Iracema Margarida de Jesus Castro

 
Entrou no candomblé desde criancinha - sua mãe era também mãe-de-santo - e se descobriu "filha de Oxum". Não seguiu todos os preceitos da crença, mas mantém hábitos sagrados, como o uso de roupas amarelas, visitas regulares ao terreiro, despachos periódicos e uso de patuás.

Em termos de baianidade, Iracema também se encaminhou para a secular profissão dos quitutes típicos: ela é baiana de acarajé. Aprendeu o ofício com sua avó, renomada baiana da praia de Armação, cujos pratos eram disputados com avidez por nativos e turistas. Chegou a preparar carurus servidos na casa de Jorge Amado.

A menina Iracema foi crescendo numa comunidade pobre de Itapuã, e teve uma infância rica em vadiagem, nas tardes que passava no Abaeté, tomando banho na lagoa e rolando pelas dunas de areia fofa. Até a adolescência não precisou ralar muito, porque sua família matriarcal (ela não conhecia o pai, até porque sua mãe se virava muito bem sem ele) fazia de tudo para oferecer-lhe uma vida melhor.

Não aproveitou a chance que teve para estudar e não chegou a concluir o primário. Sabia apenas desenhar o próprio nome e fazer algumas contas de somar e subtrair para ajudar a avó nas vendas. Mesmo tendo a hereditariedade de mulheres exímias no que faziam, Iracema acabou se tornando uma cozinheira média e também não era muito bem vista no terreiro que frequentava. Seu maior problema era uma espécie de preguiça de fazer qualquer coisa que prestasse. Ainda assim, é uma pessoa batalhadora, uma "mulher de cabelo nas venta" e tenta driblar a pobreza como pode.

É uma pessoa de bom coração e conhece um pouco sobre cada vizinho. É um tanto bisbilhoteira, mas não chega a afetar a vida de ninguém, sabe apenas o suficiente para melhorar sua convivência com as pessoas, e mesmo isso não adiantou para salvar seu casamento. Depois de separada, percebe a verdade que norteou a vida de suas antepassadas: ruim com eles, melhor SEM eles...

Acabou por tornar-se uma mulher malandra. Não deseja mal a ninguém, mas enrola as pessoas como pode, sempre tirando alguma vantagem de quem engole sua lábia. Hoje, ela sobrevive às custas dos fregueses que se submetem a seu acarajé produzido com "revolucionárias técnicas de economia" e rebola para manipular as dívidas e viver dignamente no apartamentozinho que herdou de sua mãe no Palais du Bordeux

 
Volta pra casa, vagabundo! Vai pra dentro do Palais du Bordeux
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