Em
1510, Diogo Álvares Correia, que destinava-se às Índias, termina naufragando na Baía
de Todos os Santos. Os índios Tupinambás pescam a tripulação e a devoram. Apenas um
sobrevive, é poupado pela tribo por ser extremamente magro e alto, não sendo, portanto,
um bom "prato", fato que explica o apelido que lhe foi dado e como passou a ser
mais conhecido : Caramuru. ( Caramuru ou moréia é um peixe esguio e comprido
característico da região). Ele conquista a confiança dos índios e casa-se com a filha
do cacique Taparica, a Paraguaçu , que recebe posteriormente o nome Catarina, em seu
batismo na França. Surge daí o primeiro núcleo de povoamento da baía. Localizava-se
entre o bairro da Graça e a Vitória, e, acreditam alguns historiadores, foi chamado de
Salvador em alusão ao naufrágio. Foi considerado um patriarca, sua prole foi tão
numerosa que Gregório de Matos o chamou de "Adão de Massapê" ( massapê :
terra argilosa da Bahia, ideal para cultura da cana-de-açúcar.) a miscigenação, hoje
traço marcante da cidade, tem aí seu início.
Portugal, no entanto, pouco estava interessado com o que se passava por aqui. Não tendo
encontrado metais preciosos como a Espanha em suas colônias, ocupava-se com o ainda
rentável comércio de especiarias da Índia. Apenas com a ameaça dos recém -formados
estados nacionais da França, Inglaterra e Holanda, que, por ter sido tardia, ficaram de
fora do tratado que dividia o mundo entre os países ibéricos, Portugal decide ocupar a
colônia, para evitar a perda. D. João III, monarca português, divide, então, o Brasil
em capitanias hereditárias, medida colonizadora mais adequada para a situação - reduzia
os investimentos diretos da coroa, já que cabia ao donatário zelar pela defesa e
geração de riqueza explorável na colônia e , evidentemente, pagar imposto.
A capitania da Bahia foi doada a Francisco Pereira Coutinho, que chegou aqui em 1536 e
fundou a vila da Bahia, no lugar onde ainda se localizam o Forte de São Diogo e a Igreja
de Santo Antônio da Barra. Conta-se que a tripulação que o acompanhava assustou-se com
a presença de um branco entre os nativos; era Caramuru, agora seu mais próximo vizinho.
Pereira plantou algodão e cana-de-açúcar, mas seus esforços de povoamento têm fim um
ano depois, com um naufrágio também na Baía de Todos os Santos. Neste dia, a refeição
foi farta na tribo tupinambá, prato principal : Francisco Pereira Coutinho. Caramuru
funde as duas vilas que passam à denominação geral de Vila Velha, em contraposição à
cidade posteriormente fundada.
A capitania da Bahia não foi a única a fracassar. A falta de recursos para investimentos
e de segurança, o isolamento das capitanias entre si foram fatores que se somaram
definindo o malogro. D. João, também preocupado com o poder absoluto dos donatários em
suas capitanias e desconfiado da sonegação dos impostos, implanta um governo geral que
pudesse centralizar os interesses da coroa. A família de Pereira Coutinho, não querendo
dar continuidade ao empreendimento, vende a capitania a Portugal, onde, então, fundaria a
sede do governo geral. A idéia de D. João era "mandar fazer uma fortaleza e
povoação grande e forte, em lugar conveniente". O encarregado da missão era Tomé
de Souza, primeiro governador geral do Brasil, que chega aqui em 1549, no dia 29 de
março, data oficial de nascimento da capital ( no calendário católico, dia do São
Salvador, fato a que outro grupo de historiadores atribui o nome da cidade).
Nos primeiros dias, sua tripulação ocupou a Vila Velha (liderada por Caramuru), povoado
pouco próspero e cuja localização parece não ter agradado Tomé de Souza, que veio a
estabelecer a primeira cidade do Brasil onde hoje é a Praça Municipal. Os desenhos e
plantas de construção vieram do reino. Seus limites eram os seguintes :
* ao sul : pela porta de Santa Luzia, no sítio onde hoje a Rua Chile encontra-se com a
Praça Castro Alves.
* ao norte : na porta de Santa Catarina, no limite atual entre a Praça Municipal e a Rua
da Misericórdia, junto à esquina com a ladeira da Praça.
* pela face leste : uma barroca pequena - chamada Barroquinha.
Nascia Salvador, que seria a porta do Brasil, capital do Atlântico Sul até 1763.
Começava a efetiva ocupação do Brasil pela administração lusitana. |