Veneno da lata
Setembro de 1987. Nesta época na costa brasileira, região de Angra dos Reis, a população litorânea testemunhou um acontecimento insólito e único no planeta. Acuada pela Polícia Federal e Marinha Brasileira, a tripulação do navio panamenho Solana Star despejou no litoral fluminense 22 mil latas de maconha. As latas, levadas pelas correntes em alto mar chegaram em diversas praias do litoral carioca e paulista e provocaram um tremendo fluxo de maconheiros e policiais na região. Cada lata continha em torno de 1,5 Kg de maconha. O navio que vinha da Austrália tinha como destino o Panamá. Durante muito tempo ficou a história: “Hoje vai ter um da lata, vem aqui na minha casa que tem um da lata”... passou a ser uma espécie de referência daquele verão.

 

Desde o século passado a chamada alta cultura ocidental mantêm um flerte, mais ou menos aberto com a cannabis. Longe de restringir-se a marginais e roqueiros de nossos dias, o uso da droga tem sido comum nos últimos 150 anos entre escritores, poetas, pintores, psiquiatras e até mesmo presidentes. Em 1844 já funcionava em Paris, então centro da inteligência mundial, o Club des Hashishins, freqüentado por poetas como Charles Baudelaire, que por volta desta época escreveu “O Poema do Haxixe”. A lista de chapados ilustres e letrados ocuparia gigabytes, mas não se pode deixar de mencionar Rimbaud, Walter Benjamin, Alexandre Dumas, Lewis Carroll, Aldous Huxley, Henry Miller e Paul Bowles. Na década de 50 William Burroughs escreveu: “É lamentável que a cannabis, com certeza a mais segura das drogas psicoativas, esteja sujeita às mais pesadas sanções legais”. A partir dos anos 60, tornou-se quase impossível citar alguém que tenha destacado-se nas artes e na cultura e nunca tivesse fumado um baseado.

E numa época em que alta cultura se mistura com alta política, vale sempre lembrar que nosso próprio presidente admitiu, anos atrás, numa entrevista à Playboy, ter experimentado a erva. Durante as eleições presidenciais de 92 nos EUA, o então candidato Bill Clinton, também admitiu já ter fumado, mas tentou livrar a cara garantindo que não tragou a erva. A democracia americana fecha um ciclo: seu primeiro presidente, George Washington, possuía uma plantação de cannabis para consumo próprio. Está nas anotações feitas nos dias 12 e 13 de maio e 07 de agosto de 1765 no diário mantido pelo fundador da nação americana.

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