Gangues, posses ou centros culturais (Trecho da reportagem – Mais de 50.000 manos - de Marina Amaral )

"Eu já tinha visto no dicionário que posse em inglês é o mesmo que gangue – turmas de jovens agressivos e/ou armados que atuam em determinados territórios. Nos Estados Unidos, como me explicaram depois, a diferença é que as posses muitas vezes são financiadas por traficantes que patrocinam os rappers americanos em troca de "lealdade", no sentido mafioso da palavra. Marcelinho (Marcelo Buraco, um dos fundadores da Associação Cultural Negroatividades e rapper do grupo Profetas da Revolução) me explica que as gangues do break nos Estados Unidos ( e a partir dos anos 80 no Brasil ), apesar do nome, têm caráter pacífico porque buscam, exatamente, substituir a violência das brigas entre os grupos pela competição na dança e no grafite, que, com o rap, formam a trilogia sagrada do hip hop. No Brasil, as gangues continuam a existir mais ligadas ao que os rappers mais novos chamam de "velha escola", com os rappers Thaide e DJ Hum e Racionais MC, o produtor Milton Salles, os grafiteiros Gêmeos e os b. boys Nelson Triunfo, Marcelinho e Moiséis.

Já as posses, sem a conotação negativa dos americanos, começam a surgir a partir de 1989, quando os "antigos" – os pioneiros – fundaram o Movimento Hip Hop Organizado, o MH2O em um show comemorativo de aniversário de São Paulo (25/01) promovido pela prefeita recém-eleita, Luíza Erundina. Como observa a professora Elaine Nunes de Andrade em sua dissertação de mestrado para a faculdade de Educação da USP, ‘a nova escola' (que veio depois do MH2O ) formada por garotos, em sua maioria negros – o que difere da velha escola, que compreende ‘jovens adultos’ de outras etnias –, (...) organiza as posses para atender a compromissos de aperfeiçoamento artístico e desenvolvimento de ações políticas e comunitárias’".