Se
eu soubesse que aquela era a sua cidade, teria olhado melhor, prestado mais atenção. Foi só um quadro na janela do trem, um quase nada, na parada.
Só ficou mesmo a impressão do calor. Daquele calor, e daquele menino vendendo picolés, com olhos remelentos e voz arrastada, me-compra-me-compra-me-compra-tio.... Foi só o que ficou.
E a visão daquele homem gordo, saindo da farmácia, devagar, bem devagar. Se eu soubesse, teria olhado melhor. Talvez até tivesse descido. Apesar do imenso calor e da voz arrastada e dos olhos remelentos do menino. Quando ela me disse de onde era, me veio imediatamente a lembrança daquela estação, com a cidadezinha ao fundo, a rua principal, o armazém, a farmácia, muitas bicicletas, talvez um coreto escondido por detrás das árvores da pracinha, o coreto que não vi, mas adivinhei, com suas grades de ferro batido pintadas de azul, seu telhado de cobre azinhavrado e um cachorro velho, largando pelos e dentes, dormindo à sua sombra.
Quando ela me disse de onde era, me senti novamente no trem, sofrendo aquele calor, ouvindo aquela voz arrastada do menino dos picolés, me-compra-tio-me-compra... Mas não, descido eu não teria, de jeito nenhum. Quem desce ali, por ali fica, para sempre. É esse tipo de lugar, dá essa impressão, mesmo da janela do trem, parecendo aquelas cidadezinhas que a gente vê nos filmes americanos, absolutamente iguais a milhares de outras, pacatas e perdidas no Meio-Oeste, onde se chega por acaso ou acidente, mas onde tudo acontece e dez ou vinte cenas depois você está metido na maior encrenca, ou no maior terror.