Sociabilidade contemporânea, Comunicação Contemporaneamente, o processo de redefinição das novas formas de sociabilidade conta com modalidades outras, distintas em relação às formas concretas e estáveis que definiam a sociabilidade tradicional e, até, moderna. São, assim, "aleatórias, fluidas e movediças, abertas em permanência e constantes variações" (Rodrigues, 1994:218), onde uma mesma pessoa chega a desempenhar uma grande diversidade de experiências, podendo pertencer a uma ou mais coletividades, simultaneamente ou não. Nesse sentido, a penetração dos dispositivos mediáticos, responsáveis pela nova experiência que se instaura no planeta, teria um papel instituinte no processo de construção de identidade dos grupos sociais que vêm emergindo na contemporaneidade. Grupos esses que adquirem características semelhantes em qualquer parte do mundo, sem contudo, deixar de possuir especificidades, pois a questão não seria unicamente estar imerso em um processo global, mas ter suas identidades, muitas vezes, constituídas a partir deste. É, inclusive, o que parece se confirmar em relação ao grupo funk "Black Bahia" do Periperi 1 . O funk do Periperi, embora possua algumas características manifestas em relação aos grupos sociais emergentes - e no caso a comunidade midiática 2 exerce um papel preponderante na formação deste - não pode ser tratado unicamente como tal, pois existem algumas variáveis que devem ser observadas com cuidado. Trata-se de um ajuntamento onde a maioria dos frequentadores é negra-mestiça, além de ser localizado num bairro periférico no subúrbio de Salvador, dados relevantes quando se trata da construção de identidade, seja em que âmbito for. No entanto, vale ressaltar, nesse contexto, o caráter minimizante que a identidade étnica parece adquirir, apesar da ambiência sugerir a possibilidade de um grupo étnico. O presente artigo pretende, então, introduzir uma reflexão sobre o processo de redefinição das novas formas de sociabilidade diante dos dispositivos mediáticos, relativizando a etnicidade como elemento de determinação na construção da identidade coletiva e propondo outros parâmetros para se pensar uma identidade mais aberta no tocante aos grupos sociais emergentes na contemporaneidade e, em particular, no caso concreto dos bailes funk do "Black Bahia", realizados em Salvador. Uma das características das novas formas de vida social na contemporaneidade é a efemeridade, onde os grupos, ao mesmo tempo são formados e desfeitos e se organizam "conforme as ocasiões que se apresentam. São agrupamentos que se esgotam na ação" (Palacios, 1993:15). Outra característica apontada seria a ausência de um projeto comum. "O projeto, o futuro, o ideal já não servem de cimento para a sociedade, o ritual, confirmando o sentimento de pertencimento, pode representar esse papel e, assim, permitir que os grupos existam" (Maffesoli apud Palacios, 1993:1). A mola propulsora desses grupos parece ser, pelo menos aparentemente, o desejo de compartilhar interesses múltiplos de acordo com o momento. Essas características da socia(bi)lidade contemporânea vêm a configurar, segundo Maffesoli, um novo tribalismo, que, ao contrário do tribalismo clássico, que tinha a estabilidade como forte característica, seria caracterizado pela fluidez, pelos ajuntamentos pontuais e pela dispersão. Tudo isso apoiado em uma lógica do "estar junto à toa", com os membros do grupo se encontrando com a finalidade específica de "compartilhar a paixão e os sentimentos, tendo como única razão a preocupação com um presente vivido coletivamente" (Maffesoli, 1987:104,105,107). O baile funk O baile "Black Bahia" foi inaugurado há aproximadamente quatorze anos, e, desde então, vem funcionando aos domingos (exceto o domingo de carnaval) das 20h às 23:20h, no bairro Periperi, zona suburbana da cidade. O ajuntamento chega a contar com dois mil frequentadores por noite, que participam da festa de diversas maneiras. Existem os grupos permanentes (cerca de dez), que geralmente frequentam o baile todo domingo, com o mesmo ritual dançante, onde, distribuídos pelo salão, apresentam