Texto: Stefane Luz*
A presença de comunicação nas ocupações, marchas, campanhas e intervenções artísticas constrói coletivamente suas formas de resistência. Ao apresentar as novas perspectivas sobre o tema, a tese "Fluxos ativistas e territórios: afetos e repertórios na configuração comunicacional de ativismos políticos no Brasil", de Daniel Oliveira de Farias (Daathowa Fulni-ô) conquistou dois importantes prêmios em 2026. Sob a orientação da professora Itania Maria Mota Gomes, a investigação foi desenvolvida no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas (PósCom) da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
A pesquisa analisa como diferentes movimentos sociais articulam práticas comunicacionais, afetos e disputas territoriais em suas ações políticas. De acordo com o pesquisador Daniel Farias, o estudo parte da ideia de que os ativismos atuais funcionam como "fluxos ativistas": “A concepção que eu desenvolvo na tese faz parte de um processo social de reconfiguração da forma como o ativismo acontece. Seja numa manifestação de rua, seja numa articulação de protesto em plataforma de rede social”, afirma Daniel.
Segundo o pesquisador, distinguir "ativismo digital" do "ativismo de rua" já não é suficiente para compreender a complexidade das mobilizações contemporâneas. “O modo como a gente está em uma manifestação atualmente se relaciona ao modo que a gente usa os dispositivos digitais. De maneira mais ampla, para mim, não fazia sentido essa separação", defende Daniel. "A nossa experiência não é mais separada; teve um certo momento histórico em que se entrava na internet e saía da internet, hoje vivemos conectados”.
Dessa forma, as redes sociais, os vídeos, as transmissões ao vivo, os protestos, as ocupações e outras formas de expressão fariam parte de um mesmo processo comunicacional. Nesse contexto, a comunicação deixa de ser apenas um instrumento de divulgação, tornando-se um elemento de constituição do próprio ativismo.
Metodologia
Daniel propõe uma metodologia denominada cartografia em fluxo, que busca mapear as conexões entre diferentes experiências de luta por território no Brasil. Em vez de estudar casos isolados, o autor estabelece relações entre movimentos, campanhas e ações políticas que compartilham formas semelhantes de organização, comunicação e resistência.
Entre os exemplos analisados estão o Acampamento Terra Livre (ATL), organizado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), a ação direta Fogo no Borba Gato, realizada pelo coletivo Revolução Periférica, a campanha nacional Despejo Zero, mobilizações do povo Guarani Mbya em defesa da Terra Indígena Jaraguá, a Jornada de Agroecologia da Bahia e ações de retomada de territórios indígenas no Nordeste. Esses diferentes episódios demonstram como a comunicação participa de todas as etapas da mobilização política, desde a construção de alianças até a disputa por narrativas públicas.
É possível destacar um ponto em comum entre esses exemplos: a valorização das experiências de resistência dos povos indígenas, quilombolas, periféricos e de outras coletividades que lutam pela defesa do território e da vida: “Essas lutas que estavam acontecendo, em um primeiro olhar, de maneira fragmentada, na verdade tinham pontos de articulação importantes, que é a luta territorial, ou seja, processos que envolvem o território centralmente”, explica Daniel.
Resultados
Um dos principais resultados da pesquisa é a demonstração de que os processos comunicacionais vão além da circulação de informações. O autor identifica formas comunicativas específicas que emergem das lutas por território, como o uso de datas importantes para os movimentos sociais, ou que são de alguma forma celebradas, para realização de ações diretas, pensando na circulação nas plataformas e nos veículos jornalísticos de maneira geral.
Essas práticas agrupam diferentes linguagens na ideia de fortalecer identidades coletivas, mobilizar afetos e construir novas formas de participação política. “Eu destaco nesse sentido na minha cartografia em fluxo na tese, as expressões ‘demarcar telas’ e ‘reflorestar mentes’, que são duas expressões recorrentes no movimento indígena”, descreve Daniel Farias. “Demarcar as telas traz esse sentido interligado da comunicação com o território, porque a expressão tradicional do movimento indígena é ‘demarcação já’, demarcar território. E reflorestar mentes também tem esse sentido como um movimento, uma produção audiovisual, uma plataforma”.

Foto: Compós (Divulgação)
A pesquisa também questiona interpretações que atribuem às tecnologias digitais um papel determinante na organização dos movimentos sociais. Em vez de compreender as plataformas digitais como responsáveis pelas mobilizações, o estudo argumenta que elas fazem parte de processos culturais mais amplos, nos quais diferentes formas de comunicação são constantemente apropriadas, ressignificadas e articuladas às experiências territoriais.
