE E VIDA SEVERINA
(Auto de natal pernambucano)
Autor: João Cabral de Melo Neto
1956

I - O retirante explica ao leitor quem é e aque vai.
- O meu nome é Severino,
Não tenho outro de pia.
.................................................................................
Somos muitos Severinos
Iguais em tudo na vida;
Na mesma cabeça grande que é a custo que se equilibra,
No mesmo ventre crescido
Sobre as mesmas pernas finas,
E iguais também porque o sangue que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
Iguais em tudo na vida,
Morremos de morte igual,
Mesma morte severina:
Que é a morte que se morre
De velhice antes dos trinta,
De emboscada antes dos vinte,
De fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
Iguais em tudo e na sina:
A de abrandar estas pedras
Suando-se muito em cima,
A de tentar despertar
Terra sempre mais extinta,
A de querer arrancar
Algum roçado de cinza.
Mas, para que me conheçam
Melhor Vossas Senhorias
E melhor possam seguir
A história de minha vida,
Passo a ser o Severino
Que em vossa presença emigra.

II - Encontra dois homens carregando u defunto numa rede, aos gritos de: "Ó irmãos das almas! Irmãos das almas! Não fui eu que matei não!"
-A quem estais carregando irmãos das almas,
Embrulhado nessa rede?
Dizei que eu saiba.
-A um defunto de nada,
irmãos das almas,
que há muitas horas viaja
à sua morada.
-E sabeis quem era ele,
Irmão das almas,
Sabeis como ele se chama
Ou se chamava?
-Severino lavrador,
Irmão das almas,
Mas já não lavra.
-E de onde que o estais trazendo,
irmão das almas,
onde foi que começou
vossa jornada?
-Onde a cantiga é mais seca,
irmãos das almas,
onde uma terra que não dá
nem planta brava.
-E foi morrida essa morte,
irmão das almas,
essa morte foi morrida
ou foi matada?
-Até que não foi morrida,
irmão das almas,
esta foi morte matada,
numa emboscada.
-E o que guardava a emboscada,
irmão das almas,
e com que foi que o mataram,
com faca ou bala?
-Este foi morto de bala,
irmão das almas,
mais garantido é de bala,
mais longe vara.
-E quem foi que o emboscou,
irmão das almas,
quem contra ele soltou essa ave-bala?
-Ali é difícil dizer,
irmão das almas,
sempre há uma bala voando
desocupada.
-E o que havia ele feito, irmão das almas,
e o que havia ele feito contra a tal pássara?
-Ter uns hectares de terra,
irmão das almas,
de pedra e areia lavada
que cultivava.
-Mas que roças que ele tinha,
irmão das almas,
que podia ele plantar
na pedra avara?
-Nos magros lábios de areia,
irmão das almas,
dos intervalos das pedras,
plantava palha.
-E era grande sua lavoura,
irmão das almas,
lavoura de muitas covas,
tão cobiçada?
-Queria mais espalhar-se
irmão das almas,
queria voar mais livre
essa ave-bala.
-E agora o que passará,
irmão das almas,
o que é que acontecerá
contra a espingarda?
-Mais campo tem para soltar,
irmão das almas,
tem mais onde fazer voar
as filhas-bala.

 
 

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