coreografias ensaiadas previamente; aqueles com dois, três ou quatro componentes, como, também, participantes que dançam sozinhos ou circulam pela quadra na tentativa de aprender uma das coreografias. A festa ainda é formada pelas muitas pessoas que ocupam as laterais da pista que, ora dançam , ora apenas assistem aos movimentos alheios (Silva, 1995:296-7). O formato do baile inclui, além do funk, a música lenta e, em pequena proporção, pagode e música baiana (gêneros tocados no finalzinho da festa). Mas o grande motivo que os leva ao baile, segundo depoimentos, é o funk. Em uma dimensão quantitativa bem menor que a do Rio de Janeiro, mas com uma euforia que não deixa a desejar, o baile consegue ter uma dinâmica contagiante até para quem vai pela primeira vez. A maioria dos participantes, que hoje inclusive fazem parte de algum grupo, contam que se sentiram seduzidos pelo ritmo funk desde o dia em que viram o baile depois de atravessar a roleta de entrada, levados pelo irmão mais velho ou por um amigo. No começo do baile o som tocado não poderia ser outro: funk, o que os participantes chamam de "funk pesado"- aquele com batidas fortes e rápidas. No meio da festa acontece o "Toque do Amor" ou as lentinhas, onde o locutor, geralmente um dos DJs, sussura baixinho no microfone o conteúdo dos bilhetes enviados ao palco. A terceira parte do baile é reservada ao funk mais "maneiro", também conhecido como melody. E antes mesmo que o sangue esfrie, os melôs chegam para esquentar, pois a animação aumenta e com ela a participação dos frequentadores ganha uma dimensão bem maior. Por fim, um pouco de pagode e uma pitada de música baiana. Tudo isso sob uma iluminação carregada com spots de cores vibrantes, refletores e néons. Além de painéis coloridos que dão o tom, sem perder o ritmo, onde o reflexo do jogo de luz nessas imagens desenhadas proporciona um movimento similar ao que acontece do lado de baixo do palco: um quebra-cabeça cujas peças são pessoas se movimentando sincronicamente para lugar nenhum. Quando o portão é aberto e as luzes são acessas, todos saem quase que enfileirados. Mas acabou apenas por hora, talvez por isso ninguém se preocupe em pedir bis, pois fica a certeza de que no próximo domingo tem mais. Depois do primeiro contato com o baile, a história é muito simples: aprender a dançar e entrar em um grupo. Dados os dois primeiros passos, frequentar o baile assiduamente torna-se imprescindível para um "funkeiro" de verdade. Dançar é outro forte elemento que compõe essa "identidade"; e dançar bem; dar tudo de si; suar dançando; mostrar que sabe os passes das coreografias e que sabe vibrar quando for preciso brigar verbalmente com o grupo adversário, mas nada de violência, "o funkeiro de verdade não gosta de violência". Outro detalhe: se não pode ir ao baile por algum motivo, o funkeiro tem que escutar funk em casa. O "funkeiro" tem que curtir funk sempre, "de preferência todo dia". Essas são as respostas quando a pergunta é: O que é ser um funkeiro típico? Nesse sentido, "os funkeiros" possuem algumas características relativas aos grupos que vêm emergindo na contemporaneidade , sem contudo, perder suas especificidades. Vejamos agora porque a etnicidade, nesse caso, não parece ser fundamental no processo de construção da identidade desse grupo. Etnicidade, etnia, identidade étnica A noção de etnicidade utilizada por Eugenia Ramirez Goicoechea, segundo ela, não é uma noção que apenas enfatiza a criação de limites e critérios de auto-adscrição subjetivos, "mas é a de um discurso social determinado que quer recuperar/ recriar determinados fatores objetivos de diferenciação cultural, eleitos arbitrariamente e que considera como diacríticos em termos de inclusão/exclusão, com o objetivo de aglutinar certas coletividades em um projeto social e de poder concreto". Nesse sentido, para ela, etnicidade seria uma construção social no tempo, um processo que implica uma relação estreita entre a reivindicação cultural e a reivindicação política "e que tem como referencial último, não apenas os outros, mas também o Estado/Nação no qual o grupo