Textos & Poesias

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  "Deus é aquilo que me falta para compreender o que eu não compreendo".

Nascer horrendo e triste
E cego e louco
Sem mãe, sem pai, sem fé, sem nada
Um pouco de lama abandonado no caminho
Sem ter de meu um gesto de carinho
Nascer assim? Tá bem
Mas nascer livre.
Viver desiludido, abandonado
Viver desconhecido ou desprezado
Beber do ódio sempre o amargo vinho
Viver sem um amor!
Viver sozinho
Viver assim... Tá bem
Mas viver livre.
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Morrer sem no momento da partida
Uma lágrima notar mesmo fingida
Morrer... abandonado num caminho
Sem ter de meu um gesto de carinho
Morrer assim? Tá bem
Mas morrer livre.
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De tanta teimosia
Na burrice que eu insistia
Demorei pra ter certeza
De que a maior beleza
Tava em mim porque eu sou
O meu próprio seguidor
Hoje não creio em bestalhos
Em tarô e seus baralhos
Que se dane quem procura
Nego todas as culturas
pastor.jpg (18463 bytes) Não tem nada mais nojento
Do que quem crê num pensamento
Acho todo mundo burro
Quero tanto dar uns murros
Essa vã necessidade
De pensar que é verdade
Todo mundo acredita
Isso muito me irrita
Eles tem que ter um fim
E eu só acredito em mim.
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O Nirvana Sagrado (O Homem Que Não Podia Pensar) - 1970
Andrônico não podia dormir. Havia fumado seis cigarros, um atrás do outro.
Consumiu um bule de café, que ele sempre conservava em cima da mesa de cabeceira para o caso de insônia.
Trocava  de cuecas de minuto em minuto. Calor.
Experimentava as mais estranhas posições e não achava comodidade.
De repente uma mosca. Só faltava essa! Além do calor, uma mosca.
Seus olhos voltaram-se para o inseto. Será ele? Agora o medo. O medo horrível do Pensamento que se camufla em pássaro e penetra, sorrateiramente, no seu quarto de insônias.
No silêncio o zunzum da mosca.
Não, não era o Pensamento porque se fosse ele já teria atacado. Ademais, ele é pássaro e não mosca.
Pensando assim, riu satisfeito de sua conclusão lógica.
Não demorou muito para ele voltar a ficar sério. Acendeu mais um cigarro.
A insônia era uma porta aberta para o bicho. Se ele estivesse dormindo nada disso estaria se passando.
O calor agoniento. A espera do pássaro. Sensações de mal-estar e náuseas no estômago.
De repente, apontou um clarão na veneziana.
Meteu-se  debaixo da cama e lá ficou até concluir que  estava trovejando. Já havia visto isso antes mas sempre se assustava. Não havia mais fumo na sua latinha. Os olhos lhe saltavam da órbita. MEDO.
De repente, apontou um clarão na veneziana.
Meteu-se  debaixo da cama e lá ficou até concluir que  estava trovejando. Já havia visto isso antes mas sempre se assustava. Não havia mais fumo na sua latinha. Os olhos lhe saltavam da órbita. MEDO.
Andrônico. Magro. Vinte e cinco anos. Coberto de rugas no rosto. Olheiras... acordado...
O calor abrasador que fazia no quarto era sinal que a chuva não tardaria a chegar. Tentou uma nova posição. Fracasso. Quando ardia o colchão ele revezava com o frio do assoalho.
Isso o confortava e por alguns minutos gozava daquele novo local vindo vez por outra a saturação.
Seu quarto era pequeno. Pequena era sua força. Desapareceu.
Mas ele não iria desistir assim. Havia de voltar. Ele ia voltar. Lembrou-se de alguns exercícios fisícos e os colocou em execução, com alguma alegria e entusiasmo.
Cansado, voltou para a cama.
Ia encontrando uma certa comodidade no leito quando lhe apontou no telhado o pássaro!
Sabia. Ele sabia que o bicho não desiste assim. Cansado de ter medo tateou com a mão nervosamente pela escrivaninha e, segurando o que primeiro encontrou, arremessou o abajur de encontro ao teto.
Espatifou-se o abajur e inútil foi o barulho. O bicho ainda estava lá. O Pensamento não desiste!
Ele agora o espreitava do canto do armário.
O ambiente estava cada vez mais denso. Sufocava e em busca de ar, claustrofóbico, Andrônico agarrou uma camisa que se encontrava no sofá e saiu se abotoando porta afora.
Instintivamente foi à garagem onde estava sua nova motocicleta. Mal esperando esquentar o motor, arrancou estrondosamente pela rua silenciosa onde a máquina gigantesca "Indian" agredia a calma da madrugada.
O motor urrava pelas ruas, o que fazia Andrônico gargalhar tantas vezes quantas olhava para trás.
Tudo passava rapidamente. A vida, o pensamento, o pássaro, o vento e o tênue colorido das casas...Já a sua percepção não funcionava e tudo era um amontoado de cores fracas à sua volta. 
O vento ia com ele. Estava em seus cabelos, em sua camisa, nos seus olhos, sentia-o em toda parte. Agora sim. O Pensamento ficou para trás. Não sabia se ria ou chorava.
Mantinha a cabeça ereta e a boca aberta mostrando os parcos dentes. Engolia o vento que secava sua boca. Os primeiros raios de sol bocejavam quando uma chuva grossa escorreu de cima.
Acelerou o motor parabenizando o dia que chegava, tamanha era sua velocidade!
Voava a 130 km quando ganhou a pista da praia. Estava tão leve como o vento. Tão frio como a chuva que chicoteava seu corpo. Apontou a motocicleta para a praia e ganhou o mar adentro...
Andrônico, realmente, tinha a mania tão humana de pensar...
O Pensamento de Raul Músicas A Sociedade Alternativa
 
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