Estas são as primeiras palavras da Ode Triunfal de Fernando Pessoa, versos que anunciam a civilização industrial e, ao mesmo tempo, solicitam um tipo de escrita que encarna a velocidade, o ruído, a textura, a anatomia e o sentido desta civilização. O poema avança e a cada verso o sentido pretendido reveste-se dos elementos que recolhe, e mais do que um elogio emocionado, transforma-se num passeio vertiginoso pela paisagem de um mundo povoado por máquinas, circuitos, cores... "Ó coisas todas modernas, - Ó minhas contemporâneas, forma atual e próxima - Do sistema imediato do Universo!". Como convém aos atores da cena contemporânea, está em jogo a surpresa e a familiaridade com um universo povoado de entidades gestadas nos processos industriais e capitalistas e que transitam segundo uma lógica que coloniza cada vez mais os vários lugares da existência. O modo como se vivencia este mundo é, ele mesmo, reescrito e dito numa gramática surpreendente e aqueles personagens não somente se locomovem num automóvel ou vêem um filme no cinema, mais que isso, eles se movem e vêem através das máquinas e dos instrumentos tecnologicamente concebidos. O sentido que se extrai, ou se constrói, na experiência, emerge do mundo que temos para viver. É neste movimento que o presente livro procura realizar uma tarefa, ao mesmo tempo necessária e extravagante, cômoda e difícil; os ensaios aqui reunidos são esforços deliberadamente assimétricos de estabelecer e explorar um horizonte de temas, problemas e recortes conceituais que permitam uma cartografia do sentido manifesta na época da cultura midiática. Tal empenho é necessário e cômodo porque este é o óbvio campo das nossas experiências atuais, que precisamos compreender nas suas contradições e peculiaridades; mas também, é extravagante e difícil, porque, pelo motivo anterior, passamos a lidar com vários discursos acadêmicos que na verdade estão formulando apostas conceituais e metodológicas arriscadas na sentido de postular uma certa reflexão - apostas que mostram um certo estágio da pesquisa em comunicação cujas categorias estão sendo elaboradas. Temos febre e escrevemos. Seguindo a linha editorial das duas publicações anteriores (Nexos da Comunicação e Janelas e Imagens), este livro reune ensaios de pesquisadores (docentes e discentes) do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da Universidade Federal da Bahia, em torno de três núcleos temáticos que, guardadas as diferenças de tratamento epistemológico, - da semiótica à semiologia, da análise do discurso à sociologia e à hermenêutica - agrupam problemas decisivos do atual panorama da investigação em comunicação social. A primeira parte recebe o título "Sociabilidade na Época da Mídia" pois traz estudos que discutem os processos de socialização, políticos e culturais, característicos da cultura contemporânea, notadamente marcada pelos meios de comunicação de massa e os modos massivos de convivência. A segunda parte, "O Olho e a Máquina", ocupa-se de questões pertinentes à análise e interpretação do fenômeno do cinema e da construção da visualidade dos processos e técnicas atuais. Finalmente, a terceira parte, "Interpretação e Significação", traz dois ensaios de pretenções filosóficas sobre os processos de significação na pragmática e na estética da comunicação. Este livro não seria possível de ser realizado caso não contássemos com o apoio da Coordenação do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da Universidade Federal da Bahia. Antônio Albino Canelas Rubin Diretor da Faculdade de Comunicação-UFBA |