Contexto social e político
Uma tendência cíclica que ressurgiu na dança moderna mais de dez anos atrás e que prevalece hoje é o fato de os coreógrafos se concentrarem em fazer arte com um conteúdo social e político. Esse trabalho tratava dos "ismos" do ódio (incluindo racismo, sexismo, e homofobia) na política de identidade, e em questões referentes à crise da AIDS. Além de Jones (que ironicamente, no seu mais recente trabalho, adotou conceitos formalistas), coreógrafos no país inteiro estão expressando preocupações similares. David Rousseve, em Los Angeles, cria danças nas quais a história pessoal é explorada tendo como objetivo questões sociais mais amplas. Stuart Pimsler, de Columbus, Ohio, trabalha com agentes de saúde no desenvolvimento das suas danças. Em Seattle, Washington, Pat Graney leva a dança aos presídios femininos. Na sua coreografia para "Urban Bush Women" (Mulheres da Selva Urbana), Jawole Willa Jo Zollar, de Tallahassee, Florida, trata das questões associadas com a identidade das mulheres negras americanas. E Ralph Lemon, cuja obra mais recente explora a maneira pela qual a identidade é criada pela raça e pela cultura, está entre os muitos coreógrafos em Nova York que trabalham nessa arena.
Mesmo nas companhias de dança moderna cujo trabalho se concentra nas preocupações puramente estéticas, existe, sem dúvida, uma atitude muito diferente a respeito das funções do corpo e do gênero. Tem surgido um reconhecimento cada vez maior sobre a maneira pela qual a dança tem sofrido restrições devido aos conceitos de perfeição física e "beleza", e está sendo feita uma tentativa de abrir as companhias de dança moderna para incluir as pessoas que teriam tido seu acesso negado até poucos anos atrás. Da mesma forma que a capacidade física dos dançarinos parece estar crescendo exponencialmente (como ocorre com os atletas) a cada ano que passa, está começando a surgir espaço nos palcos americanos para uma gama mais heterogênea de características físicas. Os coreógrafos mais jovens vêem cada vez menos a dança como meio de representar os papéis tradicionais dos gêneros da maneira que estes foram idealizados e oficializados no balé e na fase inicial da dança moderna. Hoje, as mulheres são parceiras dos homens e os levantam, e os homens podem demonstrar suavidade e vulnerabilidade.
Além disso, há uma nova tendência na dança que é ainda mais audaciosa nos seus desafios em relação à estética corporal - as companhias conhecidas como companhias de cadeiras de rodas. Essas companhias podem ser formadas inteiramente por dançarinos deficientes ou podem incluir um "mix" de dançarinos em cadeiras de rodas e dançarinos "em pé". A coreógrafa americana Victoria Marks, que atualmente mora em Los Angeles, chamou a atenção a essa forma de arte de maneira mais abrangente, pela primeira vez, com o seu filme Outside In, de 1994 (criado com a diretora Margaret Williams), que apresentava os membros da companhia britânica CanDoCo. Em 1997, a Boston Dance Umbrella desafiou suas platéias com a sua apresentação de um Festival Internacional de Dança em Cadeiras de Rodas [International Festival of Wheelchair Dance] que apresentava oito companhias de dança em cadeira de rodas, assim como grupos da Europa.
Outros artistas também estão confrontando os conceitos sobre quem pode dançar, abrindo um espaço em seus palcos para vozes até então nunca ouvidas, e novas experiências. Liz Lerman, diretora artística da Dance Exchange, organização com sede em Washington, D.C. , desafiou o conceito da idade na dança, expandindo sua companhia de modo a incluir membros com mais de sessenta anos, que ela chama de "dançarinos da terceira idade." Da mesma forma, o coreógrafo de Nova York, David Dorfman criou uma série de projetos que recrutam dançarinos não treinados em uma variedade de locais no país para executar versões personalizadas de danças que tratam das suas experiências de vida. O Everett Dance Theater, de Providence, Rhode Island, também tornou mais obscuras as linhas entre a ajuda e a arte, no seu enfoque em criar obras com mensagens sociais, que são desenvolvidas de forma improvisada e cuja forma é determinada pelo retorno recebido da comunidade sobre a qual a dança é executada. E a coreógrafa Ann Carlson, que mora em Nova York, se tornou conhecida graças à sua série "Real People" [Pessoas de Verdade], na qual ela criou danças para serem executadas por pessoas reunidas por uma profissão ou atividade em comum. Até agora o projeto incluiu advogados, policiais, jogadores de basquete, pescadores, violinistas, executivos, uma fazendeira e sua vaca leiteira, professores, freiras e peões (que tomam conta de cavalos).

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