étnico (portador de tal reivindicação) está inserido" (Apud Brandão, 1986:48). Carlos Rodrigues Brandão considera o grupo étnico como um tipo organizacional próprio e culturalmente diferenciado de outros. Uma categoria de articulação de tipos de pessoas que, por estarem historicamente ligadas por laços familiares, relações de parentesco, como também clãs, metades, aldeias e tribos, e por viverem e se reconhecerem vivendo um mesmo modo peculiar de vida em comum e representação da vida social, estabelecem para eles próprios e para os outros "as suas fronteiras étnicas, os seus limites de etnia" (Idem: 145). E etnia, como ainda esclarece ele, pretende ser um termo científico que "substitua uma idéia arcaica e carregada de preconceitos: raça, e que livre o pesquisador do vago que a idéia de cultura sugere para o caso" (Idem: 9) A outra vertente, a identidade étnica ou identificação étnica "refere-se ao uso que uma pessoa faz de termos raciais, nacionais ou religiosos, para se identificar e relacionar-se aos outros" (Oliveira, 1976:02-03). Assim, a identificação étnica possui uma característica de auto-atribuição e atribuição por outros. A partir disso, quando as pessoas se valem da identificação étnica para classificar a si próprios e aos outros com propósitos de interação, elas formam grupos étnicos em seu sentido de organização (Silva, 1993:40). Bem, esses três termos: etnicidade, etnia e identidade étnica são, na verdade, variantes uns dos outros. O que interessa, então, é tentar perceber tais conceitos dentro do contexto em estudo. Nesse sentido, a etnicidade, adquire uma feição mínima no universo do baile funk do Periperi, uma vez que não existe uma reivindicação cultural, tampouco política durante o momento da festa. O que parece haver é um desejo primeiro de dançar, namorar, ouvir música, conversar, encontrar os amigos, enfim, interesses múltiplos que passam pela tangente de qualquer reivindicação, seja de que ordem for. Apesar da antropologia ainda se utilizar dessas categorias analíticas nos estudos contemporâneos, alguns antropólogos tentam relativizá-los. Michel Agier, por exemplo, considera que a noção de etnicidade não apresenta nenhum conteúdo em si. "É um significante disponível, receptáculo apenas definível negativamente: ela designa um universo de práticas, instituições e representações, que não é aquele das classes sociais, nem o das raças, nem somente o universo da cultura. Sendo assim, a formação da sua substância própria remete logo aos universos conexos do racismo, das cultura, da organização social" (Agier, 1991:60). Para Agier, falar em situação de contato leva logo à necessidade de tomar como ponto de partida a dimensão sociológica da etnicidade (Amselle apud Agier, 1991:07). E essa dimensão apareceria claramente nas situações modernas e urbanas. "Ao mesmo tempo mosaico e espelho, a cidade é um operador de etnicidade, pois impõe contatos, classificações e a necessidade de se identificar frente aos outros e ao olhar dos outros. Há, na cidade, um embate permanente e generalizado de valorizações e hierarquizações de traços físicos, sociais ou culturais" (Agier, 1991:07). Nessa perspectiva, o universo cultural do baile funk no Periperi convive, de modo sutil, com essas hierarquizações, pois é importante para um "funkeiro" ser visto como tal, através das vestimentas, indumentárias e corte de cabelo, mas, muitas vezes, isso só interessa em determinados contextos, como no bairro ou em alguma festa ou evento. No trabalho, por exemplo, pode não ser interessante ser identificado desta maneira. Mesmo quando Agier considera que de uma maneira geral, "todos os casos empíricos mostram que a auto-adscrição étnica, tanto quanto a imposição externa da etnicidade, são atos de estratificação e dominação, de busca de resistência ou de hegemonia de um grupo sobre outro(s)" (Idem: 08), ele acredita que "de um ponto de vista sociológico, as comunidades raciais e/ou étnicas existem enquanto tipos de estamento, no sentido weberiano: elas são uma forma de agrupamento de vários traços distintivos, agrupamento cuja formação (interna