Impacto
Ao propor uma nova abordagem para compreender os ativismos políticos contemporâneos, a tese conquistou dois importantes prêmios em 2026: o de melhor tese, pelo prêmio Compós de Teses e Dissertações Eduardo Peñuela Cañizal, e o Prêmio Intercom de Pesquisa em Comunicação. O reconhecimento expõe as possibilidades de investigação no campo da Comunicação e contribui para os debates sobre democracia, participação política, tecnologias e disputas territoriais.
Parte desse impacto está relacionada ao lugar de onde a pesquisa é produzida. Daniel Oliveira de Farias é indígena Fulni-ô e incorpora sua trajetória e suas experiências com movimentos indígenas como parte da construção metodológica da investigação: “Essa conexão é muito forte com a minha experiência como pesquisador indígena. E em um nível mais específico, é importante compreender como esse processo de mudança se dá a partir das lutas territoriais no Brasil, que são lutas que me afetam, me engajam e portanto me mobilizam na pesquisa também, porque eu não separo o que a minha vida enquanto sujeito no mundo, da minha vida quanto pesquisador”, acredita.
Para Daniel, a pesquisa também abre caminhos para novas investigações. “A tese constrói um percurso que possui desdobramentos, exige novas reflexões, novas pesquisas, mas que aponta para um um modo de cartografar essa forma comunicativa do ativismo”, reconhece as possibilidades, destacando, ainda, as contribuições realizadas. “A cartografia em fluxo foi bem-sucedida no sentido de mostrar como as formas espaciais, as formas comunicativas e de apropriação das plataformas digitais, estão conectadas nos eventos de protesto e no cotidiano dos movimentos sociais.”, conclui.
Foto (2): Clara Pessoa
* Sob orientação de Jessica Carvalho
O quê: XLV Seminário Estudantil de Pesquisa e XXVII Seminário de Pesquisa e Pós-Graduação.
Quando: 23 a 25 de novembro de 2026
Reforçamos o comunicado (26/08/2026) acerca da suspensão das aulas no período de 23 a 25 de novembro de 2026, conforme estabelecido na Resolução nº 02/2026, em razão da realização do XLV Seminário Estudantil de Pesquisa e do XXVII Seminário de Pesquisa e Pós-Graduação.
O envio dos resumo pode ser feito até 23 de setembro.
Nesta edição, o Seminário reúne a produção de estudantes dos programas PIBIC/PIBITI, Sankofa, Permanecer, PET, Pibiexa e de pós-graduação vinculados aos programas institucionais de pesquisa e de extensão da universidade, reafirmando o compromisso da UFBA com a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. As atividades serão compostas por sessões de Comunicação Oral e de Intervenções Artísticas.
Envio dos resumos: até 23/09/2026
Aprovação pelo orientador: até 30/09/2026
Ressubmissão de atividade não aprovada: até 05/10/2026 Aprovação da ressubmissão pelo orientador: até 07/10/2026 Divulgação do cronograma e local das apresentações: 04/11/2026
Inscrições e programação completa em: seminario2026.ufba.br
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Ressubmissão de atividade não aprovada: até 05/10/2026 Aprovação da ressubmissão pelo orientador: até 07/10/2026 Divulgação do cronograma e local das apresentações: 04/11/2026
Inscrições e programação completa em: seminario2026.ufba.br
Suspensão de atividades acadêmicas em relação a realização de Seminário de Pesquisa estudantil
O quê: XLV Seminário Estudantil de Pesquisa e XXVII Seminário de Pesquisa e Pós-Graduação.
Quando: 23 a 25 de novembro de 2026
Reforçamos o comunicado (26/08/2026) acerca da suspensão das aulas no período de 23 a 25 de novembro de 2026, conforme estabelecido na Resolução nº 02/2026, em razão da realização do XLV Seminário Estudantil de Pesquisa e do XXVII Seminário de Pesquisa e Pós-Graduação.
O envio dos resumo pode ser feito até 23 de setembro.
Nesta edição, o Seminário reúne a produção de estudantes dos programas PIBIC/PIBITI, Sankofa, Permanecer, PET, Pibiexa e de pós-graduação vinculados aos programas institucionais de pesquisa e de extensão da universidade, reafirmando o compromisso da UFBA com a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. As atividades serão compostas por sessões de Comunicação Oral e de Intervenções Artísticas.
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