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Curso: Introdução ao Discurso
Filosófico da Modernidade

Realidade e conhecimento no pensamento moderno

Continuação da apresentação

A existência de uma questão da modernidade - admito-o sem dificuldades - pode ser reconhecida em algumas outras épocas que não a nossa. Mas apenas em dois momentos históricos do passado ela teve alguma importância: no século XVI, no seio da famosa querelle des anciens et des modernes, e no século XIX com a filosofia da história de Hegel. E agora. Assim, uma pergunta torna-se inevitável: o que há em comum nestes três momentos históricos de forma que em todos eles um recorte no tempo e nas mentalidades tenha podido tornar-se o centro dos discursos e debates?

Creio poder propor uma hipótese bastante plausível. Os séculos XVI-XVII são aqueles em que se estabelece, pela primeira vez, a consciência de ruptura epocal, da introdução de novas intenções de pensamento e da invalidação das antigas. Um movimento que se começa a gestar desde o Renascimento. É aí, inclusive, que se cunha o vocabulário pelo qual se vai exprimir a nova "fronteira": moderno vs. antigo.

Em Hegel, por sua vez, "a consciência histórica do próprio tempo" (tema explícito do seu filosofar) é consciência de uma outra ruptura, em que propriamente não se retorna às categorias dos "antigos", mas tampouco mantém-se a visão de mundo dos (primeiros) modernos. Há descontinuidade entre a modernidade de Descartes e Kant e a "modernidade" de Hegel. Mas não é Hegel aquele que, como nenhum outro, dá forma filosófica à idéia de modernidade? Sem dúvida, mas a sua peculiar compreensão da ruptura epocal como autodiferenciação interna de um processo dialético, impede-lhe de entender o próprio tempo como uma nova fronteira de pensamento, diferente da modernidade. "Dialeticamente" o compreenderá, isto é, como a conservação e superação do momento anterior, como a verdade deste. Assim, a Neuzeit, com que Hegel exprime a "novidade", é entendida por ele como a "autêntica" modernidade, frente à qual aquela primeira é apenas uma modernidade "formal", destinada a ser completada e realizada. Em suma, se as categorias de Bacon, Descartes e Kant não valem mais no universo hegeliano, é porque encaminhavam-se para o seu desabrochar na visão de mundo hegeliana, sua verdade e superação.

A nossa época vive um padecimento semelhante na experiência agônica de que conceitos, imagens, modelos teóricos e linguagens que cimentavam o universo teórico e prático parecem não mais valer como elemento aglutinante. Engendram-se novos discursos, estabelecem-se novas práticas e novas formas de relação, constroem-se novas categorias, reconhece-se uma nova sensibilidade e um modo novo de sociabilidade. Há uma ruptura em processo. Mas ruptura de quê, qual é este "outro" diante do qual erguer a fronteira da própria identidade? Em nossos dias, toda a atenção está voltada para esta alteridade, cujo nome se declina de forma cada vez mais precisa: Iluminismo, Esclarecimento, Modernidade.

A nossa identidade, como todas as outras, constrói-se por exclusão: somos o que ele não é. Somos o anti-, pós-, neo-. Jamais aquele "outro". Claro que as diferenciações internas na própria identidade epocal estão em plena elaboração. A-modernos, anti-modernos, neo-modernos, pós-modernos não se deixam reduzir à homogenidade. Mas é o modo como se compreende o outro, a modernidade, que decide a configuração desta identidade opositiva. A não-modernidade tornou-se a metafísica dominante.

A questão da modernidade surge, então, como um grande desafio para as mulheres e homens deste final de século. A compreensão da identidade do nosso tempo está em jogo na compreensão deste "outro" diante do qual a sua identidade se constrói. Este desafio pode ser recolhido, evidentemente, de diversos modos. Pode-se, por exemplo, simplesmente perscrutar com olhar atento as práticas e os discursos espontâneos da nossa época e tentar algo assim como uma cartografia, uma espécie de "sociologia do pós-moderno", que já se encontra por aí. Mas se pode também engajar-se em abordagens mais distantes da concretude, mais abstratas, num horizonte conceitual e normativo, tentando-se firmar um campo conceitual que possa dar conta de tais práticas e discursos, uma "filosofia do pós-moderno" ou algo assim. É possível, enfim, procurar construir o "dicionário" e a "gramática" com o qual dizer-se a "novidade" dos nossos tempos, no qual expressar a alternativa que ele constitui em face de outras épocas.

Mas também está no espírito do desafio que a questão da modernidade nos impõe examinar a própria questão. Verificar se se trata de uma verdadeira questão, se são boas as categorias em que ela se diz, se são verdadeiros os problemas que ela compreende. Têm-se, assim, duas possibilidades bastante razoáveis. A primeira, consiste em atravessar os discursos que compreendem e sustentam as alternativas antimodernas, pós-modernas etc. examinando a sua consistência e a dos seus questionamentos e decisões. Desta possibilidade parecem estar nascendo as perspectivas "neo-modernas" (ainda que este termo não seja muito feliz) ou daqueles que, embora reconhecendo os defeitos ínsitos nos conceitos e projetos modernos, insistem em manter-lhe o "espírito" em outras categorias e noutra visão de mundo. É o caso, por exemplo, de Habermas e da sua Escola.

Uma segunda possibilidade consistiria em examinar a própria modernidade. Mas não para fazer uma história da modernidade: filosofia, política, literatura etc. É a alternativa que adota nesse curso. Devo, contudo, insistir na necessidade de evitar-se uma concepção equivocada destes estudos, a saber, a de entendê-los como uma história do pensamento moderno. A lê-los nesta perspectiva, eles serão um fracasso. Ainda que estes possam ser um fracasso por outros motivos, não o são por este. Na verdade, utilizo-me de um método que procura entrelaçar, inseparavelmente, no bem e no mal, reflexão teórica e reconstrução histórica das filosofias do passado. Os italianos distinguem entre história da filosofia e filosofia sistemática, entendendo-se por esta última a reflexão teórica que se ocupa com o tratamento filosófico dos problemas e questões de origem diversa. Não encontro dificuldade em afirmar que a minha abordagem é sistemática, só que se funda numa hermenêutica história - não meramente receptiva - das intenções de pensamento do passado.

Posso aduzir, a meu favor, porém, que este é um método já validado na história do pensamento. É bem verdade que só em Heidegger ele adquire a sua motivação e explicitação teorética, mas já a chamada Problemgeschichte dos neo-kantianos (cujo exemplo sumo encontramos em Cassirer) e a Escola de Joachim Ritter a utilizaram antes de Heidegger. Da mesma forma, Hegel e, parece, também Aristóteles na Metafísica utilizaram-se de uma abordagem deste tipo. Em nossos dias talvez o mais perfeito exemplo de uma hermenêutica reflexiva encontre-se no grandioso Verdade e Método de Hans-Georg Gadamer. Como se vê, estou em boa companhia, ainda que, certamente, o que aqui se oferece está muito distante destes exemplos ilustres. Mais importante, porém, é notar que o procedimento como tal não é injustificado.

Além do mais, é justamente o fato de se tratar de uma hermenêutica construtiva, que interroga o passado com as questões do presente, que há de impedir que estes ensaios possam ser compreendidos como uma investigação extemporânea. O que nos interessa é compreender nossa época e as suas formas, linguagens, categorias e discursos.

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