e/ou externa) é determinada por seu papel de incorporação política, em relação à distribuição de poder na sociedade global (Idem: 09). Ou seja, a etnicidade, para ele, é caracterizada principalmente por sua dimensão política. Ainda para Agier, "nas pesquisas mais recentes sobre as relações étnico-raciais nas sociedades complexas, industrializadas e urbanas, que se afastam da tradicional antropologia culturalista, está em questão a formação de sujeitos coletivos mediante o uso de referenciais étnicos, em sua busca de um espaço na modernidade" (Idem: 08). Espaço, segundo ele, disponível para uma população negra e mestiça a priori desfavorecida, em termos de status e de acesso ao poder, na sociedade global. Nesse caso, "em vez de excluir, a etnopolítica negro-baiana de hoje representa uma forma de integração e participação na sociedade" (Idem: 08). Quanto ao funk do Periperi é até questionável se há a busca de um espaço na modernidade ou uma tentativa de integração e participação na sociedade, mas se há, o caminho certamente não parece ser traçado através de referenciais étnicos. Em relação ao "Black Bahia" seria ainda precipitado afirmar, como já havia sido constatado anteriormente, que existe uma "identidade de dançarino funk" ou um sentido de "ser funkeiro" muito bem definido e fechado. Por outro lado, apesar de se tratar de uma grande maioria negra-mestiça de participantes, é possível antecipar que a identidade étnica não é determinante quanto ao sentimento de pertencimento do grupo. Contudo, isso não significa que não haja uma identidade étnica entre os "funkeiros" do Periperi. Na verdade, a questão étnica e de classe se fazem presentes naquele universo, mas o que vem se percebendo é que os frequentadores do baile não se utilizam desses discursos para afirmar a sua identidade. Ninguém vai ao baile para questionar ou discutir esses fatores, que são inclusive, intrínsecos, mas que se tornam secundários, pois não são nesses termos que eles se apresentam quando se trata de viver o momento do baile , que tem três horas e vinte minutos de duração. O que estaria ocorrendo nas sociedades contemporâneas, especificamente em relação a esses grupos que vêm emergindo, é a necessidade de se pensar uma identidade coletiva mais aberta, onde os membros dessas coletividades realmente se sintam constituintes de uma identidade partilhada, adquirida e não mais unicamente atribuída ou hereditária, como nas sociedades tradicionais. Para tanto, vale a pena ressaltar a "escolha" como um fator de extrema importância, geralmente apresentada em níveis diferenciados, mas que possui um teor consistente diante dos múltiplos interesses que "calcificam" essa nova sociabilidade, envolvendo os participantes desses pequenos grupos que se multiplicam em meio à dinâmica das sociedades atuais. Esses múltiplos interesses, então, contribuem fortemente na configuração da identidade dos grupos emergentes, embora não almeje descartar de imediato a questão da etnia e da classe, mas pôr em dúvida o caráter preponderante desses dois elementos como praticamente os únicos (pelo menos os mais fortes) pilares de sustentação da identidade coletiva. Consequentemente, isso vem fazendo com que os modelos clássicos sustentados pela sociologia e antropologia devam ser ampliados por não contemplarem as novas tecnologias comunicacionais, as quais estão diretamente relacionadas à construção da identidade coletiva desses grupos. Nesse contexto, Michel Maffesoli acredita que, em relação aos novos grupos sociais emergentes, denominados metaforicamente por ele de "tribos", as pessoas estabelecem ligações umas com as outras, movidas por esses múltiplos interesses. Mas ele afirma haver uma 'alma coletiva', na qual "as atitudes, identidades, e as individualidades se apagam". Assim, ele advoga que a de identidade não possui mais nenhum vigor, sendo substituída pela "teoria de identificação de simpatia", ou seja, ao contrário de possuir uma identidade fixa, o grupo possui valores coletivos que proporcionam à pessoa uma (auto) identificação, podendo essa mesma pessoa também ser simpática a outro