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Adentramos um novo século constatando,
entre perplexos e encorajados, que alguns dos
discursos mais significativos do nosso tempo
fazem emergir, de uma forma completamente nova,
a questão do conhecimento do mundo, da
realidade, do ser - o problema da experiência
humana. De toda parte, no âmbito da ciência
ou na vivência quotidiana, nos chegam
fragmentos de um discurso que enuncia a crise
de identidade do nosso tempo.
Esta crise tem várias faces. De um
lado, há a convicção, que
se vai fazendo imperativa, de que as categorias,
os temas e o dicionário com que pensávamos
a realidade e os modelos, formas e enciclopédias
interpretativas com que a sentíamos e
vivenciávamos parecem não mais
adequados à sensibilidade e ao modo de
pensar do homem contemporâneo, como tampouco
parecem suficientes - por razões "éticas"
ou gnosiológicas - para dar conta da
identidade da nossa época. Nos últimos
vinte ou trinta anos assistimos ao esforço
de "nomeação" dessa
identidade que se presume que era a nossa e
tudo indica que enfim, ela pode ser grafada
com o mesmo nome com que os pensadores dos séculos
XVII (e já um pouco antes) indicaram
"novidade" que eles próprios
representavam em face da última Idade
Média: Modernidade. Uma decisão
curiosa e não desprovida de problemas
- mas que certamente marca e determina a nossa
relação com a história
do pensamento ocidental que, a partir de então,
passou a ter um seu segmento (um período
que vai de Bacon e Descartes até o final
do século XIX) visto com grande cuidado
e suspeita.
Por outro lado, há o enorme esforço
- às vezes cuidadoso, às vezes
entusiasmado - de se estabelecer as fronteiras
e os limites do conjunto de alternativas de
que a nossa época se dota ante a "modernidade".
Um esforço que não se traduz apenas
nas tentativas de "nomeação"
da novidade, embora isso não possa ser
considerado secundário, mas no ensaio
de "fundá-la" - por mais paradoxal
que isto possa parecer. Quanto à "nomeação",
ela parece seguir os rituais psicológicos
normais da identificação: é
preciso primeiro "descobrir" o outro,
depois nos excluirmos dele, constituindo-nos,
portanto, como o não-outro, o não-ele,
nós. A "modernidade" é
o outro, a nossa época seria o outro
do outro, altrimentes que "modernidade",
a "não-modernidade", "a-,
anti-, contra-, pós-modernidade".
Mas o que significa ser isso? Por enquanto significa,
sobretudo, uma negação. Por isso,
a identidade da nossa época (entendida
como "pós-moderno" ou o que
quer que seja) depende da identidade da "modernidade",
este conjunto que se decidiu ser o nosso outro.
Trata-se, portanto, de esquadrinhá-la,
examiná-la, compreender o seu funcionamento,
o que ela afirma ou proíbe, porque, a
rigor, ao conhecê-la não é
a ela que pretendemos conhecer, mas à
nossa época.
Este parece ser o raciocínio que explica
porque a "modernidade", de repente,
justamente, no momento em que se professa (como
nunca antes) a sua invalidação
e superação, torna-se o tema da
moda, das discussões acadêmicas
aos talk-shows, da publicidade ao jornalismo
cultural. É claro que a modernidade já
foi alvo e tema de discussão na história
do pensamento. Mas neste caso (pensemos em Bacon
e Descartes e, mais tarde, em Hegel em quem
a terminologia enfim está amadurecida
e o "problema da modernidade" torna-se
uma questão filosófica) aqueles
que sustentavam a discussão afirmavam-se
"modernos" e com isso exibiam a superioridade
da própria época. Não é
o caso de o discutir aqui, mas é evidente,
em primeiro lugar, que a modernidade dos modernos
e a "modernidade" do par semântico
"modernidade" vs. "a-modernidade"
(ou "pós-modernidade") não
são co-extensivas e, propriamente, idênticas.
Além disso, a "modernidade"
do pós-moderno é um conceito operacional
e estratégico: é um contraponto
(psico-)lógico num processo de produção
de identidade.
Há também um paradoxal esforço
de "fundação" da identidade
da nossa época, a que estamos testemunhando
nestes dias. Paradoxal, na medida em que o fundamento
(Grund) é justamente uma das teses "modernas"
que se trata de questionar - mas deixemos também
isso em suspenso. Pois bem, a "fundação"
vai em dois sentidos. O primeiro deles, consiste
em fornecer uma espécie de justificativa
sociológica da superação
da modernidade, mostrando como as formas contemporâneas
das interações sociais (a nova
sociabilidade) e as transformações
hodiernas dos modos de significação
e sensibilidade não podem mais ser pensadas
e compreendidas pelas categorias modernas. A
"modernidade" não teria mais
sentido, porque as pessoas não se relacionam
de forma moderna, não codificam nem comunicam
de forma moderna, não pensam nem sentem
de forma moderna. O segundo sentido da "fundação"
consiste em recuperar teses, princípios
e postulados, daquilo que a modernidade excluiu
e baniu, de maneira a dar-se uma espécie
de legitimidade histórica pela própria
inserção na tradição.
Com isso criam-se "retornos" e revisitações
de intenções de pensamento de
outros tempos, mas também perfilações
estratégicas (às vezes problemáticas)
ao lado de correntes e idéias por muito
tempo esquecidas. Por isso os heideggerianos
tornaram-se leitores atentos e generosos dos
pré-socráticos (rebatizados como
"pensadores das origens"), os nietzscheanos
voltaram-se para a "época trágica"
dos gregos e outros promovem o retorno das brumas
pré-modernas com o seu "reencantamento"
do mundo.
Ora, é justamente pelo fato de que na
nova questão da modernidade entra em
jogo o destino da identidade da nossa época
que grande parte das energias intelectuais contemporâneas
parece voltada para isolar e examinar este conjunto
de teses, intenções de pensamento
e standards da nossa relação com
os outros - a "modernidade" - para
indicar o seu alcance, as decisões teóricas
e práticas de onde se origina e, sobretudo,
as suas conseqüências e limites.
Assistimos, nas últimas décadas,
a um fenômeno muito interessante no âmbito
das discussões sobre a cultura e a sociedade
contemporâneas. Uma época de pensamento,
isto é, um recorte temporal de paradigmas,
modelos e discursos teóricos, entra em
cena como objeto de investigações,
eixo temático e centro de controvérsias.
A modernidade, é dela que se trata, torna-se
a questão aglutinante de nosso tempo:
no debate acerca da modernidade tem se envolvido
boa parte das melhores energias intelectuais
contemporâneas, em todas as latitudes;
a partir da tomada de posição
em face dos seus temas e intenções
de pensamento têm-se estabelecido fronteiras
teóricas importantes; o verbete modernidade
torna-se, de repente, campeão absoluto
de títulos, nos mais variados campos
da cultura, da arquitetura à literatura,
da política à filosofia.
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