Fácil amar chocolate, fácil montar um espetáculo de dança
contemporânea. A fonte é única - e juram - inesgotável:
o cotidiano. Haja bailarino se coçando, escovando os dentes
e removendo secreção do olho. Sim, porque há profundidade
em tirar remela! Ora, os olhos não são o espelho da alma,
tolos?
Na pele dos bailarinos, com seus corpos espartanos, são
projetados slides de coisas esquisitas: sangue, pétala de
rosa e neve. Depois de repetir um movimento à exaustão e
arfar bastante, o bailarino chega à catarse proclamando
um texto: "A vida é uma roda gigante!".
E mais: rapel, cenários épicos, linóleo, luz lateral, bailarinas
com peito na rua e até a própria roda gigante. Tudo cabe.
Contudo, não sejamos injustos, a dança corre perigo desde
a criação do ballet clássico, com suas diagonais de tombé,
padeburré, glisage, grand jeté. Por que você estagnou aí,
cisne branco?