grupo, passando a fazer parte de uma nova tribo (Maffesoli, 1987:93,106). Maffesoli propõe tal idéia, mas não explica claramente o processo em que se dá essa substituição. Simplesmente, para ele, as pessoas hoje vivem o que se poderia chamar de identidade circunstancial. Apesar de Maffesoli apresentar um modelo alternativo de se pensar a questão da identidade nas sociedades contemporâneas, suas idéias não chegam propriamente a confrontar àquelas utilizadas pela antropologia e sociologia clássica. Ele simplesmente nega o conceito de identidade a partir do momento em que este não consegue explicar as novas formas de vida social, quando o que pode estar acontecendo é algo menos radical: os modelos clássicos sustentados pela sociologia e antropologia, como já foi dito há pouco, não contemplam as novas tecnologias comunicacionais, fazendo com que o conceito de identidade coletiva muitas vezes não se encaixe a determinadas realidades, principalmente no que se refere aos grupos sociais emergentes na contemporaneidade. Para Francisco Rudiger, o que enfraquece as idéias de Maffesoli é "a falta de estudos empíricos, substituídos por uma espécie de sociologia de gabinete, que não nos permite saber qual é de fato a orientação da sua pesquisa. De qualquer modo, ressalta das declarações programáticas e hipóteses de pesquisa do autor, uma metodologia compreensiva que, reduzida à compilação comparativa de exemplos extraídos da bibliografia sociológica, tem cunho muito mais classificador do que descritivo da pluralidade conflitual da socialidade" (Rudiger, 1991:56). A cor do "Black Bahia" É verdade que a "escolha" dentro dos múltiplos interesses pode não ser tão natural quanto parece. Afinal, existem elementos como a questão da etnia e da estrutura de classe, além do gênero e da idade que perpassam toda e qualquer realidade, inclusive o funk do Periperi.. Mas existem também alguns detalhes dentro da realidade do "Black Bahia", no tocante ao sentimento de pertencimento do grupo, que não podem ser ignorados e que, de certa forma, minimizam, principalmente, o caráter étnico. Para um dos participantes do baile ( ex-integrante do grupo "Feras do Funk"), ser "funkeiro" de verdade "não depende da cor". Além de saber dançar, é preciso que se tenha "o funk correndo nas veias; não importa se a pessoa é branca ou preta, desde que saiba boas coreografias e leve a coisa a sério, está aceita no grupo" 3. Outro dado relevante diz respeito ao nome do baile: "Black Bahia" significa nada ou muito pouco para os frequentadores. Algumas pessoas nem sabem que o baile leva esse nome, os que sabem, desconhecem o seu significado. Um componente de um dos grupos chegou a declarar que se a tradução de "Black Bahia" for "Preto Bahia", o nome "não tem sentido algum". Um dos DJ's do "Black Bahia", que frequenta o local há cerca de dez anos, também considera o nome do baile irrelevante. Ele diz que por algum motivo o dono da 'equipe' de som colocou esse nome e "pegou", porque "costumam associar o funk à cultura negra, mas para mim, não tem nada a ver uma coisa com a outra". Em relação ainda ao nome do baile, um dos membros do "Feras do Funk" desconfia que "o 'dono' do "Black Bahia" inventou qualquer nome" ou ainda, que ele pode ter tido como base o fato do subúrbio "ter mais preto", o que não seria o suficiente para nomear um baile, já que no "Black Bahia", segundo ele, "tem preto e branco", ou seja, o baile é "misturado". Na verdade, essas considerações minimizam a presença da identidade étnica no contexto do baile, principalmente quando ele considera a maioria negra-mestiça de frequentadores como um dado muito mais geográfico, em relação à cidade, do que uma ligação propriamente com o funk. "O baile é misturado, mas se tem mais preto, é porque o povo daqui é dessa cor; se tiver uma festa com pagode aos sábados, dá esse mesmo tipo de raça: "misturado". Embora esses depoimentos ainda não sejam suficientemente representativos, já conseguem fornecer algumas pistas quantoredefinição da identidade cultural dos grupos sociais emergentes na contemporaneidade, e no caso concreto, do grupo