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FIAT LUX

 

(MINIATURA MONOCROMÁTICA EM TRES FôLEGOS)

                                                            

 

Clapum, tran tran, clapum, tran tran, clapum, tran tran...

Fui me tornando só ouvidos...

Perdi o interesse pela história e deixei cair o livro.

Clapum, tran tran, clapum, tran tran, clapum, tran tran...

Abandonava-me àquele ritmo mon¢tono. Embalava-me no suave ir-e-vir.

Clapum, tran tran, clapum, tran tran, clapum, tran tran...

Olhava sem ver e via o verde, verde, verde, verde, verde, verde, verde, verde, verde, verde..

Clapum, tran tran, clapum, tran tran, clapum, tran tran...

A consciência cada vez mais se afrouxando, se perdendo num vazio onde só aquele ritmo existia, só aquele Som que se repetia, pulsava, incessante, regular, visceral.

Sonhei que sonhava.

Clapum, tran tran, clapum, tran tran, clapum, tran tran...

E de repente,

de um só golpe, sem aviso, sem gritos de gaivotas, sem pipilar de pintarroxos ou cotovias, sem canto de cigarras, sem lusco-fusco, sem anoitecer, a Escuridão.

Só o Escuro e aquele Som.

Clapum, tran tran, clapum, tran tran, clapum, tran tran...

Sufocando...Eu estou sufocando !

Tossi, puxando o Ar aos arrancos, sentindo arder meus pulmões.

Ar! Ar! Eu quero Ar!

E fui tragado pelo turbilhão.

Clapum, tran tran, clapum, tran tran, clapum, tran tran...

Acordei com os uivos dos que, estando despertos àquelas horas, foram os primeiros a perceber o Desastre e sucumbiam ao terror, ao desespero.

Esfreguei as pálpebras, engolido pelo Escuro, devorado pelo Medo, agoniado por aqueles gritos, aqueles uivos de dor. Minha mão escorregou até‚ o abajur da mesa de cabeceira e ouvi o clique do interruptor, mas o quarto não se iluminou.

Fui tomado por uma pavorosa antecipação de tudo que estava por vir. Não, meu Deus, isso não ! Por favor, não !!!

Tateei em busca dos fósforos. Ouvi a cabeça do palito correndo por sobre a lixa. Senti o cheiro da pólvora queimando, mas o quarto não se iluminou.

Cambaleei, apalpando as paredes, até‚ onde sabia estar a janela e, num último gesto de esperança, numa última tentativa de escapar a tudo aquilo, escancarei-a em busca do Ar, em busca da Luz.

Lá  fora, na Escuridão, os uivos continuavam.

E então, lentamente compreendi e invadiu-me a terrível, absurda certeza.

Cego ! Eu estava cego !

Naquela Noite, como em todas as outras Noites, o Escuro havia baixado sobre a Terra. Naquela Noite, como em nenhuma outra Noite, o Escuro nada tinha a ver com a Noite ou o Amanhecer.

Os Homens, todos os Homens, haviam ficado cegos.

Passado o horror dos primeiros momentos, passada a descrença das primeiras horas, decidi que minha única chance de sobreviver ao Desastre estava em não sair dali. Minha segurança era aquele pequeno mundo, aquele refúgio que eu tanto conhecia e que podia, pelo tato, reconhecer. E deixei-me ficar, envolvido por aquelas paredes, naquela caverna, naquelas entranhas, naqueles princípios.

E passou a reinar o Pânico, Pai do Caos e da Morte. E foram dois dias de ausências, desencontros, perdas, tiros e abraços, vômitos, fezes e esmagamentos, beijos e sangue, corrimentos e correrias, lamentos de viúvas e unhas em carne-viva se encravando pelos muros dos becos e vielas.

Ao final do terceiro dia, o que mais se ouvia era o choro das crianças famintas, abandonadas pelos pais que vagavam sem rumo, uivando pelas ruas da Escuridão. Veiu depois o miasma pestilento dos corpos mortos, que apodreciam por toda parte, comidos por cães e ratazanas, roídos pelos vermes e lacraias, enquanto eu aguardava, encolhido naquelas entranhas, eu aguardava.

Na Escuridão, não havia Sono ou Vigília e eu deixava-me simplesmente escorregar por aquele tempo de bréu, flutuando naquele espaço escuro, denso, quente, espesso, á espera, somente à espera. Até‚ quando ? Até‚ quando, meu Deus ?

Eu quero voltar à tona ! Eu quero sair daqui ! Eu quero Ar ! Ar !

E rezei. Pela primeira vez em muitos, muitos anos, rezei. Como nos tempos de criança, quando acordado no meio da Noite, nos paroxismos da asma, sentia aquele desespero, aquele pavor, aquelas mãos com seus dedos enormes que se apertavam em volta de minha garganta, silenciavam meus gritos, esmagavam meu peito.

Ar ! Ar ! Eu quero Ar!

Minha Nossa Senhora da Luz, minha Santa Luzia, minha Santa Clara, meu São Bernardo do Campo, façam alguma coisa! Por favor, façam alguma coisa ! Me livrem deste maldito sonho ! Me tirem dessa maldita história em que esse sádico me meteu!... Perdoem os meus pecados, tragam-me de volta o Mundo...

E então, como por encanto,

clapum, tran tran, clapum, tran tran, clapum, tran tran,

clapum, tran tran,

de um só golpe, sem aviso, sem galos cocoricando, sem cantos de bentevis, sem brisas do Norte ou Leste, sem orvalho, sem amanhecer, a Luz se fez, ferindo meus olhos com torrentes de brilho e cor, trazendo de volta o verde, trazendo de volta o Mundo, trazendo de volta o Ar.

E o Trem saiu do Túnel, apitando o fim da longa Agonia.

PIUIIIIIIIIIIII........

Relaxei na poltrona, retomei o livro abandonado e novamente perdi-me por entre as trilhas estreitas daquelas letras miúdas que contavam um história pueril absurda e implausível, como convém sejam as histórias contadas ou recontadas ao Som monótono do escorrer de uma longa viagem de trem.

Clapum, tran tran, clapum, tran tran...

Clapum, tran tran, clapum, tran tran...

Clapum, tran tran, clapum, tran tran...

Clapum, tran tran, clapum, tran tran...

Clapum, tran tran, clapum, tran tran...

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Salvador, outubro de 1992.

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