MARK MORRIS: ARTISTA DO MILÊNIO

Uma rápida olhada na atual programação de projetos do coreógrafo norte-americano Mark Morris nos dá motivo para olhar com mais atenção.
De fato, a extraordinária abrangência e onipresença em uma série de ambientes - incluindo balé, música moderna, ópera, teatro musical, vídeo e cinema - faz com que tudo isso seja difícil de acreditar. Como é que uma pessoa pode se expandir na abrangência, dinamismo e criatividade sem limites que são necessária para manter esse tipo de império cultural de uma só pessoa?
Ao completar 35 anos de idade, Morris tinha produzido um conjunto de obras suficientemente grande e importante para que ele se tornasse o assunto de uma famosa biografia crítica (Mark Morris, de Joan Acocella, Farrar, Straus e Giroux, 1993). Agora, com 41 anos, ele continua a progredir, de um ponto de força a outro, colocando sua marca coreográfica singular em novas obras.
Mais do que qualquer outro coreógrafo em atividade hoje, Morris distribui seus dançarinos em curiosas relações e configurações espaciais, criando padrões geométricos que são equivalentes coreográficos do conceito renascentista da música das esferas - a teoria segundo a qual a prova da existência de Deus reside na beleza dos padrões do céu.
Conhecido pela transcendente musicalidade das suas obras, que se baseiam na sua profunda e imaginativa compreensão da estrutura musical, Morris já fez coreografias com aparentemente todos os tipos de música, usando os movimentos dos dançarinos para apresentar uma imagem visual da música. É provável que ele seja conhecido, acima de tudo, pela sua profunda afinidade com a música vocal barroca, como a que ele utilizou na sua obra de 1988, L'Allegro, il Penseroso ed il Moderato, em conjunto com uma obra de Handel. Uma obra para 24 dançarinos, um coral de 30 cantores, cinco solistas e uma orquestra completa, L'Allegro ganhou vários prêmios na sua estréia mundial em Londres e será apresentado pela primeira vez nos Estados Unidos, em Washington, no final de 1998.
Morris é considerado um coreógrafo para músicos e está envolvido em trabalhos significativos e contínuos, em conjunto com o compositor Lou Harrison e o violoncelista Yo-Yo Ma. Para comemorar o 80.º aniversário de Harrison, Morris encomendou a música de Rhymes with Silver, o seu quinto trabalho em parceria com o compositor. Ma e o grupo de Morris, em breve viajarão juntos, apresentando danças que incluem a nova obra de Harrison assim como Falling Down Stairs, uma obra feita para ser executada ao som da Terceira Suite de Bach para violoncelo sem acompanhamento.
Falling Down Stairs teve a sua primeira apresentação na televisão pública nos Estados Unidos em abril de 1998, como parte de uma série de documentários em vídeo que mostravam os trabalhos de Ma em conjunto com artistas de vários meios. A versão filmada de Dido and Aeneas, de Morris, que também foi exibida pela primeira vez nas televisão por cabo nos Estados Unidos em abril, deverá ser transmitida para o mundo inteiro no decorrer de 1998.
O Grupo de Dança de Mark Morris tem uma das programações de viagens nacionais e internacionais mais extensas entre as de qualquer companhia de dança do mundo. Morris já coreografou mais de 90 obras para a sua companhia, mas ele recebe pedidos de outros grupos também. No momento ele está trabalhando em uma peça para o San Francisco Ballet, a quarta obra de Morris que entrará no repertório da organização.
Uma parte considerável da energia de Morris, recentemente, tem sido dedicada ao teatro musical, tanto popular quanto clássico. Ele coreografou e dirigiu o novo musical, The Capeman com música de Paul Simon, que foi apresentado em curta temporada na Broadway, no início de 1998. Morris também dirigiu e coreografou óperas nos últimos dez anos.
Apesar dessa impressionante quantidade e variedade de atividades, até pouco tempo atrás, Morris e seu grupo não possuíam uma base permanente, um luxo que é, apesar de tudo, vital para o crescimento e a estabilização. Esse desafio já foi vencido. Ele espera mudar sua companhia em breve para uma sede no centro de Brooklyn (uma região administrativa de Nova York) que acomodará a equipe administrativa e artística e terá dois estúdios que permitirão a realização de trabalhos ininterruptos de coreografia. Na verdade, esse novo lar para Morris será também um novo lar para a dança americana.
Como sempre, a música moderna reflete a sua época. Os coreógrafos mais jovens da atualidade freqüentemente preferem a estética pós-modernista em vez da modernista. Isso significa que os coreógrafos modernos assimilaram o balé, as artes marciais, as danças de salão, a ginástica, as danças folclóricas e outras técnicas no léxico da dança moderna, de forma que já não existe mais um estilo, de fácil definição, do movimento da dança moderna. Isso significa que as formas e fórmulas para a construção da dança mudaram, em resposta à visão pós-Einsteiniana do mundo físico, à influência de novos modos de percepção que surgiram com a tecnologia, e à idéia pós-moderna da realidade como um conceito social relativo. (Por exemplo, o coreógrafo Doug Elkins é um verdadeiro pós-modernista para o qual toda a história e a cultura do mundo são uma única pilha de materiais da qual ele seleciona, desmonta, e reconstrói à vontade.) Isso significa que os coreógrafos estão questionando quem pode dançar e que aparência eles devem ter, assim como as vozes que devem ser ouvidas. Isso também significa que o conteúdo voltou ao primeiro plano na dança moderna, prevalecendo sobre a forma. Isso representa uma séria ruptura filosófica e estética com o estilo na dança moderna que tem sido dominante desde que Cunningham começou a coreografar na década de quarenta e desde que o Judson Dance Theatre, da década de sessenta, trouxe a dança moderna ao universo formalista.
Essa ruptura estética chegou ao conhecimento do grande público e da comunidade artística, de forma mais notória, com a publicação, na revista The New Yorker, do ataque da crítica de dança Arlene Croce a Bill T. Jones, como representante do que ela classificou de "arte de vítima". Falando em nome de um segmento do meio artístico, Croce expressou um desprezo pelo trabalho de Jones e de outros que, em última análise, demonstrou que a real preocupação de Croce era que a estética modernista - a única cuja legitimidade ela reconhecia - já não estava mais norteando muitos jovens coreógrafos. No entanto, as tendências contra as quais Croce e outros estavam se manifestando já havia se estabelecido na dança como uma grande força, pelo menos uma década antes da publicação do artigo.
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