funk do "Black Bahia". Em relação ao mundo funk carioca, por exemplo, Hermano Vianna afirma que, apesar da maioria negra de dançarinos, os bailes não enfatizam o dado étnico. Para ele, as pessoas frequentam o baile, não por um tipo de música, mas principalmente pelo 'ambiente', isto é, "as outras pessoas, os amigos que se encontram e se divertem juntos, a alegria de viver em bando" (Vianna, 1988:98,108). Nessa perspectiva, o lazer (leia-se também os múltiplos interesses) ocupa um lugar de destaque na vida dessas pessoas, talvez até podendo ser considerado um dos elementos definidores da identidade coletiva. Além dos depoimentos, o trabalho de observação mostra que os muitos motivos que levam as pessoas ao baile passam pela dança, pela música, pelo ritmo em si ou até pela paquera, pois a dinâmica do baile cumpre um ritual que coloca em evidência esses elementos, canalizando o sentido de ser "funkeiro" para um desses interesses. Um dos membros do "Feras do Funk", por exemplo, afirma que o funkeiro típico tem que, além de curtir o funk, dançar. "Tem que perder tempo, perder tempo curtindo funk, dançar, passar o dia todo ouvindo funk, dormir e acordar ouvindo funk". Nova etnicidade ou nova identidade ? Com uma visão ainda mais relativizadora quanto a questão da etnicidade, o antropólogo Lívio Sansone considera a valorização do lazer uma espécie de mecanismo utilizado pelos "negros" para contornar a desvalorização da profissão que, segundo ele, vem contribuindo para a redefinição da identidade negra entre os jovens baianos das classes baixas (Sansone, 1993:01). "A 'cultura negra' é um espaço/momento em que os negros sentem-se à vontade como negros e no qual podem interagir com não negros com maior força, mas não é como tal, um reduto de sentimentos étnicos". Assim, a 'cultura negra' " é mais um jeito de 'driblar' o racismo do que combatê-lo organizadamente". Ele ainda ressalta que outra importante característica dessa nova identidade negra é a sua orientação internacional, onde os símbolos étnicos extrapolam o universo afro-brasileiro, passando por um processo de reinterpretação, com influência de símbolos negros e produtos culturais de outros países (Idem: 19). Segundo Sansone, os avanços na indústria do lazer, nos meios de comunicação, na indústria musical e na eletrônica de consumo, propiciam a criação de novas identidades para jovens negros de diferentes países, o que ele chama de "produção de uma cultura negra", onde precisamente o consumo é fator determinante. Com isso, Sansone contesta a visão da identidade étnica negra como algo estático, atribuído. Ao contrário, ele apresenta a identidade étnica como também manipulável (Sansone, 1991:121). "Os indicadores étnicos e as formas de participação tradicionais na comunidade étnica são substituídos por indicadores e formas que estejam mais de acordo com a necessidade de participar da vida social da cidade moderna" 4. Os bailes funk do "Black Bahia", para Sansone, são um exemplo dessa nova identidade negra, onde a moda e o estilo dos "funkeiros", "originalmente cariocas e hoje populares também em Salvador, são uma reinterpretação das capas dos discos importados e das imagens estilizadas dos guetos negros norte-americanos conhecidas através dos filmes do diretor Spike Lee" (Sansone, 1993:20). Em síntese, o antropólogo acredita que essa nova identidade étnica pode se combinar com a modernidade e outras identidades sociais, permitindo aos grupos étnicos uma "filiação em tempo parcial - durante a noite, no lazer e no fim de semana" (Sansone, 1992:145). Assim, ainda para Sansone, pertencer a um grupo étnico, pode concorrer com a fidelidade a outras identidades sociais. "A essa combinação de (in)fidelidades múltiplas acrescenta-se o ecletismo da identidade étnica" (Idem: 145). Essa discussão, sobre a nova etnicidade ou etnicidade simbólica, segundo o pesquisador, se aplica, inclusive, ao universo do "Black Bahia". No entanto, valeria a pena questionar até que ponto constata-se apenas a configuração de uma nova identidade sob a vertente étnica. Afinal, é notório que o lazer e a festa têm