CAIA DE BOCA

 

Banana também é arte. Algumas pessoas decidiram fazer deste fruto precioso objeto de apreciação. Por isso, Caia de Boca.

 

 

A BANANA

 

O começo todos nós sabemos: Deus criou o céu e a terra, depois falou “Faça-se a luz!”, chamou as trevas de “noite” e a luz de “dia”.  Posteriormente originou o firmamento do céu, as árvores, os bichos e, para acabar com a terra, criou o macho e a fêmea. Até aí vocês acompanharam sem maiores problemas. O que a Bíblia não diz e muitos poucos seres supõem é que a árvore que estava no meio do jardim, aquela que ofertava o fruto proibido, não era uma macieira. Isso mesmo. A árvore do conhecimento era uma bananeira e ofertava a banana-maçã, o mais pecaminoso dos frutos. A serpente, ardilosa por natureza, sabia que Eva não resistiria a uma fruta com aquele formato, sapiência e cheia de obscenidades. Deus tomou conhecimento dos atos libidinosos e condenou o homem à pena capital do trabalho. A mulher passou a sofrer dores horrorosas durante o parto. Desde então, eles sofrem a banana-pão que o diabo amassou e procuram o vale onde jorra aveia e mel, sem muito sucesso.

 

A banana é a mãe da ambivalência. Não existe outra fruta neste mundo que tenha o seu potencial de utilidade. Do exercício para a garganta, num dos filmes de Woody Allen,  até o sinônimo de uma república desorganizada, politicamente atrasada. O caráter artístico do cacho de bananas exposto ao tempo, no quadro de Giorgio de Chirico. Ser banana é ser tolo, palerma. Mas dar uma banana para uma pessoa é tirar dela toda a dignidade, o respeito, a importância. O gesto é muito simples( a demonstração é para os destros): coloca-se o braço esquerdo, horizontalmente, sobre o antebraço direito e, verticalmente, no centro, levanta-se o braço direito. Eis uma banana. O efeito é avassalador. A banana pode ser dada silenciosamente, com uma simples assinatura.  Muitos políticos demostraram eficiência na prática e, calados, dão bananas para o povo, que ainda se sente agraciado. Pior do que uma banana só o chute na bunda que Carlitos dava no policial perseguidor.

 

A banana também é explosiva. Coloque uma banana de dinamite numa mina e terá diamantes aos seus pés. Ou seus pés por toda mina, se mal utilizada. No interior do Brasil, uma casa pode não ter televisão, mas lá no quintal, entre mangueiras e cajueiros, estará uma bananeira maltratada, onde o cágado se esconde. A banana que era cantada por uma baiana mercadora nas ruas da cidade do Salvador: “Ooooolha a banana-de-prata...ooooolha a banana-de-prata...” E, com uma faca quase cega, cortava a banana e fazia ver que ela não era qualquer uma, mas a banana da Ilha de Maré, bem nutrida e farta (a mercadora negra não canta mais, talvez tenha morrido). A banana também pune os distraídos. Não falta quem tenha sofrido a humilhação de escorregar numa casca de banana. É amarela, mas com o tempo, fica cheia de manchas pretas. Muito verde para as bananadas. Madura para comer, misturar com leite e fazer vitamina. Muita madura não presta, “tá pôde!”. A bananeira, onde não tem zona, é a mulher que inicia sexualmente os moleques.

 

Tem banana de todo o tipo. Anã, da terra, de comboieiro, de papagaio, do paraíso, mãe, do mato, ouro, nanica, de moça, pirauá. São Domingos, quem diria, também tem a sua. Fruta doce, de nome doce. Seu nome é mastigado, uma sílaba repetida. Nana. Enfeitando banquetes, cortada na salada-de-frutas, exposta na fruteira de uma casa miserável. Símbolo fálico, terror dos homens, lembrança das mulheres. Mata a fome enquanto o almoço não sai. A única fruta que custa o seu próprio nome. Banana.

 

Autor, realamente embananado, Claudio Leal.

 

 

 

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