ocupado um "lugar" especial na vida desses jovens, ainda mais por se tratar de uma "explícita" escolha. Então, por que não falar em uma nova identidade, agora com orientação para outros interesses, sem ter necessariamente que estar apoiada em uma base étnica? Não seria a comunicação mediática um suporte essencial para a construção dessa nova identidade, chegando até a ser responsável pela existência do grupo enquanto grupo? A etnicidade ou a "nova etnicidade", apesar de não parecer assumir um caráter preponderante no processo de construção de uma nova identidade no "Black Bahia", não pode ser vista como algo totalmente sem importância naquele universo. O que se pretende com essa investigação é provocar um cruzamento, tanto da antropologia clássica, quanto das teorias tecidas na contemporaneidade, tomando uma pesquisa empírica como cenário para realizar essas discussões, onde a aplicabilidade de determinadas teorias poderão ser verificadas mais cuidadosamente. * Suylan Midlej é mestranda em Comunicação e Cultura na Facom-UFBA. ^ NOTAS 1. O baile funk "Black Bahia", realizado no Periperi, bairro do suburbio de Salvador, é o objeto de estudo da pesquisa, ainda em andamento, intitulada Comunicação midiática e identidade: grupos sociais emergentes na contemporaneidade, a ser apresentada no Mestrado de Comunicação e Cultura Contemporâneas da UFBA. ^ 2. "A comunidade midiática é um tipo de comunidade mais mediado que outros (...) aponta para a mídia, para a interpretação necessária de meios socio-tecnológicos" (Rubim, 1991:6). ^ 3. Esse depoimento foi, na verdade, um desabafo depois que o frequentador do baile viu uma matéria intitulada "Pretos, pobres, violentos", publicada na revista semanal Veja, Editoa Abril, edição 1322, 12/01/94, sobre as muitas realidades da periferia do Brasil (Hip Hop, rap, funk), onde o "Black Bahia" aparece brevemente descrito. ^ 4. Tal afirmação se refere aos creoles na sociedade holandesa, então objeto de estudo do pesquisador. No entanto, é perfeitamente cabível no universo da "produção de uma cultura negra" de forma mais ampla, já que o próprio autor fala na intencionalização dos símbolos culturais (Sansone, 1991:125). ^ BIBLIOGRAFIA AGIER, Michel. Etnografias do Espaço Negro na Bahia. Cantos e Toques, Caderno CRH, Suplemento, Salvador, 1991, p. 5-16; BRANDÃO, Carlos R. Identidade e Etnia. Brasiliense, São Paulo, 1986; MAFFESOLI, Michel. O Tempo das Tribos : O Declínio do Individualismo nas Sociedades de Massa. Forense Universitária, Rio de Janeiro, 1987; OLIVEIRA, Roberto Cardoso. Identidade, Etnia e Estrutura Social. Livraria Pioneira, São Paul, 1976; PALÁCIOS, Marcos. O Medo do Vazio: Comunicação, Socialidade e Novas Tribos. (mimeo), Salvador, 1993; RODRIGUES, Adriano Duarte. Comunicação e Cultura : A Experiência Cultural na Era da Informação. Presença Editorial, Lisboa, 1994; RUBIM, A. Albino. Comunicação e Política (entrevista). In: Caderno CEAS, set./out., p. 6-14; RUDIGER, Ricardo. Massa e Civilização : Leitura de Michel Maffesoli. In: Veritas, Porto Alegre, v.36, n0 141, março/94, p.47-62; SANSONE, Lívio. A Produção de uma Cultura Negra : Da cultura creole à subcultura negra. A nova etnicidade negra dos jovens creoles surinameses de classe baixa em Amsterdam. In: Estudos Afro-Asiáticos, Salvador, n0 20, junho/91, p. 121-124; SANSONE, Lívio. Cor, Classe e Modernidade em duas áreas da Bahia: algumas primeiras impressões . In: Estudos Afro-Asiáticos, Salvador, n0 23, Dez/93, p. 143-173; SANSONE, Lívio. Pai Preto, Filho Negro : trabalho, cor e diferenças de geração. In: Estudos Afro-Asiáticos, Salvador, n0 25, 1994; SILVA, Suylan M. Comunicação entre Diferentes : Índios Maxakali e a sociedade dos "brancos" (Adaptação do Projeto Experimental apresentado ao Curso de Comunicação Social da PUC-MG). In: Cadernos de Projetos Experimentais, Edições PUC-MG, BeloHorizonte, n0 2, p.37-52; SILVA, Suylan M. Sociabilidade e identidade : domingos de funk no "Black Bahia"do Periperi. Diadorim, Rio de Janeiro, p. 289-304; VIANNA, Hermano. O Mundo Funk Carioca, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1988. |